Greve dos caminhoneiros: Associação de autônomos diz que caminhoneiros estão sendo ameaçados por “intervencionistas”

Após a última negociação feita entre o Governo Federal e os representantes da categoria dos caminhoneiros, esperava-se que a greve teria o seu fim. Entretanto, estamos no 9º dia de greve dos caminhoneiros e, ainda que de maneira reduzida, é possível verificar que seus reflexos continuam impactando o País, especialmente, o desabastecimento de combustível nos postos e a escassez de gêneros alimentícios.

Ontem (28), o presidente da ABCAM – Associação Brasileira dos Caminhoneiros, José da Fonseca Lopes, declarou que os caminhoneiros não estão mais em greve e que “Não é o caminhoneiro mais que está fazendo greve. Tem um grupo muito forte de intervencionistas aí e eu vi isso aqui em Brasília, e eles estão prendendo caminhão em tudo que é lugar”, declarou. “São pessoas que querem derrubar o governo. Não tenho nada a ver com essas pessoas nem os nossos caminhoneiros autônomos têm. Mas estão sendo usados para isso.” “O pessoal quer voltar a trabalhar, mas eles têm medo porque estão sendo ameaçados de forma violenta“, afirmou.[1]

Questionado acerca de quem são os “intervencionistas”, Lopes afirmou que, antes de divulgar tais nomes, informará ao Governo.

O presidente da ABCAM estima que pouco menos de um terço dos caminhoneiros resistem a manter a greve e que, ainda hoje (29), ela terá o seu fim. “Não acabou ainda porque estamos num país continental e isso aí demanda uma série de situações, algumas informações para a pessoa começar a entender que realmente toda a negociação feita atingiu a necessidade deles“, disse Lopes.

Já o presidente da UNICAM – União Nacional dos Caminhoneiros, José Araújo Silva (o China) não está tão otimista quando ao fim da greve. Para China, uma das marcas dessa greve é a ampla utilização do WhatsApp, que criou um “monte de líderes” no movimento. De acordo com o Estadão, na segunda-feira (28), nos grupos de WhatsApp, alguns caminhoneiros chamavam os representantes que aceitaram o acordo de traidores. Em uma das mensagens, um manifestante incitava os demais para se juntarem e “darem um pau” em um sindicalista.[2]

Em entrevista coletiva no Palácio do Planalto, o ministro Carlos Marun (Secretaria de Governo) afirmou que o serviço de inteligência do Governo Federal acredita que pessoas com objetivos políticos estejam infiltradas no movimento dos caminhoneiros.

O deputado e presidenciável Jair Bolsonaro (PSL-RJ), também se pronunciou. Em entrevista dada à Folha, negou ter ligação com lideranças do movimento que pleiteiam a intervenção militar e afirmou que a paralisação dos caminhoneiros já chegou ao seu ápice e, portanto, precisaria acabar. “Não interessa a mim, ao Brasil, o caos”, declarou. Por “caos” ele citou a ideia de derrubada do presidente Michel Temer (MDB). “Se faltasse um ano e meio, dois, três, tudo bem, pô.[3]

Bolsonaro tem sido criticado por ter um discurso duplo e oportunista sobre a greve. Antes de apoiá-la, havia apresentado Projeto de Lei que pretende criminalizar a interdição de vias, prevendo pena de prisão para manifestantes que fecharem estradas. O Projeto acabou apensado no de autoria do deputado Maurício Quintella (PR-AL), ex-ministro dos Transportes e foi aprovado pela CCJ – Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, em agosto de 2015. Desde então, o Projeto está parado na Casa.

Em entrevista para O Globo, o cientista político Cláudio Couto, da Fundação Getúlio Vargas (FGV) afirmou que Bolsonaro se vale de “momentos nebulosos”, como a paralisação dos caminhoneiros, para ganhar projeção e apoio com um discurso “populista e extremista”. [4]

Nessa linha, José Álvaro Moisés, professor de ciência política da USP, declarou que “Jair Bolsonaro deu declarações apoiando o movimento (dos caminhoneiros), demonstrando que não tem nenhuma preocupação com a vida da sociedade. Ele quer se aproveitar de uma circunstância grave e extremamente delicada, sem levar em consideração o papel do governo e do estado, em uma clara atitude tipicamente populista”. [5]

Sobre a pauta “intervenção militar”, o ministro do Gabinete de Segurança Institucional, Sergio Etchegoyen, afirmou nesta terça-feira (29), no Palácio do Planalto, que falar em intervenção militar é “assunto do século passado”. “Não vejo nenhum militar, não vejo Forças Armadas pensando nisso, não conheço absolutamente“, declarou.[6]

[1] https://g1.globo.com/politica/noticia/lider-diz-que-caminhoneiros-querem-voltar-ao-trabalho-mas-intervencionistas-que-buscam-derrubar-o-governo-nao-deixam.ghtml

[2] https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,em-grupos-do-whatsapp-caminhoneiros-pedem-intervencao-militar,70002327732

[3] https://www1.folha.uol.com.br/amp/poder/2018/05/a-paralisacao-precisa-acabar-nao-interessa-a-mim-ao-brasil-o-caos-diz-bolsonaro.shtml

[4] https://oglobo.globo.com/brasil/antes-de-apoiar-greve-bolsonaro-apresentou-projeto-que-criminaliza-interdicao-de-vias-22726272

[5] https://oglobo.globo.com/brasil/antes-de-apoiar-greve-bolsonaro-apresentou-projeto-que-criminaliza-interdicao-de-vias-22726272

[6] https://g1.globo.com/politica/noticia/assunto-do-seculo-passado-diz-ministro-sobre-pedidos-de-intervencao-militar.ghtml

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