Há algo de bom na África?

Os estudos sobre a colonização e o regime escravocrata no Brasil ou sobre a Partilha da África pelos europeus (século XIX) não têm sido suficientes para estabelecer, na consciência dos brasileiros, que a África é um continente, que contém, hoje, 55 países, compostos por cultura, religião, legislação e organização social muito distintos um dos outros.

Há até quem argumente que essa generalização decorra de ausência de estudo, porém, o real motivo disso é o racismo. A partir do momento em que a história é contada apenas pelos colonizadores, não há preocupação em distinguir os vários povos africanos; pelo contrário, constitui-se em razão do racismo a figura do outro para haver a apartação entre os civilizados e os incivilizados. Como afirma Frantz Fanon, o outro é o estranho que não se comporta como membro ou parte do grupo dominante. O padrão universalizante estabelecido é o eurocêntrico.

Em razão disso, tudo relacionado ao continente africano era e ainda é, mesmo que em menor medida, associado à negatividade. Por exemplo, as notícias dos países africanos transmitidas nas redes de jornais e sociais brasileiras estão sempre relacionadas a pobreza, fome, guerra e governos autoritários.

Nesse sentido, o fundamento para a inferiorização da África não é a desigualdade, mas a raça. Isso está tão normalizado que, em abril de 2020, médicos franceses sugeriram fazer testes de vacina para a COVID-19 em países africanos. Outrora, os estigmas que construíram a figura do negro como alguém inferior e até desumanizado fizeram com que medidas humanitárias não fossem adotadas de forma imediata para enfrentar o genocídio de Ruanda, em 1994.

Mesmo que atualmente esteja na moda colocar na mídia representações que valorizem o continente africano, limita-se ao estereótipo do exótico e da questão de identidade.

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Universidade de Cape Town. Foto: Waleska Miguel Batista em viagem à África do Sul

Asad Haider, em seu livro Armadilha de identidade: raça e classe nos dias de hoje (2019), afirma que “política identitária é uma neutralização de movimentos contra a opressão racial. É a ideologia que surgiu para apropriar esse legado emancipatório e colocá-lo a serviço do avanço das elites políticas e econômicas”.

Achille Mbembe, em seu livro O Sair da Grande Noite (2018), afirma que “diferente dos ‘franceses de origem’, as minorias se caracterizam acima de tudo pelo exotismo de seus costumes, vestuário e culinária”. Esse autor também aponta que a formação do Estado e da nação muitas vezes acaba reproduzindo estruturas similares às do apartheid.

E para combater essa racionalidade de subalternar tudo que seja associado à África, tem-se destacado a produção de filmes que apresentam os países africanos com conflitos similares a qualquer outro país. Através deles, é possível o acesso a cultura, religião e costumes e, principalmente, o enfrentamento do imaginário negativo, já que mostra pessoas negras em diversas posições e condições sociais. Alguns filmes estão disponíveis na Netflix e dão a oportunidade de uma nova forma de enxergar os países africanos, bem como os negros. Por exemplos, Love is War, Isoken, The Wedding Party e tantos outros.

Outro ponto: a África também é lembrada quando se fala dos animais conhecidos como Big5, como o leão, elefante, búfalo-africano, leopardo e rinoceronte.

É importante mencionar que o continente africano possui para além disso, países ricos em histórias e museus que retratam a história da humanidade como os países europeus.

Também é possível destacar as realizações de pessoas como Steve Bantu Biko, torturado e assassinado pelo regime apartheid, tendo mobilizado a juventude de seu país (África do Sul) para lutar contra o racismo e eurocentrismo. Outra pessoa importante é o Arcebispo Desmond Tutu, que recebeu o Prêmio Nobel da Paz, em 1984, por lutar contra o apartheid. E Nelson Mandela, que foi preso pelas lutas contra o regime de segregação, e ao conquistar a liberdade foi eleito presidente da África do Sul, em 1994. Estas pessoas deixaram um legado de luta contra a discriminação, preconceitos e desigualdades.

A produção literária de autores africanos também é maravilhosa, como os livros O Alegre canto da perdiz e Niketche: uma história de poligamia, escritos pela moçambicana Paulina Chiziane. Ou Americanah, Hibisco Roxo e Meio Sol Amarelo de autoria da nigeriana Chimamanda Ngozi Adiche e o livro Cidadã de Segunda Classe, escrito pela nigeriana Buche Emecheta.

A história da civilização de cada povo, a importância da religião, pinturas e músicas são possibilidades de conhecimento. A União Africana, formada em 2002, em sucessão à Organização da Unidade Africana (1963-1999), apresenta a divisão do continente em cinco regiões: África Central, África Oriental, Norte da África, África do Sul e África Ocidental.

Chimamanda Ngozi Adiche, em um TED Talk de 2009, afirmou que “as histórias importam. Muitas histórias importam. As histórias foram usadas para espoliar e caluniar, mas também podem ser usadas para empoderar e humanizar. Elas podem despedaçar a dignidade de um povo, mas também podem reparar essa dignidade despedaçada”.

Então, é preciso descolonizar a visão sobre a África. Como narra Achille Mbembe, descolonizar, ou sair da grande noite, tem por objetivo construir uma sociedade em que não exista dominação, ou seja, “fechar os parênteses de um mundo composto por duas categorias de pessoas: de um lado, os sujeitos que agem, de outro, os objetos sobre os quais se intervém”.

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Foto: Waleska Miguel Batista em viagem à África do Sul

1 Comentário

  • Muito boa a reflexão, amiga! Exemplo do que acontece é que fatos terríveis são ignorados quando acontecem no continente africano, porém exaltados quando ocorrem em populações brancas. Até mesmo a mídia trabalha nessa lógica. Enfim, texto com muita pertinência! Parabéns.

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