JONES MANOEL: A idílica história da industrialização

Um dos muitos mitos fundantes da ideologia capitalista ocidental é a ideia de uma industrialização pacífica, progressiva, comandada por nobres e empreendedores capitães da indústria. Esse mito, embora sem qualquer base histórica, mesmo entre os marxistas, é muito forte.

Pior. Ao que parece, lemos Marx, mas não o compreendemos. Marx, desde de jovem, já sabe que é impossível contar a história da industrialização da Inglaterra sem falar da conquista colonial da América, comércio de pessoas escravizadas e o extermínio dos povos originários. Com o tempo, especialmente em O Capital, Marx desenvolve uma teoria e história da “Revolução Industrial” ainda mais complexa e compreende, por exemplo, a ligação entre colonização da América, “Leis sanguinárias” do Estado inglês, expropriação dos camponeses no processo de cercamento de terras e escravidão de negros e negras.

Fora os casos clássicos da Inglaterra e Holanda, o roteiro histórico se repete com particularidades: o processo de industrialização é uma grande mudança estrutural violentíssima e bárbara com uso de trabalho escravo, colonização, violência em massa, terror de estado e afins.

Gilberto Maringoni, de forma muito feliz, lembrou que nos Estados Unidos, para consolidar o país como potência industrial em ascensão, Lincoln dirigiu sob um firme Estado de exceção uma “guerra interna que matou 900 mil pessoas numa população de 31,5 milhões de habitantes”. O mesmo pode ser dito do Japão, Coreia do Sul, Itália, Alemanha e afins.

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Aliás, ainda sobre os Estados Unidos, um número cada vez maior de historiadores vem buscando destacar o papel do trabalho escravo, no final do século XIX para começo do XX, de negros encarcerados obrigados a trabalhos forçados e “coolie” chineses e indianos na construção da infraestrutura do país, notadamente ferrovias.

Eu me arrisco a uma hipótese histórica: a industrialização chinesa, no marco de 1949-2000, talvez tenha sido, em termos de número de vítimas, condições de trabalho e questão da escravidão e expropriação, a industrialização menos violenta da história moderna.

Por qual motivo escrevo isso? Além da importância, na luta política de hoje, de se compreender a história real da industrialização, especialmente em países periféricos, a visão desse momento da modernidade condiciona o balanço que vamos fazer sobre líderes políticos do nosso tempo.

Um simples exemplo. O balanço que vamos fazer de Getúlio Vargas depende e muito da visão que temos, em longa perspectiva histórica, dessa mudança estrutural assustadora que é a transição para um padrão urbano-industrial de sociedade.

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