Igualdade no Brasil: um pecado capital?

Por Fabio R. Saez Sola – Nesse momento em que atravessamos a pandemia causada pelo novo coronavírus, nos postamos diante de alguma telinha ao longo do nosso período de atividades, seja por questões profissionais, entretenimento, enfim: raramente não vemos um retângulo iluminado na nossa frente. Essa situação possibilita momentos de observação – via imprensa “oficial” ou através da mídia independente – e nos permite refletirmos sobre um momento inédito para todas as gerações que vivem agora no planeta . É algo que deve ser feito por todos os cidadãos, não apenas por nós, cientistas sociais, ainda mais nessa situação em que vivemos de crise política, econômica e social; parece que há uma incapacidade das pessoas exercerem o seu poder de interpretação e reflexão, geralmente por uma má vontade fomentada pelos fanatismos ideológicos compartilhados através de aplicativos de mensagens instantâneas.

Essas observações e reflexões nos evocam muitas ideias propostas pelo grande professor Roberto DaMatta, um especialista em desvendar o ethos público do povo brasileiro. DaMatta enxerga nossos lapsos enquanto povo de um Estado pretensamente democrático em fatos sociais como as festas populares, a religiosidade, o trânsito… e é uma interpretação que nos faz compreender muito as razões de falharmos nas medidas de prevenção à Covid-19 – a despeito dos governantes negacionistas de extrema-direita, pessoas de todas as classes sociais desdenharam dos métodos de prevenção à enfermidade e – sem maiores pudores – participaram de festas clandestinas, frequentaram bares, lotaram praias, realizaram encontros com estranhos via apps de relacionamento, entre outras “irresponsabilidadezinhas” insalubres – em tudo o que o brasileiro quer tirar o peso de transgressão emprega palavras no diminutivo, como em “dar um jeitinho”, “só uma roubadinha”, “aquela burladinha na lei” e outras mais.

O Brasil é um país de uma sociedade constituída que ojeriza a igualdade e isso explica muitas das situações do cotidiano e também o que vivemos nesta pandemia. O país é elitista; quando pensamos nos detentores do poder econômico, político e social, vemos que carregam a herança de uma construção aristocrática de Estado, legada pela nobreza luso-brasileira que não morreu com a Proclamação da República de 1889, pelo contrário, fomentou e se assentou no novo sistema político. Essa classe dominante – e a classe média, que se ilude ao pensar fazer parte desta camada – tem a percepção de pertencer ao cimo da hierarquia, herdeira dos rituais aristocráticos monárquicos. É a elite não deixa de ostentar na ponta da língua o “você sabe com quem está falando?”, avatar máximo da indistinção entre o público e o privado que é a marca do Estado brasileiro. No cume da pirâmide, aqueles que se consideram melhores do que os demais em razão de poder, status na máquina pública ou riqueza, não se sujeitam à obediência das leis, pois estas são elaboradas para os subalternos obedecerem. Quem acompanha os noticiários constatou como o ano de 2020 foi prolífico nas chamadas “carteiradas”, protagonizadas por poderosos quando flagrados em desobediência à legislação sanitária de combate à pandemia. Não hesitaram em humilhar agentes públicos no exercício de suas funções ao demonstrar que eram uma gente “superior”, segundo os critérios próprios de elitismo. Cumprimento de leis é para os estamentos inferiores, não é mesmo? Essas cabecinhas pensam que a igualdade não deve existir num país onde a hierarquia é tão aguda.

As classes populares também se enxergam no direito de não obedecer às leis. Não podemos deixar de ressaltar: nossa construção social é hierarquizada, fomos balizados pela escravidão e pela monarquia absolutista. Em 520 anos de Brasil, vivemos 389 de ordenações monárquicas e 131 de República – e o período republicano foi permeado por ditaduras e governos autoritários. A não-obediência é um processo de se perceber livre e não ser um escravizado, ser aquele que atribui a si mesmo as rédeas de sua vida. Na memória coletiva oriunda do cativeiro, quem não é livre tem de obedecer. No Rio de Janeiro do século XIX, para se carregar um embrulho nas mãos era necessário o emprego de um trabalhador escravizado; pessoas consideradas importantes na estrutura escravocrata eram carregadas em cadeirinhas pelos cativos, numa espécie de banalização da autoridade e também da obediência. As classes populares sempre estiveram submetidas ao intenso autoritarismo dos poderosos e a malandragem é a defesa do cidadão comum contra as ordenações – é a maneira deste estrato social considerar que as leis são para os outros; é momento sublime de burlar o corpo de leis estabelecidas – a hora e a vez do jeitinho brasileiro agir. As classes populares também querem rejeitar a igualdade perante a lei à qual estamos todos submetidos. Não obedecer é defender-se exercitando a malandragem, pois a contraparte do malandro é o otário, aquele que há 520 anos obedece aos donos do poder.

E não é só. O momento faz a reflexão do repúdio à igualdade ir além. Pensando nas bizarrices da histérica extrema-direita brasileira, talvez a mais emblemática em relação ao apreço pela desigualdade seja a evocação dos símbolos do Império Brasileiro. Quem acompanha as redes sociais pode constatar que qualquer postagem referente ao período monárquico é acometida de louvores aos membros da família imperial, uma verdadeira canonização, sempre protagonizada por usuários identificados com os extremistas de direita. Pessoas que defendem golpes militares reclamando do fato histórico fundador da República ter sido… um golpe militar! Não obstante, há os delírios sobre apenas a República ser corrupta – quando os desvios institucionais são um problema estrutural que herdamos da pátria-mãe lusitana, presentes desde sempre e fartamente documentados pelos historiadores. Por que esse fascínio pela monarquia? Outra vez a distorção da igualdade: a monarquia é um sistema de governo que reside na desigualdade. Num modelo monárquico de governo, um grupo familiar é tão mais importante que os demais cidadãos a ponto de herdar as rédeas do país sem a necessidade de nenhuma realização importante para isso, apenas uma questão de ascendência. Incensam uma monarquia desigual por natureza, que ao longo de sua existência reduziu ao cativeiro enormes quantidades de brasileiros de pele escura, a maioria da população de então. Mas o pecado maior é a igualdade.

Já que a palavra pecado está no título desta nossa breve reflexão, impossível não adentrar no aspecto de religiosidade exacerbada que temos observado em certos segmentos de crença praticados no país. A desobediência às medidas sanitárias contra o novo coronavírus também se vincula à ideia de bênção pessoal. Os fiéis se sentem tão protegidos por Deus que ignoram as normas sanitárias… afinal, estes crentes não são como as pessoas vitimadas pela pandemia, não. São aqueles que tiveram mil caídos ao lado e dez mil à direita, mas não foram atingidos, como cantava o salmista de trinta e cinco séculos passados. Não são iguais aos que pereceram em razão da pandemia. São crentes especialmente abençoados pelo Eterno, não precisam de álcool em gel, de máscaras, de distanciamento social ou evitamento de aglomerações.

Para concluirmos esse ligeiro momento de análise, não podemos deixar de abordar uma lógica pertinente a todas as classes sociais: as leis sanitárias vêm das “canetadas” do poder público, este que atravessa há muito tempo uma grande crise de confiabilidade. Afinal, o governo é visto pela classe dominante como uma instituição que almeja – e teoricamente, é o que deveria – promover a igualdade, justamente o horror da elite brasileira; e pela massa, como quem quer mantê-la na condição de otária, que a impinge muitos deveres sem a contrapartida dos direitos que lhe assegure o tão sonhado bem-estar social. Parece não haver uma sensatez sobre a urgência das medidas de proteção à pandemia e isso vai muito além de um simples negacionismo, mostra a nós mesmos quem somos.

Por: Fabio R. Saez Sola, graduado em História pela UNICID, em Ciências Sociais pela UNIMES e pós-graduado em Ciências Sociais pela FESPSP. Leciona História, Sociologia e Ensino Religioso no ECI São José e na Secretaria da Educação do Estado de São Paulo.

Para concluirmos esse ligeiro momento de análise, não podemos deixar de abordar uma lógica pertinente a todas as classes sociais: as leis sanitárias vêm das "canetadas'' do poder público, este que atravessa há muito tempo uma grande crise de confiabilidade. Afinal, o governo é visto pela classe dominante como uma instituição que almeja - e teoricamente, é o que deveria - promover a igualdade, justamente o horror da elite brasileira; e pela massa, como quem quer mantê-la na condição de otária, que a impinge muitos deveres sem a contrapartida dos direitos que lhe assegure o tão sonhado bem-estar social. Parece não haver uma sensatez sobre a urgência das medidas de proteção à pandemia e isso vai muito além de um simples negacionismo, mostra a nós mesmos quem somos.

4 Comentários

  • Parabéns pelo artigo! Muito bom o paralelo com o comportamento histórico, faz todo sentido!

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  • Parabéns Professor Fábio pelo artigo publicado e se me permite um comentário, neste momento tão difícil em que a sociedade mundial se encontra o Brasil mostrou uma grande desigualdade em nível de informação em nível de vontade e em nível de poder. O Brasil possui um problema crônico carregado desde a sua formação dentro da sua sociedade, que é a falta de sensatez que engloba obviamente todas as classes sociais. Lógico que muitas dessas atitudes não são exclusivas do Brasil mas pela grandeza do nosso país acaba se tornando uma grande referência negativa.

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  • Ótima reflexão!!! Precisamos repensar muitos aspectos da nossa sociedade, só assim reencontraremos o caminho da convivência justa e harmoniosa. Parabéns prof. Fábio.

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