Um barco pirata chamado Investimento Estrangeiro Direto (IED)

“Na economia globalizada de hoje, quem não se abre para o investimento estrangeiro, quem não abre seu mercado ao capital internacional, está fadado ao fracasso.” É o que certos economistas dizem. Mas, será que quem repete essa doutrinação barata já olhou os dados do Balanço de Pagamentos do Brasil? Se tivesse, chegaria a uma conclusão bastante diferente. Na verdade, ao se abrir ao capital internacional, os países abrem seus portos para toda sorte de pirata interessado em retirar riquezas das mãos do povo e entregar para empresários de terras distantes. É isso que os dados mostram.

Antes de argumentar com números, vamos rapidamente explicar o que se fala sobre o investimento direto. Em geral, os economistas, mesmo de esquerda, dividem o investimento estrangeiro em dois tipos, e os classifica como ruim ou bom. O investimento estrangeiro em carteira é o investimento financeiro, que é, na verdade, pura especulação em cima da riqueza do país. Nem um centavo do investimento em carteira é transformado em investimento real na economia. Isso é fato descrito até em livros didáticos de economia.

O Investimento Estrangeiro Direto (IED) é aquele que resulta da criação de novas empresas, ou compra de empresas já existentes. Ou seja, quando uma multinacional cria filiais no Brasil – ou quando compra empresas brasileiras e as transforma em suas filiais ou representantes – ela realiza investimento direto. Dizem os manuais, em especial os keynesianos, que esse tipo de investimento é bom. Talvez seja, no fantástico mundo de economistas de manuais.

Na prática, toda empresa busca apenas lucro. Nenhuma empresa investe por ser boazinha. Se ela comprou ou abriu filiais em um país, ela espera obter novos lucro. E está disposta a fazer quase tudo para o garantir. Hoje, há três formas das matrizes das firmas multinacionais retirarem lucro de suas filiais. A primeira é através do envio de rendas, lucros e dividendos, que as filiais devem repassar às suas matrizes. A segunda, já bem conhecida dos brasileiros, é o pagamento de “direitos intelectuais” (royalties). Hoje, é muito comum que as empresas multinacionais, em vez de abrir uma filial nos diversos países, comprem parte de empresas locais já existentes e as transformam em representantes. Nesse caso, passam a também cobrar royalties pela venda dos produtos de sua marca. Isso além de cobrar os lucros e dividendos referentes à sua parte da propriedade da empresa representante.

Mas existe um terceiro rio por qual fluem as riquezas dos países pobres para os países ricos: o pagamento de alugueis de máquinas – leasing. Atualmente, quando empresas multinacionais compram ou criam filiais ou representantes no Brasil, em vez de vender as máquinas necessárias para a produção de suas mercadorias, a matriz aluga as máquinas para as filiais. Em alguns casos, firmas multinacionais chegam a comprar empresas locais com maquinário e tudo, que tem sua propriedade formal transferida para a matriz da firma multinacional. Então, a filial passa a pagar leasing sobre máquinas que jamais foram tocadas por qualquer trabalhador da matriz, ou de outras filiais. Como resultado, além dos lucros e dividendos, e royalties, as filiais ainda devem pagar o leasing do maquinário que usa. Ou seja, se quisermos saber qual a contribuição real do Investimento Estrangeiro Direto no Brasil, devemos comparar os investimentos com tudo que saiu sob a forma de lucro e dividendo, royalties e leasing.

Em 2019, no Brasil, o IED possuiu um saldo de quase 78,6 bilhões de dólares (R$ 408.72 bilhões hoje), resultantes em ingresso de 150,9 bilhões de dólares (R$ 784.68 bilhões hoje) de novos investimentos, e perda de 72,3 bilhões de dólares (R$ 375.96 bilhões hoje) na forma de desinvestimento (venda de empresas multinacionais para empresas locais). Desse número já vemos que os piratas, que chamamos carinhosamente de investidores estrangeiros, retiraram em 2019, sob o governo de Bolsonaro, o equivalente a 52% de tudo que investiram no mesmo ano. Pior, o valor total de gastos do Brasil no exterior, no mesmo ano, com lucros e dividendos, royalties e leasing, somou mais de 70,6 bilhões de dólares (R$ 367.12 bilhões hoje). Ou seja, do saldo do investimento estrangeiro direto no Brasil apenas 7% ficaram no Brasil. Os outros 93% retornaram para os bolsos de estrangeiros. Ainda, se consideramos o fluxo total das operações (compra, venda, envio de lucros, etc.), que expressa o volume da movimentação de riquezas, veremos que o IED movimentou quase 294 bilhões de dólares (R$ 1.529 trilhões hoje) no Brasil. Desses, só cerca de 1,87% ficaram no país.

Enquanto isso, as exportações de bens arrecadaram para o Brasil mais de 224 bilhões de dólares (R$ 1.165 trilhões hoje), e as importações geraram um déficit de 185 bilhões de dólares (R$ 962 bilhões hoje). Ou seja: o Brasil vende propriedades, transforma suas empresas em biombos que vivem de trocar de proprietários, que tem recursos drenados até dizer chega, para adquirir pelo investimento direto um saldo que sequer alcança para pagar importações, que seguem sendo pagas pelas nossas exportações. O curioso de tudo isso é que se não tivéssemos que pagar royalties, leasing, e remessas de lucro para firmas multinacionais, economizaríamos cerca de 70,6 bilhões de dólares (R$ 367 bilhões hoje). Essa diferença transformaria as transações correntes do Brasil, que em 2019 tiveram o déficit de quase 50,8 bilhões de dólares (R$ 264.16 bilhões hoje), em superavitárias.

O Brasil deixaria de ser dependente da chamada poupança externa (capital estrangeiro), e passaria a ser uma economia de contas externas saudáveis, com autonomia para determinar seu próprio futuro. Mas nós, brasileiros, preferimos vender nossas empresas, entregar nossa riqueza e abandonar nosso futuro. Abrimos nossos portos para navios piratas, e ainda os recebemos com um sorriso no rosto, e preparamos o banquete para que eles possam confortavelmente nos pilhar de barriga cheia. Pelo menos depois, nos emprestam dinheiro para irmos à Disneylândia.

Por Apoena C. Cosenza
A Voz do Brasileirismo: Nacionalidade em Rebeldia

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