ELIAS JABBOUR: China – liberdade de expressão ou simplesmente “liberdade”

Recentemente em uma conversa informal um amigo reconheceu os avanços chineses em todos os campos, incluindo a sua fantástica redução da pobreza. Para quem não sabe a China foi responsável por retirar 85% de todas as pessoas que saíram da linha da pobreza entre 1980 até 2017. Os dados são facilmente acessíveis no site do Banco Mundial.

Meu querido amigo colocou duas negativas. (Eu já esperava esse movimento explicável do ponto de vista filosófico e psicológico: a negativa não precisa ser contra o processo em si. Pode-se fazer o movimento de negação via “outras variáveis”. É o oposto da negação da negação, o que indicaria superação no sentido hegeliano). A primeira é o ônus ambiental. O segundo seria “falta de liberdade”.

Sobre o primeiro ponto é inegável as contradições ambientais. Os danos ambientais ao país de 40 anos de taxas de crescimento médio anual acima de 9% são claros e visíveis. Mas li em Marx que “o limite do capital é o próprio capital”. Isso significa que os “limites do desenvolvimento” – tão caros a liberais e social-democratas – estão na própria capacidade do processo de “negar” o objeto em seu ponto mais alto. A “negação da negação” seria o crescimento qualitativo, utilizando arsenal tecnológico acumulado do ciclo anterior ou mesmo importando e/ou produzindo novas e novíssimas tecnologias.

A República Popular da China criou condições materiais e institucionais para hoje estar na vanguarda do desenvolvimento de fontes limpas de energia. A fusão da grande empresa estatal com a – também estatal – grande finança e precedida por um poder político de novo tipo abriu condições para o país criar imensos conglomerados empresariais em energia limpa “fora do sistema de preços”. O resultado é Shenzen com 40.000 carros elétricos, e os EUA sem nenhuma linha de trem de alta velocidade. Neste tocante, o socialismo saiu na frente.

A questão da liberdade de expressão ou simplesmente “liberdade”. Muitos, militantes de esquerda, abençoavam o Occupy Wall Street e fechavam os olhos à barbárie sem fim imposta pelo imperialismo na Líbia e na Síria. Em nenhum momento vejo críticas que relacionam a “liberdade individual” na China com a garantia de que todo chinês terá ao menos três refeições ao dia ou um compromisso público do imperialismo atestando de que nunca mais irá invadir um país soberano. Se a geopolítica não importa, que tal criarmos um índice capaz de indicar sobre quem é mais “livre”: um negro nos Estados Unidos, um árabe na França ou um camponês chinês?

O fundo dessa discussão é racista (“asiáticos selvagens”), culturalista (“despotismo asiático”) e de classe. Só a classe média produz opiniões ao próprio umbigo, chancelando as opiniões das elites mais racistas e antidemocráticas do mundo.

EM TEMPO: O Twitter acabou de cancelar as contas de centenas de autoridades chinesas. Eles apenas exerciam a “liberdade” de opinar sobre Hong-Kong. A China está sob ataque imperialista. Só meus amigos de uma certa “esquerda” não percebem. Eles não são nem a negação ao imperialismo, muito menos a “negação da negação”. São criações do imperialismo.

Por Elias Jabbour

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