As iniciais de um nome para o país que não sabe mais o que é industrialização

Ao dizer em texto recente que não existe “bolsonarismo”, mas sim uma nuvem incensada por ingênuos, corruptos e dementes, cometi ato falho de memória por omissão. Fazia na ocasião uma reflexão sobre os nomes de políticos ou movimentos com direito a “ismos” para entrar na história e disse, equivocadamente, que FHC, sem deixar seu “ismo” na nossa lembrança, era o único que ficou conhecido pelas iniciais do nome.

Isso, diferentemente de estadistas e personalidades, aqui e no mundo, que acabaram, em diferentes épocas, tatuando e eternizando seus nomes em movimentos políticos e/ou correntes de pensamento de diferentes áreas – tais como na filosofia política, na economia, nas artes, na ciência e na religião –, a exemplo do platonismo, artistotelismo, marxismo, budismo, dadaísmo, getulismo, lulismo e tantos outros.

A falha refere-se, claro, à ausência em meu texto do nome de Juscelino Kubitschek, que sucedeu Getúlio Vargas e antecedeu Jânio Quadros na Presidência da República. Foram os famosos “anos JK”, de 1955 a 1960, omissão bem notada e apontada, em mensagem particular, por minha amiga e professora de português do Mackenzie-Rio Glória Franco.

E, diferentemente de agora e do período FHC e, claro, do atual desastre de Bolsonaro, os “anos JK” trouxeram ares de esperança e euforia em diferentes dimensões da vida do país, com alto astral, inclusive, na música e na cultura. Foi o interregno democrático entre o adiamento do golpe suscitado pelo suicídio de Vargas em 1954 e sua consumação 10 anos depois pela tomada ou conquista do Estado, para usar uma expressão do cientista político René Armand Dreifuss.

O presidente bossa nova, com seu sorriso otimista, levava o Brasil para mais um patamar de desenvolvimento, apesar da estabilidade política daquele momento, contraditoriamente, marcada por crises. Todos sabemos o papel dos militares da época, através do então general Henrique Lott, que garantiu a legalidade e a posse de JK contra os golpistas que não aceitavam a assunção do novo presidente. As mesmas forças que, depois, derrubaram João Goulart.

JK merece nosso “ismo” consubstanciado nas iniciais do seu nome, subentendido na memória como importante liderança em determinado momento da trajetória republicana. Quem sabe, a história não seja esquecida para as gerações futuras e torne mais cristalinas, por exemplo, as circunstâncias de seu desaparecimento, também como todos sabemos, marcadas por dúvidas e polêmicas.

A propósito, a obra em dois volumes organizada por Alessandro Octaviani, Lea Vidigal Medeiros e Marco Aurélio Braga, sob o título “O assassinato de JK pela ditadura: documentos oficiais” (2016), é de consulta obrigatória para os jovens historiadores. Como se sabe, JK morreu em 22 de agosto de 1976 depois de sofrer perseguição sistemática pela ditadura que tomara na marra o estado brasileiro em 1964.

Aproveitando o lapso do texto anterior, oportuno é comparar o que vem acontecendo hoje no Brasil, ou melhor, o que não vem acontecendo em termos de projeto nacional para o desenvolvimento, e o que aconteceu nos “anos JK”. Independente de uma análise mais estrutural sobre a inserção periférica do Brasil como país subalterno na divisão internacional do trabalho propiciada pela expansão capitalista, não se deve esquecer que, sem industrialização, também não são possíveis as contradições que possam superar essa subalternidade.

Pode-se dizer que JK foi uma continuidade do getulismo na construção e fortalecimento do estado nacional. Os militares da ditadura também fortaleceram o estado nacional, porém, sem democracia, com perseguição e assassinatos – e na base da criminosa concentração de renda e uma monumental dívida externa. FHC assume nos anos 1990 dizendo que estava encerrando a Era Vargas. O desmonte do estado nacional começou com FHC, essa é a lamentável marca do seu nome, deixando para a história apenas o “ismo” do neoliberalismo transformado agora em ultraliberalismo.

Para me redimir da omissão sobre as iniciais mais nacionais do que as do neoliberalismo pós-ditadura, reproduzo aqui o que diz Maria Victoria de Mesquita Benevides sobre JK: “A característica principal da economia brasileira no período em foco consiste na consolidação da industrialização brasileira, quando se instala a indústria pesada, principalmente a automobilística, ao mesmo temo em que a indústria de base ganha novo impulso com a instalação de novas indústrias siderúrgicas e o desenvolvimento acelerado da industrial da construção naval.”

Esse trecho está na página 201 do seu livro “O governo Kubitschek: desenvolvimento econômico e estabilidade política”, aliás, publicado pela Editora Paz e Terra justamente no ano (1976) em que ele foi morto. Triste Brasil de agora: em vez de industrialização e desenvolvimento, vai reunindo lamas e pedregulhos do obscurantismo para escombros do presente a serem estudados pela história futura. Triste Brasil de “anjos” que guardam segredos e escondem criminosos. O Anjo da história de Walter Benjamin ficaria horrorizado ao sobrevoar o país, principalmente voando de costas para o futuro e batendo suas asas com olhares voltados para o que aconteceu, principalmente, a partir de 2016.

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4 Comentários

  • Entendi a necessidade de recuperar o JK, por sua importância política e por sua contribuição à industrialização brasileira. Mas fiquei com uma dúvida: a análise da M.V. Benevides, de 1976, permanece “a” análise? E qual seria, então, a contribuição de JK à industrialização e ao desenvolvimento brasileiro?

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  • Tenho profunda admiração pelo seu talento na escrita como também sou fã n 01 da sua temática e filosofia. Sou professor e mestre em Língua Portuguesa pela UFPE. Primo de Ionese aí do Rio, amiga de longos tempos sua. Parabéns!!!

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  • 17. ” JK foi entreguista tão radical, que não só manteve os indecentes favorecimentos ao capital estrangeiro, mas reforçou-os a ponto de ser aberta linha de crédito oficial para financiar as montadoras estrangeiras. Esse benefício foi negado à empresa brasileira Romi, de Santa Bárbara do Oeste (SP), que produziu 3.000 unidades da Romisetta, automóvel de um só banco, de 1956 a 1959.

    18. Além disso, JK criou grupos executivos setoriais, como o GEIA, da indústria automobilística, para facilitar os procedimentos de entrada em funcionamento das montadoras estrangeiras, e baixou a lei 3.244, de 14.08.1957, e o Decreto 42.820, de 16.12.1957, proporcionando mais vantagens cambiais aos “investidores” estrangeiros.

    19. Não admira que, ao final do quinquênio de JK, o Brasil sofresse sua primeira crise de contas externas desde o início dos anos 30. Vargas havia, em 1943, reduzido a dívida externa do país a quase nada”. Extrato do artigo de Adriano Benayon, “As fontes da dívida pública”, de 21.12.2013

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