Recados do cônsul-geral Li Yang para o futuro das relações Brasil-China

O consulado-geral da China no Rio de Janeiro, representado pelo cônsul Li Yang, realizou na última quinta-feira (23/07) uma coletiva de imprensa. O objetivo era esclarecer dúvidas e falar sobre alguns assuntos sensíveis, já que uma guerra comercial entre China e Estados Unidos – iniciada por Donald Trump – se arrasta ha cerca de 2 anos e alguns reflexos são sentidos aqui no Brasil.

Bolsonaro e China - Tainan Rocha.img
A Guerra Comercial entre EUA e China tem reflexos no Brasil. Ilustração de Tainan Rocha.

Ainda em 2018, uma das primeiras medidas vindas de Washington foi a adoção de tarifas unilaterais sobre importação de produtos como painéis fotovoltaicos e máquinas de lavar roupa. Depois, seguiram troca de ameaças de retaliação, suspensão de compra de produtos agrícolas e acusações de manipulação cambial dos EUA contra a China. A disputa travada em torno da rede móvel 5G da gigante Huawei vem para coroar o conflito.

Aqui no Brasil, o alinhamento do Presidente Jair Bolsonaro a Donald Trump gera temores sobre a exclusão da China no leilão de 5G, previsto para 2021. A despeito dos desentendimentos recentes envolvendo pessoas próximas a Bolsonaro com o povo e o governo chinês, o cônsul-geral Li Yang reitera que as relações sino-brasileiras sempre foram amistosas e benéficas para ambas as partes. “O desejo da China é que se aprofunde a parceria em tecnologia e comunicação e que (o leilão) seja justo e sem discriminação, com a participação dos chineses nessa área”.

A aposta no histórico de boas relações diplomáticas e comerciais também se estende para outras áreas. Recentemente o governo chinês suspendeu a importação de carne oriunda de pelo menos 3 frigoríficos brasileiros, por causa dos problemas relacionados ao covid-19. Porém, Li entende que “a parceria na agricultura é um dos grandes pilares Brasil-China e tem grande potencial de crescimento”. Segundo o cônsul, o desejo é que essas relações, que sempre foram bastante sólidas, sejam cada vez maiores e mais fortes.

A China, que ainda vislumbra grande potencial nos BRICS e não teve as iniciativas do Cinturão e Rota interrompidas durante a pandemia, aposta no aprofundamento do multilateralismo e no desenvolvimento mútuo. Li Yang enxerga um grande potencial nos projetos da Nova Rota da Seda para o desenvolvimento da economia mundial. Desde que foi implementada, a iniciativa do Cinturão e Rota já conta com 140 países e 30 organizações internacionais em acordo com a China. “De acordo com as minhas informações, 20 países da América Latina já assinaram essa cooperativa. Nesse momento, diversos projetos estão sendo implementados”.

A solidez e resiliência da China – que no segundo trimestre de 2020 e em plena pandemia teve um crescimento de 3,2% de seu PIB – bem como sua política de ganha-ganha trazem, nas palavras de Li, “confiança mundial e energia para puxar a economia”.

Nesse sentido, o cônsul afirmou que controlada a epidemia na China, o governo traçou um planejamento de retomada econômica que abarca o mercado interno e também o externo. O país conta com 1,4 bilhões de pessoas e o potencial de aprofundamento das relações comerciais com outros países é enorme. “Estamos construindo política de atração de mercados externos para abastecimento interno da China. No âmbito internacional, a política do cinturão e rota continuará se desenvolvendo”.

Dando um recado aos investidores e empresários brasileiros, Li Yang citou um exemplo: as negociações “ficaram mais práticas o menos burocráticas. O ambiente de negócios na China mudou durante a pandemia. O tratamento dispensado a empresários estrangeiros é igual ao dado aos empresários locais”.

Além disso, Li afirmou que em observando dados oficiais é possível perceber que o comércio Brasil-China não diminuiu durante a pandemia. Na crise de 2008, se a economia brasileira sofreu uma “marolinha”, grande parte se deu por causa da exportação elevada de produtos como minério de ferro e soja para o gigante asiático.

Mesmo diante de incidentes como os que envolveram Eduardo Bolsonaro, Ernesto Araújo e Abraham Weintraub, o governo chinês se apresenta paciente, receptivo e aberto a estreitar as relações comerciais com o Brasil. Ficaram claras as intenções em manter uma parceria de alto nível. Trata-se de um sinal de luz, já que relatórios do FMI projetam uma contração de 9,1% para o PIB brasileiro em 2020.

“Se os dois países olharem para o relacionamento de uma perspectiva de longo prazo e o Brasil mostrar o desejo de caminharmos juntos, essa relação bilateral permanecerá sólida e saudável”. Bom, a China, que tem utilizado seu corpo diplomático para marcar posição sobre assuntos mais sensíveis deixou claro que o desejo deve ser mútuo. Se o governo Bolsonaro deixar de lado o alinhamento automático e cego a Donald Trump, o Brasil terá tem muito a ganhar.

 

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