Liberalismo de mão em mão

Não é possível fazer uma análise atual dos liberais brasileiros se não entendermos suas divisões diante do bolsonarismo, ainda que estas não signifiquem uma ruptura interna ou profunda (não significa). Ao primeiro corte, podemos dizer que o liberalismo verde-amarelo, numa mão coloca o anel; na outra, veste a luva.

Os liberais que trazem anéis nos dedos são os que aderiram a Bolsonaro, tateando o pragmatismo político. A fórmula é antiga, um dos exemplos mais notórios é a união, a troca contínua de ideias, entre Thatcher e Hayek. Como funciona? Basicamente, uma elite liberal deve intercambiar influências com uma corrente de ideias amorfas normalmente identificada como conservadorismo, e, em contrapartida, tendo acesso a uma parcela significativa da população, sinalizando valores e anseios considerados populares, para assim incutirem e dialogarem com seus próprios “valores iluministas”: a eficiência técnica do gestor, a meritocracia, a crença numa harmonia quase mística do arranjo privado e espontâneo em contraste ao dirigismo público, rígido e burocrático. Ambicionam ser, tal qual o Instituto Millenium se identifica, “uma base de inteligência confiável que reúne informações e propõe questionamentos para você decidir os seus próprios caminhos”. Só não contam que esses caminhos, tão próprios, tão individualizantes, transcorrem sempre a lugares comuns do ideário: a austeridade e o estado mínimo.

Citar o Instituto Millenium não foi gratuito. É, aliás, representativo. Seu fundador e talvez conselheiro mais importante, Paulo Guedes, é hoje superministro da economia do governo Bolsonaro. Não paramos nele, um dos ex-diretores executivos do instituto, Paulo Uebel, também já trabalhou como assessor de Doria e foi secretário no governo Temer, hoje está incorporado à equipe Guedes. Há outros liberais que tangenciaram as atividades do instituto ou tiveram parte em organizações assemelhadas, como Bruno Garschagen; este, porém, talvez seja mais conhecido pela proximidade a Olavo de Carvalho. Nomeado para a Comunicação do Ministério da Educação do também olavista (ex-)Ministro Vélez, nenhum dos dois se segurou no cabo de guerra dos que estão sob a esfera de influência do filósofo da Virgínia contra setores rivais mais blindados, metafórica e literalmente, no seio do governo Bolsonaro.

Na outra mão, os liberais que recusaram os anéis e vestiram a luva de pelica são aqueles que advogam por uma espécie de “liberalismo de verdade”, como o Livres. Ainda que sejam menores, institucionalmente, eles dão a exata medida da divisão no próprio campo ideológico. Esse movimento mais purista foi recebido pelo PSL (Partido Social Liberal), para reformar o que então era uma legenda de aluguel, transformando-a num partido com programa. Até Bolsonaro aparecer. Ele havia acabado de sair dum partido incipiente, o Patriotas, e precisava doutra legenda para abrigar-se. O PSL era o bunker que precisava e lhe restava. O Livres, que mal esquentou os sofás dos diretórios, bateu o pé e não aceitou os novos rumos reacionários, tão pouco convergentes à liberação dos costumes e outras pautas progressistas. Perdeu a queda de braço, e o espaço foi reordenado para receber o novo presidenciável – nosso atual presidente. Claro que, em se tratando da Reforma do Guedes, a disputa dos costumes é colocada de lado. Não querem normalizar Bolsonaro como seus colegas do anel, mas aceitam o fim prático que interessa a todos os liberais de punho de renda, enluvados ou não. Por acaso, uma nota de rodapé: o presidente do Livres também é membro-especialista do Instituto Millenium.

Como dito acima, a fórmula é antiga e hoje se renova. Importa que essa elite se conversa por mais de uma década, mantém algum nível de organização, mesmo em panelinhas diferentes. Não são apenas empresários brancos, de meia idade, dispersos pelo Brasil, que resolveram despertar ao bolsonarismo por amor à primeira vista. São ativistas e intelectuais, mantiveram-se operando, politica e midiaticamente, nas redes sociais, nos jornais, esperando a brecha perfeita: o descrédito geral para uma nova crença política (a deles, seja quais forem suas motivações). A hora chegou, abriu-se uma fenda nas instituições e narrativas estabelecidas. Essa fenda foi o Bolsonaro, precedido pela Lava-Jato, pelo impeachment, pela leviandade da grande imprensa, pelos erros crassos dos governos anteriores e delírios de poder de seus antagonistas tradicionais. Revezar luvas e anéis foi a forma que os liberais encontraram de estar em dois fronts: mergulhar de cabeça no poder e ser, ao mesmo tempo, a progressista porta de saída da ruína futura, quando a debilidade do Estado não conseguir mais inverter os ciclos de recessão e o austericídio não nos deixar mais nada para arrochar. É mais fácil lavar as mãos enquanto uma delas sempre estiver em posição de lavar a outra.

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