Abraham Lincoln, política industrial e os ‘amigos do rei’ da indústria siderúrgica

“Quão pouco juízo demonstraríamos se deixássemos sair nossas mercadorias primárias para que outros as trabalhassem e, em seguida, tivéssemos de comprá-las novamente de suas mãos”.
John Hales em 1581

Por Celso A. de Oliveira – A corrente principal da teoria econômica contemporânea costuma torcer o nariz para a política industrial. No Brasil, só falta a Guedes repetir seu antecessor Pedro Malan e dizer que “a melhor política industrial é não ter política industrial”. Para esses verdadeiros neoricardianos, ao adotar uma determinada política industrial, o Estado estaria explicitamente beneficiando “amigos”.

O mainstream entende, então, que a política industrial é reflexo de um capitalismo de conivência, em que os “amigos do rei” enriquecem às custas do resto da população pagadora de impostos.

Essa forma de enxergar o mundo entra em rota de colisão com uma outra tradição do pensamento econômico, a dos mercantilistas, para quem, desde o século XVI, existe diferença qualitativa entre as diversas atividades econômicas, isto é, produzir a mercadoria X pode ser mais rentável do que a Y. Assim, a escolha política por produzir soja ou softwares e chips, por exemplo, faz toda a diferença para o desenvolvimento ou não de uma nação.

Quem sabia muito bem disso eram os founding fathers norte-americanos. George Washigton e Alexander Hamilton fizeram a independência, defenderam a adoção de uma política industrialista abrangente e enxotaram Adam Smith de volta para a Europa. Bebendo da mesma fonte, Abraham Lincoln enterrou, para sempre, o agrarismo do Sul em uma guerra civil que durou quatro anos.

O que os liberais diriam sobre isso? Que Lincoln foi “conivente” com seus amigos do aço e, assim, criou uma enorme indústria siderúrgica no país, que pagava salários reais elevados e aumentava o bem-estar coletivo dos norte-americanos? Qual seria a outra opção? Deixar o “mercado” atuar livremente para que as vantagens comparativas estáticas norte-americanas viessem à tona, homogeneizando os fatores e aumentando a “eficiência” no jogo do livre-comércio mundial mediante a exportação de produtos primários?

Por Celso A. de Oliveira - A corrente principal da teoria econômica contemporânea costuma torcer o nariz para a política industrial. No Brasil, só falta a Guedes repetir seu antecessor Pedro Malan e dizer que “a melhor política industrial é não ter política industrial”. Para esses verdadeiros neoricardianos, ao adotar uma determinada política industrial, o Estado estaria explicitamente beneficiando “amigos”.

O que falta aos liberais é entender que o capitalismo é o regime das conivências por excelência. Como diz Erik Reinert, resta a um país escolher qual conivência irá privilegiar. Se será a conivência dos produtores de commodities, na qual há rendimentos decrescentes, preços flutuantes, concorrência perfeita e trabalho não qualificado, ou se será a conivência schumpeteriana, capaz de criar “rendimentos crescentes históricos” e unir inovação tecnológica e rendimentos crescentes em mercados de concorrência imperfeita, com trabalho qualificado.

É o próprio Reinert no livro Como os países ricos ficaram ricos… e por que os países pobres continuam pobres quem destaca esse fato:

O desenvolvimento econômico surge de alterações estruturais que quebram o equilíbrio sistêmico e criam rendas. Insistir na ausência de rendas é o mesmo que exigir uma conjuntura estável e estacionária. No entanto, é preciso escolher quais atividades proteger, o que gera conivências. Abraham Lincoln protegeu os seus compadres do aço. Ao pagar um pouco mais pelo produto deles, os Estados Unidos criaram uma enorme indústria siderúrgica, com postos de trabalhos bem remunerados, que também forneceram uma base ampla para a cobrança de tributos. (…) O desenvolvimento econômico requer que se alinhem os interesses públicos da nação e os interesses privados dos capitalistas. Incapaz de captar a dinâmica do mundo dos negócios, a ciência econômica padrão não consegue compreender a essência econômica do colonialismo. Ao impedir que as colônias possuíssem indústrias manufatureiras próprias, as atividades econômicas com alto potencial de crescimento e mecanização permaneceram nas metrópoles, enquanto as atividades com rendimentos decrescentes foram para as colônias.

Por isso, abandonar a política industrial – como, lamentavelmente, vem fazendo o Brasil nos últimos 40 anos – porque sua adoção é contrária à “concorrência perfeita” dos manuais da economia padrão é desconhecer a própria natureza do capitalismo. A força motriz deste é justamente se afastar tanto quanto possível da concorrência perfeita e auferir lucros monopolistas. Qualquer atitude ou política fora desse quadrante é moralismo subserviente ou ignorância interessada.

Por: Celso Almeida de Oliveira.

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