Maria da Conceição Tavares: a bruta força da natureza

Meses antes da corrida eleitoral de 2010, Dilma Rousseff e José Serra posavam juntos e sorridentes diante das câmeras. A ocasião? A comemoração dos 80 anos da economista Maria da Conceição Tavares, que gargalhava à vontade entre os braços dos dois companheiros. A cena pode ser vista na cinebiografia “Livre Pensar”, produzida pelo cineasta José Mariani.

Portuguesa de nascimento, Maria da Conceição, que hoje vive no Rio, veio ao mundo há 88 anos, num dia 24 de abril, à meia distância entre o dia de São Jorge e o dia da Revolução de 25 de Abril de 1974, a celebrada Revolução dos Cravos ocorrida anos mais tarde em Portugal.

Formada em matemática, chegou ao Brasil em fevereiro de 1954, seis meses antes da última decisão política de Getúlio Vargas, o suicídio de 24 de agosto do mesmo ano. Com a eleição de Juscelino Kubitschek, integrou os esforços de implementação do Plano de Metas do “presidente bossa nova”.

Em 1957 naturalizou-se brasileira e iniciou seus estudos de economia, dando o pontapé inicial de uma trajetória sem igual. Além de sua passagem pela CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe), fez parte dos quadros que construíram o Instituto de Economia da Unicamp e a pós-graduação do Instituto de Economia na UFRJ.

Quando aluna, contou com professores como Otávio Gouveia de Bulhões e Roberto Campos, mas seu grande mestre foi sem dúvidas Celso Furtado.

Maria da Conceição Tavares mostrou-se grande demais para as amarras da ortodoxia. Suas interpretações da economia brasileira, além de originais, sempre dispensaram dogmas de qualquer vertente e tornaram-se obras clássicas do pensamento econômico nacional.

Em 1963 publicou o ensaio “Auge e Declínio do Processo de Substituição de Importações no Brasil”, que sistematizou teoricamente o modelo de desenvolvimento adotado pelo Brasil desde a década de 1930. Este texto é incontornável para qualquer um que tenha interesse em compreender a magnitude das transformações econômicas iniciadas no país após a crise internacional de 1929.

Tavares demonstrou que o processo de industrialização por substituição de importações decorria de uma situação de estrangulamento externo, ou seja, uma resposta às restrições do comércio exterior, procurando “repetir aceleradamente, em condições históricas distintas, a experiência de industrialização dos países desenvolvidos”.

A queda brusca da demanda internacional após o crash de 1929 derrubou o dinamismo do setor externo da economia brasileira, varrendo abruptamente a nossa capacidade de importar. Uma primeira fase de substituição de importações se inicia, produzindo internamente os bens de consumo não-duráveis e com base numa capacidade produtiva pré-existente no país.

Conforme aumentam os investimentos internos em torno dessa indústria, resulta que o crescimento da renda geral, principalmente com os salários, faz elevar a demanda interna, pressionando por mais produtos que só eram acessíveis via importações. Ao mesmo tempo, a própria produção também exigia certas importações (máquinas, insumos etc.), repercutindo sobre o setor externo já vulnerável.

Disso decorre novo estrangulamento da capacidade de importar, aumentando as restrições de reservas cambiais do país e impondo a necessidade de produzir cada vez mais internamente.

É através desse movimento repetitivo que avançará a substituição de importações para o setor de bens de consumo duráveis e, em fins da década de 1950, para o setor de bens de capital, processo durará até os anos 80. Não, é claro, sem o planejamento e a intervenção do Estado, único agente capaz de eliminar as descontinuidades na pauta de importações e racionalizar o processo. O grande divisor de águas entre o Brasil exportador de matéria-prima e o Brasil industrializado foi certamente o Plano de Metas de JK.

Já em 1970, em co-autoria com José Serra, escreveu o ensaio “Além da Estagnação”, no qual defendeu uma tese contrária ao diagnóstico estagnacionista de Celso Furtado, que havia entendido que a substituição de importações se  esgotara e a economia seguiria estagnada por falta de demanda.

À corajosa iniciativa de enfrentar as lições de seu mestre, seguiu-se uma carta de Conceição a Furtado, pedindo-lhe desculpas. Emocionada, ela conta o episódio no filme, e lembra da simpática resposta de Furtado, que do exílio escreveu: “Seu mestre era um homem barbudo que morreu no século XIX”.

Tavares e Serra possibilitaram a compreensão do que viria a ser o milagre econômico da Ditadura Militar no Brasil, apontando que a estagnação seria contornada pelo financiamento do consumo de bens duráveis, através de um movimento de redistribuição “em favor dos setores das classes médias urbanas e contra as classes populares assalariadas”. Estava apontada a perversa concentração de renda do período militar.

Em seus estudos posteriores, “Acumulação de Capital e Industrialização no Brasil” e “Ciclo e Crise: o movimento recente da industrialização brasileira”, uma nova contribuição da já consagrada economista. Da dinâmica desencadeada sempre pelas restrições ou possibilidades ligadas ao mercado externo, a economia brasileira já industrializada passou funcionar em ciclos dinamizados por elementos endógenos.

Aqui, às vésperas dos anos oitenta, Conceição mostrava sua originalidade dando uma contribuição sem precedentes ao campo da economia nacional. Ao longo de três décadas, cada um de seus grandes estudos tornou-se fundamental para o debate econômico do país.

O brilho de sua trajetória, contudo, não foi apenas acadêmico. Em 1968, durante a ditadura, Conceição exilou-se no Chile, onde trabalhou no Ministério da Economia do governo de Salvador Allende.

De lá, viveu na pele a maior ousadia da América do Sul no século XX: a tentativa de construção de um socialismo democrático. Ao recordar o ano de 1973, quando houve o golpe que assassinou Allende e implantou a ditadura do general Augusto Pinochet, afirma contundente: “Aquela foi a minha derrota”.

Na década seguinte, esteve ao lado de Ulisses Guimarães na campanha pelas Diretas Já, e nos anos noventa elegeu-se deputada federal pelo PT (1995-1999). Aos risos, diz que votou contra durante todo o seu mandato e sempre foi sistematicamente derrotada.

Combativa, no entanto, Maria da Conceição Tavares jamais se deu por vencida. Batalhadora inesgotável, a economista mais aguerrida que o país já teve, viu seu candidato ser eleito Presidente da República em 2002.

Sem dar trégua, foi até Lula para reclamar da política econômica de seu ministro da Fazenda, Antonio Palocci. No seu entendimento, a elevada taxa de juros bancada pelo ministro estava impedindo a retomada dos investimentos.

Lula recomendou que ela fosse ao próprio Palocci expor suas razões, o que Conceição fez sem hesitar. Alertou para a desindustrialização que os juros altos e o câmbio valorizado poderiam causar, e ainda comentou que encontrara o Delfim, e que ele concordava com ela.

Palocci respondeu que iria “falar com o Meirelles”, então presidente do Banco Central. Mais tarde, ligou de volta à Conceição contando que havia conversado com o Meirelles e não poderia seguir as sugestões dela para não desagradar o mercado.

O tempo mostrou que ela estava correta, e hoje vivemos um processo profundo de desindustrialização que já reverteu a dinâmica da economia nacional, antes localizada nos ciclos endógenos, ao sabor das instabilidades externas.

Com uma série de histórias eletrizantes, “Livre Pensar” é a melhor produção de José Mariani até o momento. “O Longo Amanhecer”, sua cinebiografia de Celso Furtado, e “Um Sonho Intenso”, são filmes igualmente poderosos e que nadam contra a corrente do mainstream econômico. “Livre Pensar”, no entanto, conta com a vantagem de ter a melhor personagem.

Sua presença avassaladora, capaz de fazer até um ministro de Estado se justificar, sua originalidade analítica e sua intransigência diante de cada uma das injustiças que enfrentou a colocam no patamar das grandes mulheres públicas deste país.

Maria da Conceição Tavares é a bruta força da natureza, inquebrantável batalhadora pelo desenvolvimento nacional. Sem paralelo, temos nela o maior presente que Portugal já deu ao Brasil.

Se a derrota de Conceição foi em 1973 com o golpe que derrubou Allende, podemos afirmar que a nossa derrota é viver num momento histórico que ainda não produziu outra geração como a dela e de seu mestre Celso Furtado.

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