Mauricio Macri e o neoliberalismo: a Argentina em crise e novamente submetida ao FMI

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O presidente da Argentina, Mauricio Macri e Christine Lagarde, presidente do FMI

O presidente da Argentina, Mauricio Macri, assumiu o posto em dezembro de 2015 prometendo trazer o liberalismo de volta à Argentina, e cumpriu. A crise está de volta e o FMI também. A eleição de Macri veio em reação aos 12 anos dos governos peronistas de Néstor e Cristina Kirchner, defensores de políticas nacionalistas e desenvolvimentistas com protagonismo do Estado argentino entre 2003 a 2015.

No início do século XXI, os países latino-americanos estavam, em sua maioria, em recuperação econômica, puxados pelo consumo internacional dos produtos primários e semi-industrializados. Os argentinos sob os Kirchner haviam logrado um desempenho melhor até que o do Brasil em relação a dependência do setor exportador de produtos primários, combatendo a desindustrialização crônica típica da periferia do capitalismo, causada pelo neoliberalismo após a crise das dívidas externas nos anos 1980. Depois do desastre dos anos 90, e o colapso financeiro em 2001, a Argentina havia recuperado o crescimento econômico, os empregos e a autoestima.

No entanto, a crise econômico-financeira mundial, iniciada em 2008 nos EUA e na Europa, afetou a Argentina, assim como o Brasil, que sofreram abalos no crescimento econômico baseado na exportação de commodities. Aliás, a crise brasileira tem bastante peso nos vizinhos, tendo em vista as intensas relações comerciais entre os dois maiores países da América do Sul.  Dessa forma, tanto no Brasil por um golpe parlamentar, e na Argentina pelas eleições, houve uma nova ofensiva da direita. Nos dois casos o papel das corporações judiciais foi crucial na desestabilização política e econômica também.

A eleição de Mauricio Macri faz parte desse movimento mais amplo de restauração de um neoliberalismo mais agressivo e radical, tendo em vista que a hegemonia neoliberal permaneceu mesmo nos governos de esquerda no mundo inteiro desde os anos 1990. No Brasil, a imprensa, os think tanks liberais, os partidos de direita, os movimentos políticos financiados pelo mercado financeiro e etc., comemoraram a volta ao liberalismo e à “ortodoxia” na Argentina via eleições.

Após 3 anos de governo, com medidas draconianas de austeridade, liberalização da economia e redução de investimentos públicos, Macri enfrenta uma crise muito mais profunda do que aquela da qual acusava seus antecessores nas eleições em que saiu vitorioso. Há 5 meses o governo argentino vê as contas públicas deteriorarem-se rapidamente, o peso desvalorizou-se fortemente em relação ao dólar, e a inflação atinge 32% ao ano. Agora, diante do colapso iminente, o governo pede um socorro de 50 bilhões de dólares ao Fundo Monetário Internacional, que submete o povo argentino a ainda mais sacrifícios. Não sem protestos do tradicionalmente combativo povo argentino, que já se levanta contra esse aprofundamento da violência econômica da hegemonia neoliberal, que tenta sobreviver após 10 anos de crise internacional.

Nesta terça-feira (04/09), o presidente da Argentina falou pelo telefone com o presidente dos EUA, Donald Trump, horas antes de reunião entre o Ministro da Fazenda argentino, Nicolás Dujovne, e a presidente do FMI, Christine Lagarde, em Washington, para pedir flexibilizações nas condições do empréstimo. Macri vem realizando reuniões com Lagarde para adequar o orçamento público do Estado argentino aos ditames do capital financeiro internacional, especialmente norte-americano.

Além disso, anunciou em pronunciamento na televisão nesta segunda-feira (03/09) que instituirá um imposto sobre as exportações, principalmente de produtos primários, para tentar equilibrar as contas públicas com a arrecadação gerada por seus setores produtivos para sustentar a remuneração do capital financeiro. Este imposto sobre exportações havia sido retirado por Macri como uma das medidas liberalizantes e concentradoras de renda, por tratar-se de um setor altamente lucrativo e concentrado. Aliás, a própria Cristina Kirchner viveu uma crise em 2009 ao tentar flexibilizar esse imposto através de taxas variáveis, na contramão da tradição peronista. Esse é o golpe de misericórdia na hipocrisia da ideologia neoliberal, que não hesita em aumentar impostos e fazer o Estado intervir na economia para salvar os rendimentos financeiros da classe dominante. Ignácio Rangel, em 1961, já ironizava essa contradição profunda entre o discurso ideológico e a verdade dos fatos da prática dos liberais no poder:

“Quase sempre acontece que a passagem dos liberais às posições visíveis de mando é prenúncio de medidas intervencionistas muito severas. O caso é que eles são chamados ao proscênio quando se faz mister o reforçamento econômico do Estado e geralmente cumprem a sua missão. Os mais lúcidos, como o professor Gudin, levam a efeito os atos de intervenção, dizendo que eles estão “teoricamente errados”, mas o fato é que o fazem, e a história não guardará suas palavras, mas os seus atos.” 1

A política econômica da Argentina está sob tutela do FMI, e é decidida em Washington. Medidas severas contra o serviço público e os investimentos produtivos são tomadas à revelia da população afetada. Aumento de impostos e intervenções estatais para proteger a renda financeira não são questionados pelos agentes do “mercado” e seus sicofantas da imprensa “especializada”, ao contrário dos gastos sociais e os direitos dos trabalhadores, que continuam sob ataque em prol da ortodoxia econômica e austeridade fiscal. Mauricio Macri cumpriu suas promessas de campanha e as expectativas dos ideólogos do neoliberalismo. Devolveu o Estado e o povo argentino à submissão total aos interesses financeiros externos.

Notas de Rodapé

  1. RANGEL, Ignácio. “Os liberais no poder” em coluna semanal no jornal A Última Hora de Samuel Wainer. Retirado da coletânea Ignácio Rangel: Obras Completas, Volume 2, organizado por César Benjamin na editora Contraponto.)

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