NELSON MARCONI: Os investimentos estão realmente se recuperando?

Um dos números que os analistas vêm utilizando para defender a estimativa de um crescimento robusto em 2018 seria o comportamento dos investimentos. No último trimestre de 2017 foi registrada uma importante alta de 2,0%, ainda que no ano a queda tenha sido de 1,8% (sempre a valores constantes). Mas os dados mais desagregados mostram que, infelizmente, no setor de bens de capital stricto sensu a melhoria é muito modesta. Explico a seguir.

A tabela abaixo mostra a evolução da taxa de investimento desde 2010, descontada a evolução dos preços. Os números são desastrosos; a construção desaba, bem como máquinas e equipamentos, mas estes últimos mostram uma recuperação muito modesta (0,1 p.p.) no último ano. Subimos para o penúltimo andar do fundo do poço.

Porém, é importante lembrar que esse item, máquinas e equipamentos, inclui, além das próprias máquinas, equipamentos de transporte e computadores, dentre outros. Portanto olhar dados mais desagregados sobre o setor é importante para entender o que está acontecendo.

A produção de bens de capital para fins industriais, calculada pelo IBGE, caiu 3,1% no ano passado, enquanto a de equipamentos de transporte subiu 8,0%. Estamos ampliando nossa frota de transporte (e também exportando mais), mas não necessariamente ampliando a capacidade de produzir da nossa indústria.

Já a receita líquida de vendas no mercado interno, a valores constantes, calculada pela Abimaq e divulgada hoje, caiu 11,4% nos 12 meses encerrados em janeiro de 2018. Esse indicador é importante porque inclui o núcleo do setor que produz máquinas direcionadas à ampliação da capacidade produtiva. As importações caíram 15,3% e, como venho insistindo, quem vai muito bem, obrigado, são as exportações, que cresceram 22,4% no mesmo período. Mas essas não contam para a ampliação da nossa taxa de investimento, e sim para a de outros países (não que exportar seja ruim, pelo contrário!).

Por isso, peça calma quando alguém te disser que a recuperação dos investimentos está a pleno vapor. Infelizmente, não é bem essa a história.

Por Nelson Marconi

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