O que não devemos fazer? Breves notas sobre a realidade e a construção da luta pela paz

Miriam Leitão acabou de declarar sobre o “mercado derretendo” na CBN. Em uma semana o país viu sua moeda desvalorizar drasticamente. Dois fatores são utilizados para a recessão: a treta petrolífera entre Rússia e Arábia Saudita e o coronavírus. Em meio a isso tudo, um Brasil que ainda está travado em seu passado, um Brasil de 2013 em 2020 em termos econômicos. Enquanto isso, a Petrobras pode sofrer com a queda. Como a companhia irá se comportar com o barril a preço de banana? O valor agregado do refino da gasolina irá aumentar com a desvalorização do petróleo cru? Questões de um leigo que ao mesmo tempo sabe a necessidade das commodities para a manutenção rudimentar do estágio de desenvolvimento em que nos encontramos.

Uma gripe de fato conseguiu abalar as estruturas mundiais de produção. No entanto, isso quer dizer que precisaria de um abalo tão dependente da poupança alheia?

A utopia neoliberal vigente demonstra que não é possível mais viver de caridades advindas das burguesias centrais. A utopia da ajuda externa e da espontânea “retomada do investimento” por uma entidade chamada mercado não aconteceu e nem irá acontecer. Um insuspeito liberal como Rodrigo Maia já conclama a retomada do investimento público, assumindo uma estratégia esperta e pragmática após seu apoio na aprovação da Reforma da Previdência. Sinal dos tempos. A realpolitik falou mais alto e os preceitos do Estado dietético proposto pelo presidente da Câmara parece desmanchar após 7 anos de contração no investimento público.

O nível de desindustrialização é tamanho que já atingiu níveis anteriores a 1970 e hoje compõe somente 11% da nossa riqueza. A FIESP e a CNI, entidades que deveriam obrigatoriamente defender a transformação, o desenvolvimento autônomo e a modernização da pátria tornaram-se, mais uma federação de importadores de produtos que de defesa dos interesses da indústria nacional. Apostou em uma aliança incondicional a esse governo e agora vê a batata assar pro seu lado. Pequenas indústrias – jamais defendidas ou representadas por suas entidades nos últimos anos- estão em situação pré-falimentar, com mais de 200 mil delas fechadas nos últimos anos.

Ainda pelo campo reacionário, a falta de perspectiva nacional e o sectarismo falaram tão alto que o próprio presidente conseguiu ruir sua relação com aliados dentro do Congresso nacional. E, diante dos problemas com o coronavírus, preferiu incitar a violência e chamar a população a marchar contra as instituições brasileiras no dia 15, hoje necessárias para pensar em um plano emergencial de combate à doença e a atual crise econômica. Por acaso é prudente convocar um ato que conglomere mais pessoas Brasil afora para se reunirem e, possivelmente, circularem e disseminarem contágios? Vale mesmo a pena assumir esse risco?

Do ponto de vista do campo nacionalista, popular e patriótico, muito se fala em união, ou no “que devemos fazer para ganharmos 2022”. Essa questão, hoje, não merece uma resposta. Ela é demasiado idealista. E também irresponsável, totalmente desvinculada das massas. Talvez seria prudente assumir a materialidade das coisas, procurando responder em harmonia o que não deve ser feito. A crítica pode nos dar as condições objetivas necessárias para responder a esse governo irresponsável e anti-patriótico. E, quanto a ser feito, talvez devêssemos pensar em passos menores, cujo objetivo fosse treinar caminhadas em conjunto novamente. Se a esquerda aproveitasse o momento para criar uma campanha de solidariedade ao combate do coronavírus e se dispusesse a se conectar novamente com os dramas do povo, acredito que daríamos um pequeno grande passo para reconstruir o tecido social brasileiro, hoje tão abalado e visceralmente exposto em inimizades nas redes sociais e entre próprios familiares. Temos que propor pequenas doses de retomada da paz e caminharmos em conjunto para consolidá-la. A paz sempre foi uma grande bandeira em momentos de crise. Aproveitemo-la.

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