As invasões dos novos bárbaros no Brasil

Foi em um contexto de crise que os grupos bárbaros tomaram Roma. A alta carga tributária, a concentração de riqueza e terras com os generais das Legiões romanas, a instabilidade política e a crise da mão de obra escrava foram os fatores que levaram o poderoso império romano a fragmentação e posterior invasão de diversos grupos bárbaros. Se tem uma lição que esse acontecimento pode nos dar é que: em tempos de crise, sempre têm bárbaros à espreita de uma oportunidade.

No nosso caso, temos uma crise bastante peculiar. Diferentemente de Roma que governo, instituições e a plebe faliram juntos, os nossos “novos bárbaros” do mercado estão se fortalecendo cada vez mais. Para a plebe, os dados são sufocantes e pouco animadores.  Indicam claramente que os salários e recebimentos do brasileiro comum, parte majoritária da população, não são mais capazes de sustentar as despesas obrigatórias. Já são mais de 70 mil imóveis confiscados pela CEF e BB por falta de pagamento das prestações, quase todos os imóveis são do projeto Minha Casa, minha vida. A inadimplência das famílias brasileiras cresceu para 63 milhões, alcançando quase 1/3 do país. A inflação medida pelo índice do IPCA saltou 0,25% em março, liderados pelos combustíveis e alimentos, chegando a preocupantes 4,58%. Já somos 13 milhões e 400 mil desempregados e 23 milhões de subutilizados. Como consequência, o consumo das famílias teve redução de 5,2% só nesse primeiro trimestre. As pessoas estão fazendo sua compra básica do mês no cartão de crédito e quando pagam é a parcela mínima da fatura, se sujeitando aos juros de 286% do crédito rotativo. Com a gasolina flertando os R$5,00 reais e o dólar os R$4,00 (nunca se deve esquecer que trigo é dólar) a tendência é que os preços subam ainda mais, as pessoas comprem menos e o desemprego aumente.

Por outro lado, mesmo com todo esse cenário tivemos os 4 principais bancos (Itaú, Bradesco, Santander e Banco do Brasil lucrando 69 bilhões em 2018. Nesse primeiro trimestre de 2019, Santander e Bradesco já anunciaram um aumento de cerca de 25% de lucro, alcançando em 3 meses o superávit de 9,2 bilhões. As empresas de capital aberto, com ações na bolsa de valores, tiveram um total de lucros de 144 bilhões. O dinheiro recuperado dos desvios da lava jato, estão sendo repassados para aqueles que foram prejudicados, no entendimento dos procuradores de justiça brasileiro e os norte-americanos (DoJ), os acionistas da Petrobrás. Isso mesmo, com a gasolina a quase 5,00 reais e um desemprego alarmante, os bilhões devolvidos irão para os eventuais prejudicados acionistas da Petrobrás, empresa que obteve em 2018 lucro de 25,8 bilhões. Não precisa ser investigador, economista e matemático para descobrir que o dinheiro dos brasileiros se escondeu nas contas desse pequeno grupo.

Entretanto, se a crise romana fez com que os povos bárbaros se apropriassem das grandes terras do império romano, forçando a transição para o sistema feudal, os bárbaros do nosso tempo estão agora cobiçando o suposto caixa de um trilhão que o governo espera levantar com a não aposentadoria dos brasileiros. É o golpe final dos bárbaros. O governo e a imprensa estão fazendo sua parte. Promovem o terror de um futuro ameaçado, culpam a não morte dos mais pobres para explicar o déficit e defender a usurpação do direito de se aposentar, apresentam estimativas quinzenais de PIB em escala regressiva, salientam a dívida pública de 3 trilhões (sem se quer mencionar que países fortes como EUA têm dívida pública de 20 trilhões) e chantageiam os desempregados querendo trocar apoio político para reforma com uma promessa fictícia de emprego.  Assim, é visível que os novos bárbaros se assemelham com os antigos no descaso. Tal qual os ostrogodos, visigodos, vikings, alamanos e outros não se preocuparam em preservar o legado intelectual, cultural e patrimonial dos romanos, não se preocuparam em transformar um continente todo em servos miseráveis de senhores feudais, os novos bárbaros, os bancos, os rentistas e grandes acionistas também não tem zelo algum pela preservação do Estado. Por eles, tudo se destrói, tudo se vende tudo se deteriora. Basta que acumulem o máximo de capital em pequeno espaço de tempo. E depois da terra arrasada, partem como nômades em busca de oportunidade em outro lugar.

Contudo, é na tragédia, fora da zona de conforto que se busca mudanças e soluções. Está ficando cada vez mais claro que apenas um projeto nacional de desenvolvimento sólido, com foco na industrialização e tecnologia, condicionado as características regionais e nacionais de produção, consumo e serviço, é capaz de restabelecer a dignidade dos brasileiros e delimitar as fronteiras entre os brasileiros e os novos povos bárbaros.

Por Borges Lima

Deixe uma resposta