O que a Coreia do Norte não é… e como entendê-la

Por Diego Pautasso e Tiago Nogara – Poucos temas são tão envoltos de abordagens sensacionalistas e fantasiosas como aqueles vinculados à Coreia do Norte. Isso inclui desde notícias sobre a possibilidade de uma iminente guerra nuclear até aquelas que propagandeiam a existência de desequilíbrios psicológicos de seus dirigentes.

Já se disse que na Coreia do Norte os cidadãos têm de cortar o cabelo de acordo com as poucas opções fornecidas pelo governo. Foi dito também que um dos homens de confiança de Kim Jong-Un teria dormido em uma cerimônia e, por essa razão, sido assassinado com a utilização de um míssil antiaéreo. Já foi noticiado que Jang Song-Thaek, tio de Kim, morto por insubordinação, teria sido dado como refeição para 120 cachorros mortos de fome. Nesse mesmo sentido, circulou a história de que a cantora pop Hyong Song Wol, ex-namorada de Kim, teria sido fuzilada por forças de inteligência norte-coreanas em função de vídeos pornográficos vazados – (dias depois ela apareceu na televisão, junto de sua banda).

Já ouvimos a história de que os cientistas norte-coreanos tinham provas concretas de que os unicórnios realmente existiram, quando, na verdade, a questão apenas se tratava de uma distorção acerca da identificação de um mausoléu chamado “Lar dos unicórnios”, próximo a Pyongyang, datado de mil anos. Outra questão curiosa foi a de que supostamente circularia na Coreia uma propaganda contra o país-símbolo do capitalismo, os Estados Unidos, afirmando que os estadunidenses vivem em tendas e comem neve derretida. Mas a mais jocosa foi a notícia que circulou sobre o regime teria inventado para a população local que a Coreia do Norte venceu o Brasil na Copa de 2014, conquistando seu primeiro título mundial. Agora em 2020, noticiários reportaram que Kim Jong-Un teria morrido (dias depois apareceu vivo e são), e recentemente divulgaram que o governo estaria abatendo cachorros para alimentar a população.

Por incrível que pareça, notícias e informações pitorescas como essas são cotidianamente expostas nos principais veículos de comunicação da mídia ocidental. Há muita desinformação, caricatura e estereótipos em diversos níveis sobre a Coreia do Norte. Frequentemente a Coreia é resumida a uma país militarizado, dirigido irracionalmente pela liderança permanente de Kim Jong-Un e sua família. A realidade, porém, os desmente. Os movimentos diplomáticos concernentes aos conflitos na Península Coreana são calculados de lado a lado, e o paradigma norte-coreano deve ser apreendido sobretudo a partir da perspectiva de uma experiência de desenvolvimento que, desde a conquista de sua independência política, enfrenta toda sorte de percalços para ensejar uma processo mais amplo de progresso econômico e social.

E, apesar das simplificações grosseiras, é preciso estudarmos e compreendermos tais fenômenos políticos e sociais para além das aparências midiáticas. Nesse sentido, entender a Coreia e sua inserção no mundo contemporâneo passa, indubitavelmente, pela consecução de um balanço rigoroso acerca de seu tortuoso processo de libertação nacional; da forma como exerceu a barganha nacionalista ao longa da Guerra Fria, movendo-se estrategicamente em meio à agudização da rivalidade entre a URSS e a China; dos percalços que enfrentou a partir da dissolução do campo socialista e da avassaladora onda neoliberal que tomou o mundo nos anos 1990; e, obviamente, das sistemáticas sanções e embargos, combinados com a presença hostil dos EUA e de sequenciais manobras militares no seu entorno, além das recorrentes chantagens vinculadas à questão nuclear.

É preciso entender que o socialismo não deve ser compreendido como uma moldura rígida, um tipo ideal a-histórico alheio às contradições que, inevitavelmente, marcam o conjunto dos processos de grande ruptura político-social. Ao contrário, a opção pelo socialismo orienta certas formas de governo e diretrizes econômicas para um país, bem como estabelece uma ideia-guia que sustenta ideologicamente suas movimentações. É imperativo à sobrevivência de qualquer país socialista – seja a antiga URSS, a China, Cuba, o antigo Iêmen do Sul ou a Coreia do Norte – desenvolver e aclimatar seus objetivos de largo prazo às condições geográficas, históricas e culturais de suas respectivas civilizações.

A chamada ideia Juche ilustra, portanto, a mais acabada ideologia-guia que rege a construção do socialismo coreano. Com suas particularidades, esboça ênfase na autossuficiência e na soberania nacionais; reflete a herança de uma civilização que resistiu aos avanços de poderosos impérios no seu entorno regional e desenvolveu uma renhida luta de libertação nacional; e assume perspectiva de assertiva resiliência frente à difícil situação internacional na qual se insere o país.

Enfim, é a partir desse objetivo, de prover um balanço sóbrio acerca da República Popular Democrática da Coreia (RPDC) e suas vicissitudes, que pretendemos, no curso Para entender a Coreia do Norte promovido pela Escola Latino-americana de Política e História (ELAHP), contribuir para o entendimento, estudos e pesquisas sobre a realidade deste país repleto de incompreensões. Um país-chave para os arranjos geopolíticos da Ásia Oriental, situado entre a China, a Rússia, a Coreia do Sul, o Japão e a ainda pujante projeção dos EUA. E tudo isso com o melhor da bibliografia e do material empírico disponível, ao invés do recurso fácil às narrativas anticientíficas que infelizmente preponderam e se alastram na atual quadra histórica. Afinal, sem um balanço objetivo acerca das experiências concretas de construção e desenvolvimento dos Estados socialistas de ontem e hoje, os enigmas não desvendados do socialismo real e os descaminhos do progressismo ocidental seguirão nos guiando para um beco sem saída.

Nos próximos dias 7, 8, 9 e 10 de setembro, o professor Diego Pautasso, doutor em ciência política pela UFRGS e coordenador de missão acadêmica à República Popular Democrática da Coreia (ocorrida em 2019), ministrará o curso “Para entender a Coreia do Norte: socialismo e geopolítica”, abordando a história e os dilemas da inserção internacional norte-coreana, e perpassando questões que vão desde o processo de libertação nacional até as dinâmicas mais contemporâneas do país. Para maiores informações sobre o curso, clique aqui.

Por:

Diego Pautasso – Doutor em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), autor do livro China e Rússia no Pós-Guerra Fria, ed. Juruá, 2011.

Tiago Nogara – Mestrando no Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais (PPGRI), da Universidade de Brasília (UnB).

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