UALLACE MOREIRA: PIB cresce 7,7% no 3º trimestre de 2020, resultado que frustra as expectativas

Por Uallace Moreira – As expectativas eram de que o PIB do 3º semestre apresentasse um crescimento acima de 9%. Quando comparamos com o 3º trimestre do ano anterior, o PIB apresenta uma queda de -3,9%.

O crescimento do PIB de 7,7% teve como principais elementos crescimento de 23,7% nas Indústrias de transformação e o comércio (15,9%). O único setor com taxa negativa de crescimento foi a agropecuária, que registrou variação negativa de 0,5%.

O crescimento da indústria foi sustentado em capacidade ociosa de produção e elação da formação bruta de capital fixo (FBCF), devido à forte crise que se abateu sobre o setor. Entretanto, é importante lembrar que o resultado da produção industrial de outubro mostra arrefecimento da recuperação do setor.

Em outro texto, mostro o arrefecimento da recuperação da indústria em outubro, que já vem ocorrendo desde agosto. Ou seja, essa perda de dinamismo pode impactar na recuperação do PIB no 4º trimestre.

Considerando as componentes da demanda agregada, a Formação Bruta de Capital Fixo cresceu 11,0% em relação ao trimestre imediatamente anterior. A Despesa de Consumo das Famílias teve expansão de 7,6% e a Despesa de Consumo do Governo cresceu 3,5%.
A melhor comparação para termos ideia da recuperação ou não do PIB é com o período do ano anterior. Nesse sentido, quando comparamos com o 3º trimestre do ano anterior, o PIB apresenta uma queda de -3,9%.
Quando comparamos com o ano anterior, a indústria de transformação apresenta taxa negativa de -1,3% e comércio -1,3%. Mas o interessante é que, mesmo diante da crise, atividades financeiras apresenta crescimento de 6%. Não existe crise para o setor financeiro no Brasil?
Do ponto de vista das componentes da demanda, comparando com o ano anterior, chama a atenção a forte queda da formação bruta de -7,8%; queda das despesas das famílias de -6,0%; e redução de -5,3% das despesas do governo.
Todos os indicadores do PIB, quando comparamos com o mesmo período do ano passado, apontam que a recuperação da economia brasileira ainda está longe de ser uma recuperação relevante e sustentável, principalmente considerando o consumo das famílias e o investimento.
Essa perspectiva mais pessimista se confirma quando identificamos o crescimento no acumulado do ano, com uma taxa negativa de -5,0%.
No acumulado no ano, despesas de consumo das famílias (-6,3%), formação bruta de capital fixo (-5,5%) e despesas de consumo das famílias (-4,9%) também mostram quedas substanciais.
Outro indicador interessante para analisarmos são as taxas de crescimento acumulado nos últimos quatro trimestres para o PIB a preços de mercado, a partir de 1996. A queda do PIB em 2020 é a maior da história, considerando a série.
O indicador dos quatro trimestre, mais uma vez, deixa claro que a crise da economia brasileira é grave e os indicadores apontam para uma recuperação muito lenta e longa. Isso terá impactos no mercado de trabalho, com já vive uma crise delicada, como mostro.
Nesse outro texto, mostro que a taxa de desocupação bateu novo recorde, com 14,9% As taxas de desocupação, ocupação, subutilização e o desalento são crescentes. Somando desalento (14,9%) e desocupação (5,7%), temos desemprego de 20,6%.
Mesmo com a recuperação do PIB, é importante observar que a taxa de investimento como proporção do PIB ainda continua muito baixa e não se altera, ficando em torno de 16,2%. Isso aponta para o baixo dinamismo da nossa recuperação.
Além do crescimento do 3º trimestre ficar abaixo das expectativas, a indústria aponta para arrefecimento, assim como o mercado de trabalho aponta para uma possível piora para os próximos meses. Esse cenário pode ser agravado com o fim do auxílio emergencial.

Por Uallace Moreira, mestre e doutor em Desenvolvimento Econômico pelo Instituto de Economia da UNICAMP e  professor da Faculdade de Economia da UFBA.

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