EUA: 2019, um ano com bastante turbulência

No último biênio, a economia mundial traçou sólido caminho de crescimento, ainda que aquém do observado no pré-crise de 2008–2009. Com isso, os ventos que sopravam favoravelmente às condições de liquidez mundial, convertem noutra direção.

Essa inversão nas condições de liquidez da economia mundial explica-se especialmente no contexto da aproximação da economia americana do nível próximo ao pleno emprego, induzindo a sequência de altas na taxa de juros básica dos EUA, que saiu de 1,5% em 2017 para 2,5% em 2018.

Nas condições normais de temperatura e pressão, o FED seguiria apertando sua condição monetária acreditando que seu mercado de trabalho apresenta melhoras significativas, além do risco da inflação ficar fora da meta.

Porém, com o término da lua de mel entre o mercado financeiro e a condução da política econômica do governo Trump, o FED tem-se visto como alvo (ou bode expiatório) para os possíveis riscos de uma economia mais fraca em 2019, com queda na bolsa americana e elevação das taxas de juros futura.

Demorou, mas acabou. Trump após viver um período de bonança econômica, fruto defasado das condições deixadas pela administração anterior, e chancelado pelo mercado financeiro, começou a sofrer com as consequências reais das políticas econômicas implementadas.

Não à toa, os mercados financeiros começam a sinalizar essa situação, estressando a bolsa de valores e taxas de juros futuras. O benefício da dúvida, pelo mercado financeiro, pairou durante muito tempo em troca de redução de impostos, desregulamentação e outras políticas que visassem seus interesses corporativos.

A insistência em políticas do tipo trickle down (melhorar o topo da pirâmide da sociedade para o restante melhorar a reboque) elevaram as taxas de juros futuros e a expectativa de inflação, pressionando a elevação da taxa de juros e colocando novamente em questionamento o endividamento do governo americano.

O resultado dessa economia de gotejamento do topo para a base rendeu frutos apenas para o setor corporativo, enquanto não houve transferência para os salários reais dos trabalhadores, ampliando o buraco entre o aumento da produtividade na economia e o aumento dos salários reais.

O Governo Trump já colocou restrições a imigração, prejudicando ainda mais a mobilidade de mão de obra em um país que se beneficia dessa situação, e agora estuda limitar os investimentos externos no país, demonstrando que quem “obedece” ao trilema de Mundell-Fleming não joga o jogo real da geopolítica. Também é preocupante a falta de iniciativas que visem ampliar os investimentos em infraestrutura, especialmente os sustentáveis.

Em meio a este cenário, dois bodes expiatórios surgem, o FED e a China. As investidas de Trump contra o FED ao final de 2018 tendem a impor ainda mais volatilidade no mercado e estressar taxas de juros futuras na economia norte americana, o que por sua vez pode gerar timidez do FED em acomodar o ritmo de crescimento da economia americana.

Com relação a China, as consequências da guerra comercial também podem evoluir a depender da resposta a ser dada pela China, com resultados significantes para a economia mundial. Se a guerra cambial iniciada em 2010 era a antessala da guerra comercial, definitivamente já estamos na sala principal.

Por Rafael Leão.

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