A volta da política industrial na Europa não é má notícia

A mídia ocidental recentemente informou que a União Europeia está abraçando a política industrial novamente, dizendo que a organização continental está propensa a aceitar a proposta francesa de levar adiante uma política industrial Europeia para revigorar sua indústria e fortalecer as fundações da recuperação econômica do bloco.

De fato, a introdução de políticas para ajudar o desenvolvimento da indústria doméstica foi coisa comum na Europa logo após a segunda Guerra Mundial. Entretanto, com as privatizações e desregulações desde os anos 80, a intervenção foi gradualmente desaparecendo.

Sob a orientação da teoria de intervenção estatal conhecida como “Gaullismo” (Charles de Gaulle), o governo francês deu taxas de juros subsidiadas a empresas selecionadas e estabeleceu empresas estatais a fim de encorajar o desenvolvimento tecnológico desde os anos 60. Graças a esta política, a França teve sucesso no desenvolvimento de novas tecnologias, incluindo aí os trens de alta velocidade, usinas nucleares para fins civis, na indústria de aviação e aeroespacial nos anos 70, e rapidamente se tornou um líder global em vários setores industriais, apenas duas ou três décadas após a segunda Guerra Mundial.

A política industrial do Reino Unido foi feita primeiramente para proteger sua indústria têxtil de produtos externos. Após a Revolução Gloriosa, os britânicos pararam completamente com a importação de lã da França e da Holanda, e em 1699 passou a Lei da Lã (Wool Act) para proteger a indústria têxtil doméstica. Em 1700, o Parlamento Britânico passou legislação proibindo a importação de tecidos de algodão da Índia.

Muitos historiadores econômicos britânicos apontaram que a política industrial da Casa de Tudor foi a chave para o grande surgimento da Grã-Bretanha. E quanto à teoria da vantagem comparativa de Adam Smith, o criador da Economia, a teoria seria apenas um conjunto de afirmações que os britânicos “inventaram” após obter sua predominância industrial. A teoria foi usada para persuadir outros países europeus a não mais usar políticas industriais para fomentar seus esforços empreendedores industriais domésticos que pudessem competir com o Reino Unido.

A intervenção ativa da política industrial do governo também criou o milagre da Confederação Germânica. A fim de proteger seu próprio mercado, a Prússia estabeleceu a União Aduaneira Germânica, implementando uma política de altas tarifas para manter os produtos industriais britânicos e franceses fora da Confederação Germânica. Ela estabeleceu empresas estatais e financiou companhias privadas, criando as fundações para a vitória da Prússia na guerra Franco-Prussiana em 1871, com o posterior estabelecimento do Império Germânico.

Por mais de um século, entre 1820 e 1930, os Estados Unidos implementaram políticas de alta tarifa sem precedentes. Foi sob a proteção de altas tarifas que os EUA deixaram de ser um país agrícola para se tornar o maior poder industrial do mundo. Nas vésperas da Primeira Guerra Mundial, os EUA tinham o maior produto industrial do mundo, contabilizando àquela época 32% do produto mundial.
Depois dos anos 80, o neoliberalismo se tornou a escola de pensamento dominante nos países ocidentais. Seu “fundamentalismo de mercado” atacou o intervencionismo econômico, e a política industrial foi varrida pelos tomadores de decisão governamentais e pela Economia.

Embora estas “revoluções” teóricas tenham sido benéficas à liberalização financeira, elas indiretamente causaram o esvaziamento industrial e a polarização social do Ocidente. Em anos recentes, a significância da política industrial nos fortes crescimentos econômicos de economias emergentes chamou a atenção dos países desenvolvidos que hoje sofrem com o declínio industrial. Como resultado, países Ocidentais aumentaram os ataques contra as economias emergentes na OMC por intervencionismo estatal e violação dos princípios do livre comércio com suas políticas industriais.

Eles devem ter se esquecido da história de seu próprio desenvolvimento. Felizmente, estes pioneiros na industrialização finalmente perceberam a importância da política industrial, conforme lutam para sair de sua atual “estagnação”. Eles começaram a repensar a implementação de política industrial como arma para revitalizar suas indústrias.

Na realidade, as economias emergentes precisam apenas de competição justa no desenvolvimento econômico, e não temem que as economias desenvolvidas retomem suas antigas maneiras de política industrial. Se os países desenvolvidos puderem justificar a implementação de políticas industriais, não seria necessariamente algo ruim para as economias emergentes que confiarem em suas próprias políticas industriais para um rápido desenvolvimento.

Por Ding Yifan, professor na Beijing Foreign Studies University. Texto original no Global Times.

Tradução: Fausto Oliveira do Blog Novo Desenvolvimento.

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