JONES MANOEL: A privatização da Petrobras e a ideologia burguesa

Uma das principais missões ideológicas da economia burguesa é retirar de qualquer horizonte político a visão de totalidade das relações econômicas em âmbito nacional e mundial.

Posso ilustrar isso com um exemplo. A Petrobras é responsável por grande parte do investimento público no país, uma das maiores geradoras de ciência, tecnologia e inovação (coisa raríssima na nossa economia), movimenta uma cadeia produtiva gigante de empresas no ramo industrial e de serviços complexos, a questão energética está intimamente relacionada com soberania nacional, segurança militar e o preço dos combustíveis, especialmente em um país como o Brasil onde mais de 80% das mercadorias e pessoas circulam por meios rodoviários, impacta que toda cadeia produtiva da economia.

Quando um economista liberal fala em privatização da Petrobras ele esquece tudo isso e resume o debate a dimensão de “aumentar a eficiência e reduzir o custo do produto”. O argumento seguinte, é claro, é que com a empresa privada a eficiência seria maior – normalmente, não se debate o que é eficiência – e o preço dos combustíveis menores. Isso, evidentemente, é falso, mas para além de ser falso, já é um falso problema. Fingem, por exemplo, que não existe uma questão de soberania energética e controle de custos básicos das cadeias produtivas.

Quando um economista liberal fala em privatização da Petrobras ele ignora também que mercadorias como petróleo e seus derivados são controlados por políticas de Estado associados aos seus monopólios locais. Um Estado, ao manter o controle sobre a produção de petróleo, pode controlar o preço do produto no mercado mundial associado com outros países produtores. Privatizar a Petrobras significa abrir mão de decidir junto com a Rússia, Irã, Arabia Saudita e os demais países da OPEP quanto vai custar essa mercadoria.

Nesse exato momento, a China joga todo seu peso diplomático para estabelecer uma aliança com a Arabia Saudita e tirar o país da órbita de influência dos EUA. Mais que ter uma fonte de compra, o que a China quer é maior peso nas decisões do mercado energético mundial – que nunca foi decido por empresas privadas, como nenhum mercado é.

Tudo isso, no discurso liberal, some do horizonte. O debate fica mais simples, cheio de frase feita, jargões e, é claro, burro. Mas é uma burrice com função ideológica de classe muito evidente.

Por Jones Manoel

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