Sobre a privatização da Eletrobras

Sobre a privatização da Eletrobras, que tal dar uma olhada no mundo físico pelo planeta?

O clube de países líderes na produção de hidroeletricidade é muito seleto. Os 10 líderes são:

China, Brasil, Canadá, Estados Unidos, Suécia, Noruega, Rússia, Índia, Venezuela e Japão.

Desses, apenas o Japão tem seu setor elétrico privado. Só que essa forma de energia só representa 7% do seu consumo.

Para se ter uma ideia, o Brasil, segundo colocado, atrás da China, produz mais de 7 vezes o que o Japão produz e isso representa quase 70% da nossa energia elétrica.

Nenhum dos outros países privatizou suas usinas totalmente, e, ao contrário do que as pessoas pensam, o sistema brasileiro já é majoritariamente privado em todas as etapas do sistema: Geração, Transmissão e Distribuição.

De 1995, ano inicial do modelo vigente, até 2019, a tarifa média residencial subiu 69% acima da inflação. A industrial, 158% acima da inflação.

O caso brasileiro é tão bizarro que a Agência Internacional de Energia, utilizando o método de Paridade do Poder de Compra, mostra que a tarifa brasileira já é a 3ª mais cara do planeta. Pagamos quase o triplo do que paga um canadense, que tem o sistema mais parecido com o brasileiro.

Tentam culpar os impostos, que são realmente altos, mas estão longe de serem os maiores. A Dinamarca cobra 53% sobre o consumo de eletricidade!

A Eletrobras foi usada pelos diversos governos para tentar minorar os defeitos do modelo vigente. Teve que assumir distribuidoras do norte do país que o setor privado rejeitou, foi obrigada a “doar” energia ao mercado livre no pós racionamento, foi obrigada a fazer parcerias minoritárias com o setor privado, pois o investimento estava insuficiente, apesar do BNDES. Finalmente, no governo Dilma, foi atingida pela tentativa de redução de tarifas na “marra” para não incomodar o setor privado, que ficou praticamente incólume.

Se for privatizada, esse efeito sobre a dívida pública será desprezível. São apenas R$ 16 bilhões numa dívida que se aproxima de R$ 7 trilhões. Mas a tarifa brasileira vai aumentar cerca de 20% porque o setor privado não aceita as tarifas irrisórias impostas pelo governo Dilma.

Portanto, é preciso pensar se vamos aceitar que o Brasil seja aquele país esquisito, com tanto recurso natural e preços tão caros. O Brasil tem que rejeitar essa maldição de não poder ter empresas públicas eficientes, pois, outros países têm e o Brasil já teve, pois, no setor elétrico, devemos muito do que temos à Eletrobras.

Por Roberto Pereira D´Araujo
Diretor do Instituto de Desenvolvimento Estratégico para o Setor Elétrico – ILUMINA. Engenheiro Eletricista (PUCRJ), Mestre em Sistemas (PUCRJ). Pós Graduado em Power Systems Operation & Planning (Waterloo University). Fez estágio técnico na Bonneville Power Administration, no Oregon (EUA). Foi chefe da Assessoria de Métodos e Modelos e do Departamento de Estudos Energéticos e de Mercado da Furnas Centrais Elétricas S/A.