UALLACE MOREIRA: Sinais da baixa e lenta recuperação da Indústria brasileira

Em outubro, a produção industrial cresceu 1,1% frente a setembro de 2020. Qual o problema dessa taxa de crescimento? Ela está caindo, quando comparada com o mês anterior. Pior, comparado com o ano anterior, a taxa de crescimento também é baixa em 0,3%.

Comparando o mês anterior do mesmo ano, o preocupante é que depois da indústria apresentar uma recuperação elevada em maio (crescimento de 8,7%), desde agosto (3,4%) a taxa de crescimento vem diminuindo, dando sinais de arrefecimento da recuperação da indústria, com o crescimento em apenas 1,1% em outubro.

Quando analisamos a comparação com outubro de 2019, a indústria apresenta uma taxa de crescimento de 0,3%. Isso deixa mais claro a perda de dinamismo do crescimento da indústria. Por um lado, o ponto relevante nos indicadores quando comparamos com outubro de 2019 é que bens intermediários (3,2%) e bens de capital (2,1%) apresentam taxas positivas de crescimento e são setores diretamente associados ao investimento. Por outro lado, preocupa as elevadas taxas de crescimento negativas dos setores de bens de consumo não duráveis (-3,4%) e bens de consumo duráveis (-8,3%).

Os setores de bens de consumo duráveis e bens de consumo não duráveis estão associados ao dinamismo do mercado interno. Portanto, a baixa taxa de crescimento desses setores pode estar associadas à grave crise no mercado de trabalho com o elevado desemprego. Além do mais, a queda do consumo de bens de consumo não duráveis, como alimentos, pode ter maiores consequências com o fim do auxílio, pois as pessoas desempregadas não terão renda nem mesmo para poder se alimentar.

Se considerarmos a taxa de crescimento acumulada no ano, a queda da indústria é de -6,3%, comparada com o mesmo período do ano anterior.  As elevadas quedas nas taxas de crescimento de Bens de capital (-15,4%) e bens de consumo duráveis (-24,6%) expressam muito bem a gravidade da crise econômica pela qual o Brasil atravessa.

A forte queda do setor de bens de capital e bens de consumo duráveis no acumulado do ano deixa em evidência a crise do mercado interno, principal responsável pelo dinamismo da demanda agregada brasileira. Isso, sem dúvidas nenhuma, é resultado da crise no mercado de trabalho e do baixo nível de investimento. A taxa de desemprego, se considerarmos a taxa de desocupação (14,1%) e a taxa de desalento (5,7%), ultrapassa a casa de 20%, além do levado nível de subutilização da força de trabalho, que ultrapassa a casa dos 30%. Tudo isso representa uma situação de forte crise do mercado interno, dado a queda do nível de renda da classe trabalhadora.

Os indicadores da indústria mostram que a recuperação da economia brasileira, possivelmente, será lenta e longa. Isso estará associado a uma delicada situação do mercado de trabalho, com baixa taxa de investimento no país. A redução e o fim do auxílio, associado a esse cenário de elevado desemprego e lenta recuperação, pode agravar a situação de desigualdade social no país, gerando um verdadeiro cenário de caos social.

Mesmo com esse cenário delicado, as únicas opções apresentadas pelo governo, pelo mercado e pela grande imprensa para superar a crise são as reformas e o ajuste fiscal. Como falar em inflação de demanda diante desse cenário? Como falar em ajuste fiscal e reformas? São questões que, provavelmente, serão sempre justificadas de acordo com o “mito” de que o estado não pode gastar mais do que arrecada, como uma família, além da ideia de que as reformas são necessárias porque o estado é “ineficiente”.

Por Uallace Moreira, mestre e doutor em Desenvolvimento Econômico pelo Instituto de Economia da UNICAMP e  professor da Faculdade de Economia da UFBA.

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  • […] outro texto, mostro o arrefecimento da recuperação da indústria em outubro, que já vem ocorrendo desde […]

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