WOLFSTREET: O que são os programas de resgate do FED para Corporações e Investidores?

Indiretamente via Veículos de Propósito Especial e seus Negociadores Primários, o FED pode comprar até bicicletas velhas, desde que os contribuintes assumam os prejuízos.

Com o a anúncio desta manhã (23/03), o FED[1] expandiu seus três mecanismos fundamentais por meio dos quais mais uma vez está resgatando os maiores tomadores de risco, as mais alavancadas companhias, fundos de hedge, fundos imobiliários de hipoteca e empresas de Private Equity; acabando com o fluxo de caixa de poupadores avessos a imprevistos e detentores de título do tesouro; e criando oportunidades especiais para indíviduos bem conectados que detém acesso privilegiado aos programas do FED. Nenhum desses programas consertará a economia.

Esse programas de resgate se dividem em três mecanismos:

1. FED comprando ativos diretamente. Até esta manhã (23/03), esse expediente estava limitado a títulos do Tesouro, dívida de agências e títulos lastreados em hipotecas (MBS, em inglês) garantidos pela Ginnie Mae (agência governamental estadunidense) e Empresas Apoiadas pelo Governo (GSEs). Esta manhã, o FED adicionou títulos mobiliários garantidos por hipotecas comerciais (CMBS) à lista[2].

2. FED cria veículos de propósito especial (SPV) e empresta para os SPVs que então compra ativos ou empresta. Esses SPVs podem comprar ativos que o FED não está autorizado a comprar e podem emprestar para entidades ou indivíduos para comprar certos ativos. De acordo com Federal Reserve Act (lei do Banco Central estadunidense), esses SPVs necessitarão de garantia dos contribuintes por meio do Departamento do Tesouro para proteger o FED de prejuízos.

3. O FED empresta para seus 24 Negociadores Primários contra garantias e essa garantia pode ser qualquer coisa que o FED decidir, inclusive ações, a partir de agora – e no final bicicletas velhas.

Todo esse alfabeto de de novos programas necessitará de um tempo para ser configurado e colocado em prática. E, considerando que eles não consertarão a economia e seus problemas subjacentes, eles podem não funcionar tão bem para atingir seus objetivos – fazer os mais ricos ainda mais ricos – como eles funcionaram durante a Crise Financeira. Então teremos que ver como isso se desenrolará.

Nesta manhã, 23 de março, o FED anunciou uma série de programas e expansões para programas já existentes:

Alívio Quantitativo ilimitado: as compras de título do Tesouro e títulos lastreados em hipotecas (MBS) será ilimitado (anteriormente, o limite era de 500 bilhões de dólares de títulos do Tesouro e US$ 200 bilhões de MBS). Para esta semana, foi anunciado que o Fed compraria US$ 375 bilhões de títulos do Tesouro e US$ 250 bilhões em MBS.

Alívio Quantitativo em CMBS: As compras em Alívio Quantitativo (QE)[3] incluirão a partir de agora títulos lastreados em hipotecas comerciais (CMBS), mas somente aqueles garantidos por Empresas Apoiadas pelo Governo (GSE) e Ginnie Mae.

PMCCF para emprestar para grandes empresas. Por meio da Linha de Crédito Corporativo do Mercado Principal (PMCCF), o FED emprestará para um Veículo de Propósito Especial (SPV) que então providenciará empréstimos-ponte com vencimentos de quatro anos para grandes empresas com grau de investimento[4]. Eles podem diferir o juros e a amortização do principal por seis meses, extensíveis segundo a discricionaridade do Fed. Com isso, o Fed está tentando acabar com a precificação do risco de empresas sobre-alavancadas e proteger e compensar as perdas dos acionistas e dos credores dessas empresas.

SMCCF para comprar títulos corporativos e títulos de ETFs[5] listados nos EUA. Com a Linha de Crédito Corporativo do Mercado Secundário (SMCCF), o FED emprestará para um SPV para comprar títulos corporativos de empresas com grau de investimento e ETFs de títulos corporativos.

O famigerado TALF está de volta. O FED inventou essa Linha de Empréstimo Garantidos por Ativos a Prazo (TALF) durante a última Crise Financeira. Neste programa, o FED empresta dinheiro para um SPV, que por sua vez empresta de modo não-recursivo para entidades e indivíduos bem conectados para que eles possam comprar títulos lastreados por ativos (ABS) emitidos recentemente, os quais são oferecidos como garantia.

“Não-recursivo” siginifica que se o ativo implodir, o beneficiário pode ir embora sem ser afetado e pode deixar para o SPV lidar com os detritos.

Esses ABS podem ser lastreados em rotativo de cartão de crédito, empréstimos para adquirir automóveis, dívida estudantil, empréstimos garantidos por estoque, financiamento de prêmios de seguro, alguns empréstimos garantidos pela Administração de Pequenos Negócios (SBA, em inglês) e alguns outros empréstimos e recebíveis. Os montantes dos empréstimos serão “iguais ao valor do ABS menos um deságio e será garantido o tempo todo pelo ABS”, diz o Fed.

Uma pequena história do TALF: no final de 2010, sob ordens do Congresso, o Fed divulgou dados sobre mais de 21 mil transações executadas durante a Crise Financeira, revelando entre muitos outros atos escandalosos, que o Fed emprestou para indivíduos bem conectados e toda sorte de fundos de hedge[6] e outros dentro do TALF para que eles pudessem comprar certos ativos, como esses ABS de empréstimo para consumo, aumentar seus preços e então vendê-los para fundos de pensão e outras entidades em troca de um gigantesco lucro, e pagar os empréstimos para o Fed.

Esses indivíduos bem conectados incluíam John A. Paulson[7], Michael Dell[8], Christy K. Mack (esposa do ex-CEO da Morgan Stanley, John Mack), Kendrick R. Wilsojn III (ex-executivo da Goldman Sachs e assessor de Hank Paulson Jr[9]), H. Wayne Huizenga (fundador da AutoNation e Waste Management), Jonathan S. Sobel (diretor do departamento de hipotecas da Goldman Sachs), etc. Algumas pessoas muitas ricas fizeram um monte de dinheiro com os programas de resgate do Fed enquanto os trabalhadores e a economia estavam em problemas profundos.

MMLF expandido para títulos municipais e CDBs. Essa Linha de Liquidez para Fundos Mútuos de Mercado Monetário foi anunciada semana passada (veja abaixo). Por meio de SPVs, ela compra papéis corporativos de curto prazo que normalmente são comprados por fundos do mercado monetário. Empresas tomam emprestado à curto prazo de investidores por meio da venda papéis corporativos para fundos do mercado monetário. Essa dívida corporativa é percebida como mais arriscada, incluindo o risco de moratórias, e esses fundos do mercado monetários estão agora sob estresse, muito parecido com seus irmãos de longo prazo, os fundos de títulos corporativos normais.

Hoje (23/03), o Fed expandiu o rol de títulos que os seus SPVs podem comprar para incluir títulos pós-fixados municipais e certificados de depósito bancários (conhecidos no Brasil como CDBs, N.T.).

Expansão do CPFF para papéis municipais. Semana passada o Fed anunciou o Fundo de Financiamento de Papéis Comerciais, na qual o Fed empresta a um SPV que então compra papéis comerciais de corporações. Hoje (23/03), o Fed expandiu o CPFF para que o SPV possa comprar papéis comerciais emitidos por mutuários municipais de “alta qualidade” e isentos de impostos.
Os contribuintes absorvem as perdas dos SPVs. Sob o TALF, PMCCF, SMCCF, MMLF e CPFF, o Fed providencia empréstimos para os SPVs. Então esses SPVs executam os negócios na prática. Se os ativos que eles comprarem ou aceitarem como garantia implodirem, eles podem gerar prejuízos para o SPV. Para evitar transferir esses prejuízos para o Fed, o Departamento do Tesouro, por meio do seu Fundo de Estabilização de Transação (ESF), provê US$ 10 bilhões em dinheiro dos contribuintes como patrimônio líquido para cada SPV iniciar suas atividades. Quando um SPV ultrapassar a margem de US$ 10 bilhões, é só uma questão de ajuste técnico para chamar os contribuintes mais uma vez.

O Fed invocou o Seção 13 (3) da Lei do Fed para se dar autoridade, com aprovação do Secretário do Tesouro, para o TALF, PMCCF, SMCCF, MMLF e CPFF.

Semana passada

Repos ilimitados. Não há agora muita demanda para repos[10], e sua subscrição ficou muito aquém da oferta, mas o Fed está oferecendo literalmente dinheiro ilimitado nas transações noturnas (overnight) e acordos de recompra a termo (repo), chegando a mais de US$ 1 trilhão o dia, se alguém quiser, mas não há muitos tomadores.

Melhores acordos de liquidez (swap) em dólares americanos com os principais bancos centrais (anunciado no dia 20/03). O Fed, o Banco do Canadá, o Banco da Inglaterra, o Banco do Japão, o Banco Central Europeu e o Banco Nacional Suíço concordaram em aumentar a frequência das operações da linha de swap de liquidez em dólares dos EUA com vencimentos em 7 dias, de semanal para diária. As linhas de swap são projetadas para reduzir o estresse no mercado externo de financiamento em dólares dos EUA (eles não podem emprestar em suas próprias moedas, pelo amor de Deus?).

Novos acordos de swap com Bancos Centrais menores (anunciado em 19 de março). O Fed disponibilizou até US$ 60 bilhões para cada um, incluindo o Banco Reserva da Austrália, Banco Central do Brasil, Banco da Coreia, Banco do México, Autoridade Monetária de Singapura e o Sveriges Riksbank (Suécia); e US$ 30 bilhões cada, para o Danmarks Nationalbank (Dinamarca), Norges Bank (Noruega) e o Banco Reserva da Nova Zelândia.

Estabelecimento do MMLF para resgatar fundos do mercado monetário (anunciado 18 de março). Por meio da Linha de Liquidez para Fundos Mútuos de Mercado Monetário, o Fed de Boston fará empréstimos para bancos estadunidenses e filiais de bancos estrangeiros nos EUA para que eles comprem ativos de “alta qualidade” dos fundos mútuos do mercado monetário e os ofereçam como garantia desses empréstimos. Ativos elegíveis são papéis comerciais segurados ou não, títulos de agência[11], e títulos do Tesouro.

Contribuintes disponibilizarão US$ 10 bilhões em proteção de crédito para o Fed para o MMLF, por meio do ESF do Departamento do Tesouro e com aprovação do Secretário do Tesouro. A autoridade invocada é a Seção 13 (3) da Lei do Fed. Contribuintes absorvem prejuízos.

Estabelecimento do PDCF para emprestar a Negociadores Primários (anunciado 17 de março). Na Linha de Crédito para Negociadores Primários (PDCF), o Fed empresta diretamente para seus 24 “Negociadores Primários” – grandes corretoras e bancos, a maioria deles são filiais de bancos estrangeiros nos EUA (aqui há a lista destes 24 Negociadores Primários e seus países de origem). Esses empréstimos serão de financiamento overnight e financiamento a prazo com vencimentos de até 90 dias. Os juros são da Taxa de Crédito aos Negociadores Primários, atualmente em 0,25%. A garantia para esses empréstimos são uma ampla gama de títulos além dos títulos do Tesouro, dívida de agências e MBS de agências:

• Títulos corporativos com grau de investimento
• Títulos de agências internacionais
• Papéis comerciais, com grau A1/P1 e A2/P2
• Títulos municipais
• Títulos lastreados em hipotecas (MBS)
• CLOs (Obrigações de Empréstimos Garantidas) com grau BBB- (uma pitada acima do nível “podre”) ou acima.
• CMBS (títulos lastreados em hipotecas comerciais) com grau BBB- ou acima
• CDOs (Obrigações de Depósito Garantidas) com grau BBB- ou acima
• Ações
• “Garantias adicionais podem se tornar elegíveis numa data futura após mais análise”.

Em outras palavras, o Fed não precisa comprar os ativos: os bancos o farão, e o Fed empresta para que eles façam isso. E esses bancos podem oferecer os ativos assim adquiridos como garantia.

Estabelecimento do CPFF para resgatar entidades que dependem de empréstimos por papéis comerciais (anunciado dia 17 de março). Sob o Fundo de Financiamento de Papéis Comerciais, o Fed empresta para um SPV que então adquire uma ampla gama de papéis comerciais lastreados em ativos denomidas em dólar e não-seguros (com grau pelo A1/P1/F1). Então se as coisas se tornarem um pouco difíceis, eles precisarão ser resgatados.

Os contribuintes disponibilizarão US$ 10 bilhões em patrimônio líquido para cada SPV, por meio do ESF do Departamento do Tesouro e absorverá os prejuízos. Autoridade invocada na Seção 13 da Lei do Fed.

Por: Wolf Richter, publicado originalmente no Wolf Street em 23 de março de 2020. Tradução de Arthur Silva.

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Notas:

[1] Banco Central estadunidense (N.T.).

[2] Nos Estados Unidos, o sistema de financiamento habitacional tornou-se fortemente estatal, contando com empresas estatais e empresas privadas apoiadas pelo governo, chamadas de GSEs. Na crise do subprime em 2008, o Fed comprou boa parte dos chamados “títulos podres” baseados em hipotecas impagáveis da população estadunidense, no que ficou conhecido como Alívio Quantitativo (Quantitative Easing, em inglês) em uma operação extremamente controvertida, para não dizer abertamente corrupta. Duas dessas empresas, apelidadas de Fannie Mae e Freddie Mac, (a primeira criada na época do New Deal de Roosevelt), que haviam sido privatizadas nos anos 1960, foram reestatizadas após a crise de 2008. As duas estatais, que atuam no mercado secundário de hipotecas, constam como a maior e a quarta maior empresas estadunidenses, medidas pelo total de ativos (N.T.).

[3] Alívio Quantitativo ou Quantitative Easing em inglês foi o nome dado para a impressão generalizada de dólares para reverter a crise financeira de 2008. A característica mais marcante dessa política tal como foi adotada é que esse volume de dinheiro foi canalizado principalmente para as empresas financeiras que haviam causado a crise, principalmente no mercado imobiliário, pela compra dos títulos (dívidas) que apodreciam em seus balanços em razão de impossibilidade de serem resgatadas, beneficiando direta e explicitamente os responsáveis pelas mazelas no lugar de promover desenvolvimento econômico. Em uma série de artigos, Wolf Richter argumentava que o Alívio Quantitativo jamais havia acabado, pois estes títulos podres continuam até hoje no balanço do Fed. No vencimento desses títulos, o Tesouro estadunidense deveria pagar ao Fed. Para evitar um colapso ainda mais intenso da já deteriorada situação fiscal dos EUA, o Fed vinha “rolando” essa dívida, ou seja, perpetuando eternamente seu vencimento. Isso, junto de outras medidas, vinha criando a chamada “Bolha de Tudo” (Everything Bubble) do descolamento ainda maior do mercado financeiro estadunidense em relação à sua economia real, bolha cujo estouro estamos testemunhando agora, catalizada pela pandemia do COVID-19 (N.T.).

[4] Graus de investimento conferidos por empresas de rating, como a Standard & Poors ou a Moody’s (N.T.).

[5] ETF é a sigla em inglês para Exchange Traded Funds, ou fundos de índices. Esses fundos costumam ser negociados como se fossem ações na bolsa e seu comportamento procura mimetizar o de índices, como o S&P 500 ou o iBovespa, no caso do Brasil. Em geral, compra-se a participação de fundos administrados por empresas financeiras que gerenciam uma carteira de ativos (p.ex., ações) montada de modo a espelhar tais índices. No caso da SMCCF, as ETFs que o Fed comprará por meio das SPV serão as que mimetizam índices do mercado de títulos corporativos. (N.T.)

[6] Esses fundos são especializados em operações conhecidas como “hedge”, que manejam derivativos para a cobertura de perdas ou ganhos em transações com um terceiro ativo (N.T.).

[7] Fundador da Paulson & Co., uma até então firma de investimentos relativamente desconhecida. Ficou famoso por lucrar quase US$ 4 bilhões na pessoa física durante a crise do subprime em 2008, o que é retratado no filme “Big Short” de 2015 (N.T.).

[8] Fundador da Dell, empresa de tecnologia famosa por sua marca de computadores pessoais (N.T.).

[9] CEO da Goldman Sachs e membro da Assembleia de Governadores do FMI (N.T.).

[10] Os acordos de recompra a termo (repo) são operações nos quais agentes que precisam de dinheiro oferecem um título extremamente seguro, normalmente do Tesouro estadunidense, em troca de um empréstimo de curto prazo garantido por esse título na forma de uma venda seguida de recompra, similar a uma loja de penhores. Uma das primeiras medidas anunciadas pelo Fed é que passaria a atuar no mercado de Repo. No entanto, a demanda foi bastante baixa, não atingindo 10% dos empréstimos ofertados pelo Fed (N.T.).

[11] Nos EUA, algumas GSEs e outras agências como a Associação de Comercialização de Empréstimos Estudantis (SLMA) podem emitir títulos (N.T.).

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