Resumo de um dia turbulento: economia agitou América do Sul nesta segunda

O acontecimento mais bombástico da América do Sul neste segundo semestre, até o momento, foi o resultado das eleições primárias ocorridas ontem na Argentina. Os efeitos econômicos foram imediatos. Outro índice negativo da economia brasileira, divulgado pelo Banco Central nesta segunda, colaborou para esquentar o clima da região.

Vamos aos fatos.

Argentina

  • A vitória de Alberto Fernández e Cristina Kirchner contra a chapa de Mauricio Macri nas primárias com uma vantagem tremenda de 15 pontos assustou o mercado, temeroso de perder espaço para o povo num eventual governo Fernández-Kirchner;
  • A bolsa de valores da Argentina operou, hoje, com queda de 34,14% (às 14h30, horário de Brasília);
  • O peso argentino desvalorizou 30% em relação ao dólar dos EUA;
  • Para conter a desvalorização do peso em relação ao dólar, diante dos movimentos especulativos contra o resultado das urnas, o Banco Central argentino elevou os juros para espantosos 74%;
  • A Argentina registrou a maior queda de valor em seus títulos desde 2001.

É nítido que se organiza uma resposta em forma de chantagem econômica à vitória de um bloco de oposição cuja agenda não se identifica com o ultraliberalismo pró-mercado de Mauricio Macri. A própria elevação dos juros ao patamar de 74% irá repercutir no endividamento do Estado argentino, ameaçando entregar a Alberto Fernández, em caso de sua eleição em outubro, um país colapsado.

A velocidade da crise está tão acelerada que uma jogada desse tipo não pode ser descartada. A tentativa de sabotagem da vitória inquestionável sobre o liberalismo macrista começou a menos de 24h da tomada de conhecimento dos resultados.

Brasil

  • O Banco Central divulgou hoje a prévia do PIB (Índice de Atividade Econômica do Banco Central) para o segundo trimestre da economia: queda de 0,13%.
  • Esse recuo da atividade econômica no Brasil é o segundo seguido. Dois trimestres consecutivos de retração econômica tem nome: recessão técnica.

Com a economia brasileira entrando em recessão novamente, após uma breve recuperação no governo Michel Temer, compreende-se a pressa do governo em liberar saques do FGTS. Sem sinal de retomada do crescimento, o FGTS servirá como alivio imediato da crise no terceiro trimestre, mas sem qualquer chance de endireitar o rumo da economia.

Balanço

A economia brasileira em recessão é uma péssima notícia para todo o continente. Diversos países da região compram e vendem seus produtos para o Brasil em quantidades significativas. O elo econômico entre Brasil e Argentina, por sinal, é dos mais fortes. Por isso tamanha preocupação.

O ministro Paulo Guedes pediu “paciência”. Difícil saber se ele se dirigia à oposição política, ao baronato econômico ou aos milhões de desempregados e trabalhadores na informalidade.

Ainda assim, Brasil e Argentina se apresentam como casos radicalmente distintos em certo sentido, ou seja, no sentido da turbulência.

A turbulência brasileira é da mesma natureza da crise gerada pela política liberal e austera de Mauricio Macri, cujos efeitos catastróficos resultam agora na ascensão de uma nova composição de forças amparada no kirchnerismo.

Isso aponta para uma inviabilidade do projeto econômico liberal, que se mostra cada vez mais como uma mera expressão ideológica do que como alternativa eficaz para os desafios do desenvolvimento dos países da região.

Porém, a turbulência aguda gerada na e pela economia argentina nesta segunda-feira, conforme mencionado, diz respeito muito mais a uma resposta dos agentes de mercado e especuladores, sem qualquer vínculo com a riqueza produzida pelos trabalhadores argentinos, que apostam agora simultaneamente em lucrar com a crise e corroer os recursos do país para inviabilizar o próximo governo de esquerda (por exemplo, com o aumento da taxa de juros para 74%).

Isso é um alerta para o Brasil, pois ainda estamos no primeiro ano de governo Bolsonaro. Se continuarmos nesse ritmo de deterioração econômica e social, em 2022 a Argentina será aqui.

Como não existe automatismo na história, não basta aguardar sentado. Será preciso que as forças políticas progressistas e nacionalistas do nosso país se aglutinem em torno de uma estratégia poderosa como a de Cristina Kirchner, que abriu mão de seu protagonismo para fortalecer um projeto muito mais viável.

 

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