O que têm a ver a saída da Ford e a destruição da Amazônia?

Por Abner Santos – A degradação de todos os nossos biomas se tornou uma morbidade sempre presente nas notícias, mas da qual nos desconectamos, por não acreditarmos que seja possível pará-la, muito menos revertê-la. Talvez por isso não percebamos de imediato a conexão profunda que existe entre queimadas ou desmatamento e a saída de grandes montadoras, como a Ford, e o fechamento de outras milhares de fábricas no Brasil. Uma é consequência imediata da outra. E a luta contra o desmatamento passa, por incrível que pareça, pela reindustrialização do país.

Trinta e seis anos nos separam do fim da ditadura civil-militar brasileira. O começo do regime que perseguiu, matou e torturou se deu em um momento muito prodigioso e estimulante da economia do nosso país. Crescíamos como nenhum outro país do mundo. Nosso PIB aumentava a uma média de 6% ao ano, com alguns picos em que chegamos a crescer 10% (O que já era verdade antes do Golpe de 1964).

Esse profundo e acelerado processo de industrialização urbanizou o Brasil à força, deslocando imensos contingentes de populações rurais de suas propriedades e alocando todas essas pessoas em cidades com pouco ou nenhum planejamento para recebê-las. Milhões de famílias que viviam da agricultura familiar migraram para as cidades, onde não tinham terras para plantar, ficando cada vez mais dependentes do mercado e da lógica de trabalho assalariado.

De um lado, as grandes corporações do agronegócio ganharam espaço expulsando os agricultores familiares. De outro, a burguesia industrial pôde pagar salários baixíssimos devido à imensa e crescente oferta de força de trabalho. Nossa civilização aprofundava-se rapidamente em um modelo com dois componentes interdependentes e igualmente insustentáveis: a urbanização caótica e a monocultura extensiva.

Na passagem da década de 1970 para a de 1980, esse projeto desenvolvimentista alinhado aos EUA perdeu sustentação. Passamos a crescer entre 2 e menos de 2% ao ano a partir de 1980. Em 5 anos a ditadura teve um fim e, desde então, todos os governos tiveram dificuldades para implantar projetos em prol do Brasil. A democracia era um sonho fértil de prosperidade e bem-estar que nunca foi entregue.

Em 50 anos, nossa população mais que dobrou. A demografia brasileira variou muito durante o século XX: em 1900, éramos 17 milhões, em 1960, nossas mulheres tinham em média seis filhos e, hoje, a média é de 1,60. Em cem anos multiplicamos por 12 nossa população.

Ao mesmo tempo que crescíamos em número, parte significativa da população brasileira se tornava menos miserável e cada vez mais apta a praticar um elevado e sofisticado padrão de consumo, este incentivado pela influência cultural estadunidense e europeia. Mas ao passo que tínhamos muitos filhos e queríamos coisas mais bonitas e mais modernas, nos desindustrializávamos (o que ajuda a explicar a desaceleração do crescimento).

Em 1980, por exemplo, o Brasil era mais próspero industrialmente do que a China, que hoje está a caminho de se tornar a maior economia do planeta. Nesse meio tempo, uma revolução tecnológica aconteceu e nos tornamos cada vez mais dependentes de uma série de equipamentos que o Brasil não produz.

A imaturidade tecnológica do Brasil, associada a sua desindustrialização constante, colocou nosso país em uma posição muito delicada do ponto de vista da divisão internacional do trabalho. Voltamos a ser, basicamente, uma fazenda. Uma nação agroexportadora altamente dependente da exportação de commodities – produtos pouco transformados extraídos da riqueza fácil da natureza, principalmente a soja, carne de boi e minério de ferro bruto.

Na prática, exportamos matéria-prima para importar tecnologia. Como uma das consequências, Rondônia, um dos estados recordistas em desmatamento, perdeu em floresta o equivalente à metade do território em 35 anos. O desmatamento fez a fortuna fácil de uma elite fundiária fraudulenta e improdutiva.

Não existe nenhum sinal de que nos próximos 40 anos nossa população nacional possa decrescer. Há sim sinal de que vamos desacelerar o crescimento populacional e econômico rapidamente, mas em termos populacionais ainda crescemos constantemente. Também não há nenhum sinal de que nos conformamos com um antigo padrão de vida. Na verdade, queremos elevá-lo, e merecemos elevá-lo, apesar da urgência em mudar radicalmente a qualidade nosso consumo material.

Se é assim, que alternativa temos? Para pensar sobre isso, creio que pelo menos quatro coisas devem estar claras para o ambientalismo crítico:

1- O Brasil precisa retomar um projeto desenvolvimentista que privilegie a indústria, de forma a depender menos do agronegócio e da importação de produtos de alto padrão tecnológico. Temos muitas pautas do século XIX para resolver, mas precisaremos dos recursos do século XXI para isso. Não existe perspectiva de mitigar o desmatamento, ou mesmo revertê-lo, sem pensar na industrialização do país que, é claro, envolve uma dose cavalar de rebeldia geopolítica.

2- A reforma agrária associada a uma reforma urbana poderia ser uma aliada muito poderosa na recuperação dos ecossistemas e, de quebra, produzir segurança alimentar via autonomia produtiva. Temos o conhecimento de sistemas agroflorestais sintrópicos altamente tecnológicos que podem se aplicar a 80% do território nacional.

3- Os países desenvolvidos têm que pagar pelo reflorestamento. A recuperação de florestas tropicais é a forma mais efetiva conhecida de capturar e aprisionar carbono atmosférico na forma de biomassa. O Brasil, mais do que nenhum outro país na Terra, pode fazer bom uso de políticas como a de crédito de carbono e afins, oferecendo serviços ecossistêmicos aos países que mais poluem, enquanto isso atender aos interesses nacionais, e com rígida governança. Nenhum outro lugar do mundo tem uma área tão imensa de ecossistemas tão ricos e produtivos, portanto, o Brasil é indispensável e estratégico na superação da crise climática que atravessamos

4- O Brasil precisa de um generoso programa de incentivo à sofisticação tecnológica que possibilite a transição para um padrão de consumo mais sustentável, implementado através de um novo marco regulatório dos materiais. Não é razoável imaginar que podemos melhorar nossas qualidades de vida sem deixar de operar de forma linear-cumulativa. Esse marco deveria incluir a restrição de plásticos de uso único, o incentivo a embalagens retornáveis e a coleta seletiva, uma ideia muito presente na chamada “economia circular”.

O que dá esperanças é saber que as condições tecnológicas para a superação desta tragédia estão disponíveis. Já as condições políticas, sempre podem ser construídas. O que precisa estar cada vez mais claro é a íntima e perturbadora relação entre o desmatamento e a desindustrialização.

Por: Abner Santos.
Formando em biologia na UFSCar, escritor independente e militante do Ecotrabalhismo SP
Twitter: @abe_terra / @ecotrabsp

 

Por Abner Santos - A degradação de todos os nossos biomas se tornou uma morbidade sempre presente nas notícias, mas da qual nos desconectamos, por não acreditarmos que seja possível pará-la, muito menos revertê-la. Talvez por isso não percebamos de imediato a conexão profunda que existe entre queimadas ou desmatamento e a saída de grandes montadoras, como a Ford, e o fechamento de outras milhares de fábricas no Brasil. Uma é consequência imediata da outra. E a luta contra o desmatamento passa, por incrível que pareça, pela reindustrialização do país.

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