ELIAS JABBOUR: Socialismo, China e novas formas de sociabilidade

Para quem, uns de forma honesta – outros de forma irônica, reclamam de a China não ser socialista por milhões de razões, entre elas a da incapacidade daquele “socialismo” em gerar novas formas de sociabilidade, sugiro a leitura do artigo de Tatiana Prazeres na Folha de São Paulo hoje (“Como é que os chineses aguentaram?”). Leitura interessante, e recomendada pelo mestre Domingos Leonelli, a meu ver coloca não um ponto final, mas um ponto zero no que seriam – de fato – as novas sociabilidades a serem gestadas por uma formação econômico social superior a capitalista.

Afora o texto, minhas impressões ainda são superficiais à respeito. Me arriscarei a expor algumas opiniões à respeito. Lado a lado na China, da mesma forma que os distintos modos de produção internos àquela formação econômico-social, diversas sociabilidades convivem e se movimentam em “unidade de contrários”. A China está disposta em um mundo onde a prevalência de valores liberais é uma regra – isso não é um fato fortuito. Mas, ao contrário de outras formações sociais onde a pandemia mostrou o pior lado de seus Estados, governos e habitantes, na China essa pandemia colocou na ordem do dia a solidariedade humana (herança das sociabilidades camponesas e do antigo “modo de produção asiático”), a lealdade ao país e ao Partido Comunista e – principalmente – uma conscientização do papel da China na construção de uma nova sociabilidade em nível mundial.

A China está ajudando mais de 90 países em uma ação coordenada com Cuba e Rússia enquanto os EUA confiscam cargas de equipamentos que iriam para países da América Latina (inclusive Brasil), amplia o esmagamento financeiro à Venezuela e tenta comprar exclusividade de uma fábrica de medicamentos alemã. Não existe mais nenhuma diferença de atitude entre a Alemanha nazista e os EUA. Criador e criatura conforme as opiniões do ideólogo nazista Alfred Rosemberg, para quem os EUA são “o maravilhoso país do futuro”.

O pós pandemia lança desafios à China, evidente. Suas contradições internas são de grande monta. Mas este evento pode mostrar ao mundo uma face subjetiva da construção de seu socialismo, sob a forma de uma subjetividade patriótica e internacionalista impensável para acadêmicos e “especialistas” em China acostumados com as rodas de vinho e cerveja no bairro de Sanlitun (Pequim) conversando com “intelectuais críticos” a reclamarem dos abusos de Xi Jinping contra as liberdades individuais e a transformação do país em um Big Brother. Na verdade, e no fundo, eles admitem que a China tenha um destino semelhante ao da Líbia, sem dúvidas. Desde que suas liberdades individuais sejam respeitadas.

O patriotismo e o internacionalismo é o que liga o que há de comum na sociabilidade de dois países socialistas, China e Cuba (e também o Vietnã e a Coreia Popular). Contradições e problemas sérios existem aos montes. Não são poucos. Porém a China que se mostra ao mundo diante da pandemia não cabe nas caixinhas atlantistas de 90% dos marxistas ocidentais ou “intelecuais críticos”, representantes da pequena-burguesia radicalizada, instrumentos ingênuos do imperialismo que tentam incutir na China as suas próprias particularidades negativas. Não tem gente de esquerda defendendo que a China é imperialista?

Por Elias Jabbour

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