GUSTAVO CASTAÑON: Stephen Kanitz e a fábrica de infelicidade

Ontem li um texto de um polemista de direita chamado Stephen Kanitz. Ele está aí desde os anos noventa. Não é dos piores, ainda acredita até que capitalismo não é ciranda financeira, mas uma forma de organizar a produção.

Fiquei chocado ao ver que ele também foi contaminado pelo olavismo, fala sobre 100 milhões de pessoas assassinadas pela “esquerda”, urnas fraudadas pela esquerda (americanas, da Diebold!) e coisas do gênero.

No textículo, ele afirma que se a esquerda fosse boa mesmo, ela abria empresas e ia competir com os capitalistas malvadões. Já que não se apropriaria dos lucros e poderia oferecer produtos melhores e a menor preço, tiraria todas as empresas malvadas do mercado.

Daria até para sentir pena da prisão mental do sujeito se ela não fosse uma expressão tão crua da maldade contemporânea.

Ele diz, “se a esquerda fosse boa, seriam capitalistas melhores”!

Ora Kanitz, o que a esquerda quer é acabar com o capitalismo, o que a centro-esquerda quer é regulá-lo.

Não queremos perder nossa existência na Terra competindo como animais, queremos uma sociedade cooperativa, que não reproduza a selva e não crie um exército industrial de reserva de miseráveis para vocês poderem escravizar trabalhadores em pleno século XXI.

Não queremos competir, Kanitz, a competição é o problema.

Ela é a melhor forma de produzir mais bens que a humanidade até agora encontrou, mas ela ao invés de produzir tempo livre com o aumento de produtividade, produz desempregados, ao invés de produzir felicidade produz stress, ao invés de nos dar mais tempo de vida nos tira.

E o objetivo da sociedade não deveria ser produzir mais bens materiais, Kanitz, mas sim mais gente e mais gente feliz.

Mas ela produz esse lixo de sociedade.

Esse lixo que está aí, essa máquina de infelicidade.

E isso qualquer criança pode ver. A maioria esmagadora das crianças ao despertar da proteção e do amor do lar de infância e olhar para esse mundo que vocês criaram o vêem feio, injusto e nojento.

É por isso que tantos querem ser funcionários públicos no Brasil e tão poucos querem ser “empreendedores”.

Porque a maioria não sonha em ser rico para resolver seu complexo de inferioridade, não quer viver como um animal competindo a vida toda nem inseguro com o dia de amanhã, e principalmente, quer ganhar a vida fazendo algo bom para a coletividade, o professor ensinando, o médico curando, o policial protegendo, o advogado fazendo justiça. E você faz isso no Estado, na iniciativa privada, o objetivo primário é o lucro de alguém.

E antes que vocês digam que nos sustentam, é o contrário. É que o Estado não cobra pela riqueza que gera, ele a distribui livremente.
E o serviço pode ser ruim, mas é incrívelmente barato. Oferecemos um serviço de saúde pública universal no Brasil com um quarto do recurso per capita que se aplica na Inglaterra. Uma universidade pública e gratuita que não existe sequer nos EUA.

Nós sustentamos vocês educando a mão de obra que vocês usam, curando os trabalhadores que vocês adoecem e protegendo o patrimônio que vocês espoliaram com muito pouco em troca.

Não é por sermos “vagabundos” que vocês nos odeiam.

Vocês sabem que não somos.

É por não sermos gananciosos.

É por termos o mínimo de senso público.

É porque nossa incômoda presença ainda lembra que um outro mundo era possível, e o que é pior para pessoas como vocês: lembra que vocês poderiam ter escolhido uma outra vida, e agora, ela não é mais possível.

E então vocês querem vingança.

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