JONES MANOEL: Sobre ciência, tecnologia e soberania nacional

Entre 1929 e 1955, nenhum país no mundo desenvolveu de forma tão rápida e espetacular seu aparelho produtivo e a capacidade nacional de inovação a partir do complexo de ciência e tecnologia como a União Soviética. Para se ter uma ideia desse feito, segundo dados apresentados pela professora Lenina Pomeranz, em 1940 apenas 40% dos modelos de indústrias de máquinas eram baseados em modelos estrangeiros, quando esse número era de 95% entre 1928-1932.

Em 1965, porém, acontece uma virada na política científica – e em última instância de desenvolvimento econômico – da União Soviética que pode ser descrita como uma das decisões mais imbecis de todos os tempos: o governo soviético passou a adotar o modelo IBM 360, buscando copiar o modelo tecnológico ocidental, e abrindo mão da autossuficiência tecnológica, base nacional de P&D, como o centro de sua política de inovação. Segundo a professora Lenina, isso aconteceu devido a “pressão dos militares” – explicação, é claro, insuficiente.

O certo é o seguinte: a URSS, de maior potência inovadora por mais de 30 anos, se torna um país defasado na 3° Revolução Industrial (ainda que o atraso relativo frente aos EUA seja menor do que normalmente se retrata).

Os EUA nunca abriram mão de uma política nacional de P&D. A China, hoje, tem o complexo de P&D que mais cresce no mundo e ameaça, em uma década ou duas, passar os EUA. A URSS virou ex e não existe mais.

E o Brasil? Bem, o Brasil, país que nunca teve uma política nacional, integrada, soberana e anti-imperialista de ciência, tecnologia e educação, vê o pouco que existe sendo destruído em ritmo acelerado. Ilhas de excelência, como o ITA, estão mais que ameaçadas com a política entreguista, como a entrega da Embraer para os EUA.

Nós, diferente da URSS, não podemos virar um ex-país. Mas claro: podemos viver numa merda cada vez maior.

Ps: Até onde me consta, dentro do PCUS pós XXII Congresso, qualquer defesa da política de autossuficiência tecnológica e produtiva era rechaçada como “stalinismo”.

Ps¹: o artigo citado da professora Lenina Pomeranz é “O objetivo da modernização econômica e a capacidade de inovação russa”.

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