100 anos de Celso Furtado – Alexandre de Freitas Barbosa

Neste mês de julho de 2020, Celso Furtado (1920-2004) completaria 100 anos. É com muita alegria que o Portal Disparada recebe, no dia 14/07 (terça-feira), às 11h, o professor Alexandre de Freitas Barbosa (IEB-USP) para revisitar a importância desse brasileiro que, mais do que um dos maiores economistas, foi também um dos maiores intérpretes do país.

Celso Furtado

Celso Furtado nasceu em 1920 na Paraíba. Formado em Direito no Rio de Janeiro, serviu na Força Expedicionária Brasileira (FEB) durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Doutorou-se em Economia na França no pós-guerra, onde tomou contato com as experiências de reconstrução e planejamento econômico que marcaram a economia internacional naquele período.

Em 1949, Furtado mudou-se para Santiago, no Chile, para integrar os quadros da recém-criada Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL), órgão da ONU voltado para o desenvolvimento regional. Lá, conheceu o já renomado economista argentino Raúl Prebisch, de quem herdaria um conjunto de ideias a respeito da divisão do capitalismo internacional entre países centrais e periféricos.

A partir daí, Furtado seguiu uma trajetória de crescente relevância no Brasil e no exterior. Sua interpretação em Formação Econômica do Brasil, obra escrita durante sua estadia na Inglaterra (1959), é hoje a mais clássica leitura sobre o (sub) desenvolvimento brasileiro. Um mergulho na história da economia brasileira desde a colonização até o pós-crise de 1929, apontando para o que seria a marca do pensador: jamais pensar o subdesenvolvimento fora da história.

A grande revolução no pensamento econômico trazido por Celso Furtado é, possivelmente, a ideia de que o subdesenvolvimento não é uma etapa pela qual os países desenvolvidos, algum dia, já passaram. Trata-se de uma conformação estrutural, de caráter histórico, que revela a consolidação de um país na posição periférica de consumidor das tecnologias produzidas pelos países centrais.

Assim como Prebisch, Furtado veria o capitalismo global como um processo de difusão irregular da tecnologia. Alguns países absorvem o progresso técnico em seus estilos de vida, através do consumo, paralelamente à sua implementação em seus sistemas produtivos. Outros, ao contrário, nunca absorvem o progresso técnico em seus sistemas produtivos, mantendo o acesso a ele restrito ao consumo.

A isso ele chamou de “modernização”. Países atrasados podem se modernizar enquanto reproduzem o subdesenvolvimento por meio da alienação de seus sistemas internos de decisão à agentes externos (países estrangeiros, empresas transnacionais etc.) e da preservação da desigualdade social.

A desigualdade social, aliás, é pressuposto para a modernização. Para terem acesso aos bens de consumo mais modernos dos países centrais, as classes abastadas demandam níveis de acumulação incompatíveis com as estruturas produtivas locais. A concentração de renda, portanto, é peça-chave do subdesenvolvimento.

Não à toa disse Furtado, ao tratar das desigualdades regionais do Brasil, que a desigualdade, quando atinge determinados níveis, se institucionaliza. Aí o problema central dos economistas convencionais: não perceber que o subdesenvolvimento, muito além de uma questão econômica, é um problema político.

Coube a Celso Furtado desvendar a faceta cultural do subdesenvolvimento, típico de países em que as classes dirigentes são elites aculturadas. Aculturam-se pois possuem como objetivo reproduzir o padrão de consumo dos países desenvolvidos e nisso encontram a sua identidade, apartando-se das questões nacionais substantivas.

Furtado interpretou o Brasil e agiu sobre o Brasil. Criou a Sudene, durante o governo JK, para atacar as mazelas que impediam o desenvolvimento do nordeste. Foi Ministro Extraordinário do Planejamento durante o governo João Goulart, cargo criado para ele para que ajudasse a solucionar os desequilíbrios que contextualizaram a crise pré-golpe militar de 1964. Foi exilado durante a ditadura.

Apesar de suas contribuições, o país nunca lhe retribuiu da forma apropriada. Lecionou em diversas universidades de prestígio, como Cambridge, Yale e Sorbonne, mas jamais foi professor no Brasil, com a exceção de um breve curso dado na PUC-SP na década de 1970.

Durante o governo Sarney, Furtado recebeu a missão de criar o Ministério da Cultura, posto que ocupou no período de redemocratização. Como se lê em seus Diários Intermitentes, livro recém-publicado sob a organização de Rosa Freire D’Aguiar, mesmo discordando da política econômica do governo, Furtado colocou seu compromisso com a redemocratização acima de todas as divergências: fincou em Brasília as estruturas do Ministério e condicionou sua saída do governo ao sucesso da Assembleia Constituinte, sob liderança do “dr. Ulisses”, na saga de aprovação da Constituição de 1988. Depositou suas forças para que o país não regressasse ao autoritarismo.

Ler Celso Furtado às vésperas do seu aniversário de 100 anos é respirar esperança para o país. Precisamos dele para pensar o Brasil.

Nas anotações de seu diário de 11 de novembro de 1975, ele escreveu: “O impossível são fragmentos da substância do futuro que alguns intuem no presente“. Não temos dúvida que o grande legado de Celso Furtado foi intuir, ao longo de sua vida, os fragmentos deste futuro que está ao alcance do povo brasileiro: superar o subdesenvolvimento.

O evento será ao vivo, no canal de YouTube do Portal Disparada.

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