100 mil mortos pelo colonialismo

Por Arthur Silva – A pandemia tem um elemento central biológico, uma dessas tragédias do acaso que marcam para sempre a história. Mas esse fator por si só não explica o rastro de destruição de vidas que o vírus está deixando no Brasil. É a submissão colonial e seus efeitos que fazem nosso país figurar nas primeiras colocações do triste ranking de mortes pelo COVID-19 em todo mundo.

O ser humano é um ser fundamentalmente social. Sobre sua base orgânica – nossos corpos – ergue-se uma estrutura social que nunca deixa completamente para trás o alicerce biológico. Precisamos nos alimentar, mas essa necessidade é atendida socialmente, pela produção e distribuição de comida em todo globo terrestre. A alimentação é marcada por variantes culturais, geográficas e etc.

O mesmo se aplica para a pandemia. Não somos um rebanho de animais que inconscientemente atravessa o período em que um novo vírus é introduzido em sua população sem saber quando o volume de imunizados naturalmente atingirá o nível crítico necessário para que a epidemia desapareça espontaneamente. Em tese – e como diz o ditado, “na prática, a teoria é outra” – temos os meios para responder ativamente a esse período.

Se olharmos para os países centrais que tiveram uma resposta minimamente racional para a pandemia, a comparação com o Brasil é impressionante. A Alemanha, com 80 milhões de habitantes, tem pouco menos de 10.000 mortes. Japão com um população de mais de 120 milhões tem pouco mais de 1.000 óbitos confirmados. No terceiro mundo, há diversos exemplos de sucesso no combate à pandemia. Os casos mais notórios são a China, Vietnã e as duas Coreias que, embora estivessem no epicentro mundial do novo vírus, apresentaram quantidade de mortes relativamente pequena. Ao que tudo indica, não se pode atribuir essa baixa letalidade à subnotificação de casos, pois estes países estão entre os que mais testam para COVID-19 no mundo.

O que todos esses países têm em comum é que foram capazes de implementar políticas satisfatórias de isolamento social logo no início, medida que era consenso em todos os especialistas em epidemia. As nações centrais contam com os excedentes extraídos do terceiro mundo por meio das grandes finanças e das transnacionais que, quando racionalmente alocados, permitiram a manutenção da população em suas casas. A mesma Alemanha cuja taxa de letalidade é menor do que 25% da brasileira pode ser rápida e certeira em pacotes de ajuda para trabalhadores e empresas.

Contudo, países periféricos em luta por sua soberania econômica, com diferentes graus de planejamento econômico, também foram capazes de responder racionalmente à epidemia. O caso mais emblemático é da própria China, cuja rígida quarentena no epicentro da disseminação do novo vírus só foi possível graças ao nível de planejamento de sua economia, chegando ao ponto de distribuir alimentos diretamente na casa da população isolada e construir um hospital do zero em poucos dias. O Vietnã foi capaz de ter um dos menores índices de letalidade em todo mundo, superando as nações imperialistas, sendo elogiado até mesmo pelo FMI. O segredo da pequena nação asiática é a mesmo que permitiu aos vietnamitas derrotar militarmente o Japão, a França e os EUA: organização e comprometimento de toda população numa guerra popular comparada pelo primeiro-ministro a Ofensiva Tet.

O que assistimos no Brasil foi o oposto que nossos irmãos do terceiro mundo fizeram. Testemunhamos a implosão da autoridade central no país a partir da agressão imperialista dos Estados Unidos que instalou um assistente de palco de programa de humor de baixa qualidade no Palácio do Planalto. Preocupado com a própria sobrevivência política, da qual depende para se manter fora da cadeia, Bolsonaro a todo instante sabotou os esforços descoordenados dos prefeitos e governadores para implementar o isolamento social.

Ainda assim, a falta de planejamento e o caos organizativo não são os únicos responsáveis pelo desastroso desempenho do Brasil nessa verdadeira guerra da humanidade contra o novo vírus. O sistema de saúde brasileiro foi assolado pela falta de insumos básicos e de respiradores mecânicos causados pela agora quase completa desindustrialização do país. Essa carência de instrumentos fundamentais para a luta contra a pandemia foi agravada por uma série de humilhações imperialistas, como quando os EUA desviaram uma carga de respiradores para atender sua própria população.

Mas é a precariedade do mercado de trabalho brasileiro a maior assassina. Com mais de 40% da população economicamente ativa no setor informal, o Brasil não possui os instrumentos para manter sua população em isolamento social. Os dados sobre contaminação e mortes por coronavírus na cidade de São Paulo – epicentro da pandemia no país – são inequívocos: são os bairros periféricos os que apresentam os piores índices.

São trabalhadoras e trabalhadores que todos os dias têm de se espremer num transporte público de péssima qualidade, morando em casas com várias pessoas por cômodo e acesso insuficiente ao saneamento básico, agora em vias de ser privatizado. O ambiente perfeito para a disseminação da nova doença.

Os primeiros dados compilados pelo DIEESE apontam para uma clara piora da renda dos trabalhadores. Aproximadamente 36% dos trabalhadores ocupados tiveram alguma perda de renda, mas essa redução não foi distribuída igualmente em todo mercado de trabalho. Enquanto os trabalhadores formais perderam cerca de 12% de sua renda, a cifra para os informais é três vezes maior: 36% de queda na renda. O valor pífio dos R$ 600 – uma dura vitória conquistada contra o governo colonial que se apossou do Brasil, que originalmente queria distribuir somente um terço disso – cobriu a perda da renda de 76% desse setor do mercado informal. Para essas trabalhadoras e trabalhadores, não sobra alternativa a não ser arriscar sua vida e de suas famílias para conseguir seu sustento. Mas por que temos esse mercado informal tão exacerbado?

Ruy Mauro Marini explica esse fenômeno por meio do conceito de superexploração no Dialética da Dependência. Os países de terceiro mundo são esmagados sob o peso do monopólio tecnológico por parte dos países centrais, que podem utilizar esse monopólio para extrair valor de nossas nações por meio do comércio internacional e das finanças internacionais. Nos países centrais faz sentido economicamente aumentar da produtividade do trabalho por meio do avanço tecnológico para se manter competitivos, rebaixando o trabalho necessário para confeccionar as mercadorias.

Já no terceiro mundo, onde o valor da produção só se realiza por meio da exportação e, portanto, o consumo dos trabalhadores é marginal, é a exploração cada vez mais agressiva dos trabalhadores que permite a manutenção e a expansão dos lucros. Ruy Mauro Marini busca na obra marxiana o conceito de superexploração para descrever essa situação, quando os salários não são suficientes nem para repor a força de trabalho. Daí as cidades precárias, a mão-de-obra prematuramente desgastada, os acidentes de trabalho abundantes e o mercado informal desproporcional.
Durante os governos trabalhistas entre 1930 e 1964, essa dependência tecnológica foi mitigada pela industrialização baseada em planificação parcial do Brasil. A superexploração foi diminuída com a expansão dos direitos trabalhistas.

A partir do regime civil-militar, formou-se uma onda de desnacionalização da economia brasileira que culminou na abertura comercial indiscriminada em 1994. As privatizações acabaram com a capacidade do país de planejar a própria economia e o tripé macroeconômico do petucanismo aprofundou nossa desindustrialização, agravando nossa dependência tecnológica. É então que nosso país é assaltado pelo imperialismo estadunidense, que coloca um governo fantoche para acelerar a nossa colonização, sob o aguilhão da crise econômica mundial.

É nesse contexto que somos atingidos pelo acaso da pandemia, que exacerbou nossas deficiências estruturais. Qual a resposta do governo colonial? Garantir o Teto de Gastos, acentuar a desnacionalização da nossa economia com a aceleração das privatizações, realizadas em toque de caixa no meio da comoção nacional, destruir os últimos cacos do nosso direito trabalhista justamente para assegurar a superexploração, tão necessária para manter a rentabilidade dos fundos de investimento estrangeiros que afundam suas garras imperialistas sobre nosso tecido produtivo.

O sangue dos 100 mil brasileiros mortos está nas mãos dos agentes do colonialismo. Está nas mãos de Pedro Malan, de Armínio Fraga, de Palocci, de Henrique Meirelles, de Joaquim Levy e de todos os responsáveis por nossa situação de absoluta debilidade. Está nas mão das Organizações Globo, que não limpará seus pecados passados e presentes com um editorial hipócrita contra o governo colonial que ela ajudou a eleger – e cujas medidas econômicas apóia incondicionalmente. Mas o sangue dos 100 mil brasileiros está principalmente nas mãos de Paulo Guedes, Mansueto, Roberto Campos Neto, Roberto Castello Branco e todos os traidores do Brasil que se apossaram da Esplanada dos Ministérios e nesse exato instante conspiram contra a Pátria. E sobretudo pesa sobre Golbery do Couto e Silva e sua ideologia de submissão do Brasil ao imperialismo estadunidense, que até hoje nos amaldiçoa com o destino colonial.

Como colônia submissa, destituída de qualquer capacidade de agir coletivamente, pouco nos resta além de esperar algum maná dos céus (ou do estrangeiro) que venha nos salvar. A imagem da tal imunidade de rebanho é o Brasil, como um gado, na invernada de seus donos estrangeiros, aguardando a benesse de suas vacinas ou que a doença evolua naturalmente ao custo do sacrifício da vida de nossas irmãs e irmãos de carne morena. É o imperialismo que como nos tempos das caravelas e dos engenhos cobra seu tributo de sangue do Brasil.

Até quando vamos permitir?

O que assistimos no Brasil foi o oposto que nossos irmãos do terceiro mundo fizeram. Testemunhamos a implosão da autoridade central no país a partir da agressão imperialista dos Estados Unidos que instalou um assistente

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