O grande derrotado em 31 de março de 1964 foi o povo brasileiro

A encruzilhada em que o país se encontrava em 1964 colocava, de um lado, um tipo de industrialização e desenvolvimento que derrubasse a marteladas diversos elementos responsáveis pela reprodução da estrutura social iníqua e neo-escravista em que vivemos, e a construção de uma formação social e política com alto grau de autonomia em relação aos centros capitalistas internacionais.

O outro caminho levaria a um crescimento fundamentado em subordinação ao imperialismo e à hegemonia ianque, e a formação de um país de metrópoles partidas e de extrema exclusão social e política das massas.

A recusa de Jango em lutar fez com que a balança pendesse definitivamente para os golpistas liderados por Castelo Branco, que entregaram o país aos Estados Unidos e começaram sua obra de desmantelamento de boa parte do legado trabalhista.

O ”milagre econômico” tinha por pilares a subordinação a multinacionais, achatamento monumental dos salários e promoção da mais infame desigualdade social do planeta, e era impulsionado por poupança externa, cujas consequências explodiram na crise da dívida do início dos anos 1980.

Grande parte dos problemas que a Nova República enfrenta até hoje são heranças dos governos dos generais, incluindo aí a urbanização caótica, o ”enfavelamento”, a consolidação das máfias vinculadas a contrabando e tráfico na fronteira, o surgimento das organizações criminosas que controlavam presídios e bairros inteiros das grandes cidades, o modelo insustentável de financiamento do Estado, o colapso dos serviços públicos etc.

A grande questão em relação ao regime militar não é se ele deu continuidade à industrialização porque o país passava desde os anos 1930. E sim que tipo ou modelo de sociedade levantou a partir dessa industrialização. O Brasil que nasceu é aquele dos anos 1980 e 1990, que até hoje assombra a maior parte de nós.

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Eu não tenho ojeriza a um modelo ”ditatorial”, e não considero que este seja, em si mesmo, um defeito do regime civil-militar.

[Claro que considero desprezíveis figuras de torturadores de porão, e penso que um Ustra da vida é sub-humano.]

Muitos estão tão permeados pelo liberalismo que se tornaram incapazes de imaginar uma Constituição que não emule as instituições da ordem burguesa.

Considero Vargas o maior governante que o país já teve, e ele preferia governar por meios ditatoriais por não confiar naquilo que os liberais chamavam de ”democracia”. No entanto, a Era Vargas era, em essência, muito mais democrática do que a República ”Velha” que a Revolução de 1930 colocou abaixo.

Naquela República dominada por oligarquias também existia um congresso funcionando, eleições regulares, partidos políticos, grandes empresas de mídia, divisão de poderes etc. E o povo era deixado à parte de um modo ainda mais ferrenho do que nos período tardio do Império — em que pese a longevidade da escravidão.

Getúlio destruiu as instituições liberais mas aumentou como nunca a participação popular por meio de uma política de massas, do desenvolvimento industrial e da ampliação da cidadania através dos direitos sociais. Quando retornou ao poder nos anos 1950, deixou claro que a democracia que lhe interessava era a social, não a liberal.

É nesse ponto que o regime civil-militar se aparta completamente do povo. Não porque fechou o Congresso, e sim porque excluiu a população dos frutos da economia, da participação nas instâncias governamentais, da proteção social, e, exclusão de todas as exclusões, da experiência de uma real soberania.

Vargas foi um verdadeiro democrata, ainda que ditatorial para os olhares liberais. Já o regime militar, assim como a República Velha, foi anti-popular, com ou sem funcionamento das instituições liberais.

Por isso também, é besteira argumentar que os inimigos do regime militar não eram também democratas. Certamente não eram liberais, mas isso não quer dizer, necessariamente, que não estivessem ao lado da ampliação da participação do povo em todas as dimensões da vida social.

Liberalismo não é democracia. E a democracia burguesa não é a soberania popular. Exorcizem o liberalismo da cabeça de vocês.

Por André Luiz Dos Reis

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