35 anos sem Tancredo Neves

No dia 21 de abril de 1985 o Brasil perdia Tancredo Neves. Quis o destino que partisse no mesmo dia que Tiradentes, seu conterrâneo.

Tancredo foi o catalisador das aspirações democráticas de um país que não aguentava mais os 20 anos de ditadura militar que então vivia o Brasil.

Sua morte antes de assumir o governo fez a Nova República já iniciar capenga, órfã de seu grande líder.

Alguns setores da esquerda brasileira menosprezam sua atuação e, de forma oportunista e com análise meramente superficial, confundem sua capacidade de diálogo e poder de conciliação com falta de firmeza. Nada mais mentiroso.

Tancredo teve em Getúlio Vargas sua maior referência e inspiração política e sempre defendeu o interesse nacional.

Conheceu Getúlio Vargas em 1945, já na fase de formação dos partidos que viriam a dominar a política brasileira até 1964, o PSD, a UDN e o PTB.

Foi levado por seu cunhado, o então major Mozart Dornelles, integrante do Gabinete Militar de Getúlio.

O PTB acabara de ser fundado, mas Getúlio o orientou a ingressar no PSD, onde teria mais espaço que no PTB, então quase exclusivamente um partido de líderes sindicais.

Foi eleito deputado estadual em 1947 e deputado federal em 1950, na mesma eleição que fez Juscelino governador de Minas Gerais e Getúlio novamente Presidente da República.

Ministro da Justiça no final do governo Vargas defendia um enfrentamento mais duro aos que queriam depor o presidente.

35 anos sem Tancredo Neves Getúlio
O presidente Getúlio Vargas e seu ministro da Justiça, Tancredo Neves.

Sobre a escalada golpista contra Vargas, Tancredo deu o seguinte depoimento ao CPDOC da FGV: “Getúlio não enfrentou em nenhum momento uma oposição democrática. Getúlio enfrentou desde o primeiro momento uma oposição subversiva. Os homens da UDN, sobretudo a UDN militar, nunca se confirmaram com a derrota que lhes foi infligida”.

Em 1961, após assumir como primeiro-ministro no período parlamentarista do Governo Jango, Tancredo foi procurado pelo embaixador americano, Lincoln Gordon, propondo que o Brasil prorrogasse um acordo em vigor desde 1957 que permitia que os EUA operassem uma base em Fernando de Noronha. Não aceitou e a base foi devolvida ao Brasil em janeiro de 1962.

Antes disso, em novembro de 1961, o Brasil reatou relações diplomáticas com a União Soviética, rompidas por Dutra em 1947.

O mundo vivia então o auge da Guerra Fria.

Na famigerada sessão do Congresso Nacional, em 2 de abril de 1964, onde o senador Moura Andrade declara “vaga” a Presidência da República, dando formalidade política ao golpe militar, Almino Affonso relata que Tancredo, ao ouvir tal declaração, “levantou-se e avançou para a mesa da presidência, gritando: Canalha! Canalha!”

Durante a ditadura teve a coragem e a dignidade de ser o único político com mandato e de expressão nacional a comparecer ao sepultamento do ex-presidente João Goulart.

35 anos sem Tancredo Neves Jango
João Goulart e Tancredo Neves.

Por sua capacidade de articulação política, credibilidade e habilidade em construir consensos foi o nome natural da oposição para disputar a eleição no colégio eleitoral que iria eleger o Presidente da República, após a derrota da Emenda Dante de Oliveira no Congresso, que tentava restabelecer o voto direto popular para escolha do sucessor do Presidente Figueiredo.

Renunciou ao governo de Minas em agosto de 1984, quando foi escolhido candidato a Presidência da República pelo PMDB.

Poucos dias depois, na manhã do dia 24 de agosto, uma sexta-feira, Tancredo saiu cedo de Brasília rumo ao Rio de Janeiro.

Era sua primeira viagem como candidato. Uma viagem de cunho pessoal, praticamente à margem do PMDB e da Frente Liberal.

No Rio, o governador Leonel Brizola embarca no jatinho, que ruma para Porto Alegre, onde sobe a bordo o senador Pedro Simon.

De lá voam para São Borja, para homenagear Getúlio Vargas nos 30 anos de sua morte.

Diante do túmulo de Getúlio, Tancredo diz:
“Somos um povo que tem tudo para se realizar na face da Terra como uma grande potência. Getúlio é realmente aquele divisor de águas, diante de cujas cordilheiras havemos de escrever a história de nossa pátria antes e depois dele.”

35 anos sem Tancredo Neves Brizola Pedro Simon
Tancredo Neves, Leonel Brizola e Pedro Simon em visita ao túmulo de Getúlio Vargas em São Borja.

Nada poderia ser mais simbólico.

Em 15 de janeiro de 1985 foi eleito Presidente da República pelo colégio eleitoral.

O resultado foi acachapante. Recebeu 480 votos, contra 180 de Paulo Maluf e 17 abstenções.

Teve apoio do PMDB, PDT, PTB e rachou o PDS, partido governista, cujos dissidentes formaram a Frente Liberal.

Só o PT ficou contra, para marcar posição, e expulsou os 3 deputados que votaram em Tancredo: Bete Mendes, Airton Soares e José Eudes.

“Esta foi a última eleição indireta no país!”

Esse trecho do seu discurso de vitória marcou o fim das eleições indiretas no Brasil.

Tancredo Neves teve uma trajetória política intensa, com vitórias e derrotas, que forjou um estadista, que fazia política com P maiúsculo, como o Brasil precisa tanto restabelecer.

Dentre muitas declarações relevantes após sua eleição uma, dita numa audiência com o Papa João Paulo II, se destaca.

Perguntado pelo Pontífice sobre a situação das dívidas externas dos países em desenvolvimento (o Brasil era, então, o país com a maior divida externa do mundo) Tancredo foi taxativo: “não se paga dívida externa com a fome dos povos!”

Foi uma fala tão marcante que o próprio Papa a utilizou em seu discurso no Congresso Eucarístico Internacional, ocorrido em Quito, no dia seguinte a audiência que concedeu a Tancredo.

Deixe uma resposta