A derrota de Márcio França

Passada a ressaca das urnas, é momento de juntar os retalhos de cetim e pensar no próximo carnaval.

Márcio França ficou longe de ir ao segundo turno. Apontei, meses atrás, a fragilidade de sua campanha. As peças publicitárias eram arcaicas, retratando um homem excessivamente cordial e de pouco embate. Numa megalópole em pleno auge da polarização mundial, é difícil de imaginar que um discurso tão pasteurizado seja capaz de emocionar alguém. E não emocionou.

A falta de articulação local foi um problema a ser considerado. França, exímio articulador, não conseguiu montar uma coligação corpulenta. A fragilidade de corpo e base numa eleição do tamanho da paulistana é decisiva. As máquinas eleitorais de vereança e as lideranças locais são essenciais para atingir o eleitorado periférico.

A comunicação foi desastrada. França parecia inexoravelmente em cima do muro, sob qualquer ótica. Não tinha discurso firme, não tinha bandeira – o tal plano Márcio é um desastre – e soou excessivamente liso. Até Covas pareceu mais robusto nas críticas ao bolsonarismo. A linha entre a moderação e a pasteurização é muito tênue.

Ao imaginar que poderia conseguir o voto bolsonarista, França se estirpou. Pela segunda vez. Tal voto é de Bolsonaro e não está em disputa.

O tal “centro democrático” optou por Covas, um filho que lhe parece muito mais legítimo. E era claro que optaria. Além dos signos sensíveis ao povo menos politizado – doença quase terminal, luta contra a morte – Covas de fato representa o muro que o paulistano é habituado a votar. Um muro uspiano, pouco praiano, travestido com ternos bem cortados e voz suave. Todos os signos fazem diferença. Eleições são detalhes.

Os 13% refletem quase a mesma votação de Ciro Gomes na capital. Talvez lhe faltasse, em alguma medida, nacionalizar minimamente a disputa. Disputar concretamente a região da esquerda menos radical. Ser refém da disputa ao centro o coloca num ringue com oponentes muito mais experientes e máquinas eleitorais mais estruturadas.

Em marketing político, o desafio de tornar-se atrativo passa por 3 etapas, em absoluto: chamar a atenção, vencer rejeições e mostrar-se capaz de aglutinar. França fez as duas últimas, faltou a primeira. Sua campanha não chamou a atenção do eleitor médio. Nas rodas do mundo real – longe da internet onde a “turma boa” x PSOL polarizaram uma disputa sangrenta – as pessoas pouco conhecem de Márcio França. Faltou chamar a atenção.

Por fim, cabe analisar a linguagem de França. Falta-lhe verve. Seja a retidão quase cínica de Covas ou o enfrentamento polido de Boulos, em ambos os casos nota-se uma linguagem clara, que tergiversa muito pouco. Márcio era quase sonolento e pouco convicto. A repetição de bordões altamente ineficientes como “fui eleito em São Vicente com 90% dos votos” (há mais de 20 anos) ou ainda o beabá de “venci o Doria na capital”, não deve ter-lhe arranjado UM mísero voto. Quem imagina que a repetição incessante destes signos é capaz de mover montanhas, acaba engolido por elas.

As montanhas das campanhas de Doria e Boulos soterraram a candidato pessebista. Boulos foi inovador, pensou peças e montou diálogos concretos e límpidos. Covas soube defender-se de forma convincente e parecia, de longe, o único que realmente conhecia as dificuldades operacionais da política paulistana. Ambos passaram verdade. Márcio França não passou nada. Sua campanha não será lembrada e o legado desta peleja é quase nulo. Fica o aprendizado.

Quem quiser disputar São Paulo precisa de muito mais que os 90% em São Vicente.

Segue o samba.

Por: Renato Zaccaro.

As montanhas das campanhas de Doria e Boulos soterraram a candidato pessebista. Boulos foi inovador, pensou peças e montou diálogos concretos e límpidos. Covas soube defender-se de forma convincente e parecia, de longe, o único que realmente conhecia as dificuldades operacionais da política paulistana. Ambos passaram verdade. Márcio França não passou nada. Sua campanha não será lembrada e o legado desta peleja é quase nulo. Fica o aprendizado.

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