A imensa força dos evangélicos: um potencial incompreendido

Evangélicos” é o nome latu sensu de um conjunto complexo e heterogêneo de cristãos irmanados basicamente por apenas dois componentes: primeiro, a origem comum, que remonta à Reforma Protestante realizada por Martinho Lutero na Europa do século XVI, e segundo, pela crença na Bíblia Sagrada como suprema norma de fé e prática.

Esse conjunto de cristãos se reúnem numa infinidade de denominações distintas, por vezes, completamente opostas entre si. As diversas denominações em sua imensa maioria se originaram de rupturas no interior de denominações mais antigas como uma imensa árvore com milhares de ramos . Os teólogos e historiadores situam essa infinidade de igrejas em cinco grandes grupos classificatórios:

  • No primeiro grupo, as Igrejas Históricas, oriundas diretas da Reforma Protestante e de seus desdobramentos, remontando aos séculos XVI a XVIII (nesse grupo situam-se denominações como a Igreja Batista, Igreja Presbiteriana, Igreja Luterana, Igreja Metodista, Igreja Anglicana e Igreja Adventista do Sétimo Dia, por exemplo). O principal foco desse grupo é o ensino. Seus cultos geralmente são litúrgicos, cerimoniais, com bastante ênfase na pregação. Esse grupo chegou ao Brasil há muito tempo através das missões estrangeiras. Geralmente estão envolvidos com grandes instituições de ensino e obras sociais de impacto.
  • no segundo grupo entram as chamadas Igrejas Pentecostais  ou Igrejas da “Primeira Onda” (o maior grupo em número) ligadas ao movimento de reavivamento espiritual que eclodiu na Rua Azusa em Los Angeles (EUA) por volta de 1906, bem como aos seus desdobramentos. Nesse segundo grupo estão inclusas denominações como as Assembleias de Deus (a maior igreja do Brasil), a Congregação Cristã no Brasil, Igreja Pentecostal, Igreja de Deus, Adventista da Promessa dentre outras. A principal crença dos pentecostais é nas manifestações sobrenaturais do Espírito Santo, como o “falar em línguas estranhas”, curar os enfermos e expulsar os demônios. Os cultos geralmente são “avivados”, ou seja, bem animados e espontâneos. Esse grupo tem imensa capilaridade e se desdobrou no terceiro, quarto e no quinto grupos que descreveremos a seguir:
  • O terceiro grupo é chamado de Igrejas Renovadas ou Carismáticas, ou ainda Igrejas da “Segunda Onda” – são as igrejas históricas que aderiram à teologia e às práticas pentecostais, acrescentando as manifestações sobrenaturais e a espontaneidade em seus cultos surgindo geralmente entre as décadas de 1950 e 1970. Esse grupo influenciou inclusive o catolicismo romano que iniciou a chamada “Renovação Católica Carismática” (RCC) em 1967. Nesse grupo encontram-se a Igreja Batista Renovada, Igreja do Evangelho Quadrangular,  Igreja Presbiteriana Renovada, Igreja O Brasil para Cristo, Igreja Metodista Wesleyana, Catedral da Benção, Igreja Unida, Igreja Deus é Amor, dentre outras.
  • O quarto grupo é conhecido como Igrejas Neopentecostais, ou Igrejas da “Terceira onda”. Esse é o grupo mais polêmico e o que atualmente cresce vertiginosamente no país. Esse grupo de igrejas reúne as chamadas igrejas dissidentes do movimento pentecostal, que influenciadas pelas igrejas norte-americanas acreditam na expansão rápida do Evangelho utilizando-se para isso de todos os meios de comunicação em massa. Esse grupo causou uma verdadeira revolução no mundo cristão e influenciou todos os demais, apregoando o uso de técnicas empresariais na condução de igrejas além do avanço para a política e a pregação focada no crescimento socioeconômico. A ênfase é a pregação da chamada “Teologia da Prosperidade”. Nesse grupo encontram-se as igrejas midiáticas que arrastam multidões, dentre elas: a Igreja Universal do Reino de Deus, a Igreja Mundial do Poder de Deus, a Igreja Internacional da Graça, Igreja Renascer em Cristo, Igreja Sara Nossa Terra, Igreja Paz e Vida e Igreja Plenitude do Trono de Deus.
  • O quinto e último grupo é  chamado de Igrejas Pós-Denominacionais ou Igrejas Apostólicas, que surgem no país com força a partir da década de 1990. Simpósios teológicos foram realizados nos Estados Unidos em 1996 e chegaram ao Brasil por volta dos anos 2000. Há uma crescente expansão desse grupo, influenciando todos os demais. As chamadas igrejas pós-denominacionais dão ênfase ao que chamam de “Batalha Espiritual”, reconhecem o ofício de “Apóstolos”, além de se esforçarem pela unidade evangélica. O grupo adere a vários pontos defendidos pelos demais, inclusive cultos avivados acompanhados de manifestações sobrenaturais como o “cair no Espírito” ou “cair pelo poder de Deus”, além claro, da ênfase no ensino e na influência por meio das mídias e redes sociais. Com posições mais moderadas em relação à teologia da prosperidade, o grupo ainda sim mantém a crença num crescimento explosivo, no uso das novas tecnologias e no crescimento socioeconômico, mas o foco geralmente encontra-se nas estratégias criativas chamadas de “visão”.

É desse grupo talvez a maior revolução cristã contemporânea que está em marcha e é conhecida como  “Visão Celular”.

A Visão Celular é um método de organização das igrejas, que  ramifica a comunidade nas residências em reuniões simultâneas semanais com pequenos grupos geralmente compostos de 6 a 15 pessoas chamados de “células”. Descontraídos e informais, esses grupos se espalham numa velocidade incrível, multiplicando-se e criando redes de cooperação setorial, ou seja, as redes de jovens, mulheres, crianças, homens, empresários, etc. cuja reunião geral e principal ocorre sempre aos domingos no templo.

Nos arredores de Seul (Coréia do Sul), por exemplo, fica localizada a maior igreja “em células” do mundo: a Yoido Full Gospel Church, pastoreada pelo Dr. David Yonggi Cho com mais de 1 milhão de pessoas. Não muito diferente disso, em Bogotá, Colômbia está localizada a Misión Carismatica Internacional, pastoreada por César Castellanos com mais de 200 mil pessoas.

No Brasil, desde a década de 90 existem várias “visões” (estratégias) com nomes diferentes como “G12”, “M12”, “DNA”, “Igreja com Propósitos” e “MDA”. Nesse grupo situam-se diversas igrejas em sua maioria com nomes que começam com o termo “Comunidade”, “Ministério” ou “Missão” e estão muito ligadas à cidade, ao território em que estão estabelecidas. Dentre os principais situam-se: a Igreja Bola de Neve, o Ministério Internacional da Restauração, a Igreja Nacional do Nosso Senhor Jesus Cristo, Comunidade da Graça, Igreja da Paz, Igreja da Cidade, Igreja Celular Internacional, Ministério Videira, Ministério Luz para os Povos, além de várias denominações históricas e pentecostais que estão aderindo a essa cosmovisão, como a conhecida Igreja Batista da Lagoinha, uma das maiores igrejas do Brasil, inicialmente uma igreja renovada, mas que agora apresenta características muito mais próximas às igrejas pós-denominacionais.

(da esquerda para a direita, de cima para baixo) Ministério Internacional da Restauração em Manaus; Assembleia de Deus Vitória em Cristo no Rio de Janeiro, Igreja Batista da Lagoinha em Belo Horizonte e Bola de Neve Church em São Paulo, capital.

A questão fundamental é que o crescimento evangélico no Brasil é simplesmente o maior fenômeno sociológico da história do país, e por sua complexidade tem sido muito difícil compreendê-lo. Os números são simplesmente assustadores: a estimativa baseada nas PNADs e no Censo IBGE 2010 dão conta de que atualmente 29% da população brasileira declara-se “evangélica”, isto equivale a incríveis 60 milhões de pessoas!

O crescimento é espantoso, por exemplo, em 1970, portanto há apenas 48 anos, o número de cristãos que se declaravam evangélicos era de apenas 4,8 milhões de pessoas, ou cerca de 5,16% da população brasileira. Em 1980, esse número chegou a 7,8 milhões de pessoas, ou 6,62% da população. No início da década de 1990 havia 13,1 milhões de evangélicos, ou 8,9% da população, mas no Censo IBGE de 2000 esse número já chegava a 26,1 milhões de brasileiros  ou 15,4% da população, ou seja, o número praticamente dobrou em apenas uma década!

O avanço da população evangélica perpassa todas as camadas sociais, com ênfase nas periferias das grandes cidades e maior avanço entre jovens e mulheres. Entre 2000 e 2020 a tendência é que o número dobre novamente passando da marca dos 33% da população. Estimativas dão conta de que até 2040 os evangélicos se tornarão a maioria religiosa do Brasil desbancando a milenar Igreja Católica Romana1

Noticiado pela imprensa como “raro caso de revolução religiosa” esse crescimento explosivo vem acompanhado de uma profunda mudança cultural que mais cedo ou mais tarde vai se manifestar. Atualmente existem aproximadamente 200 mil igrejas espalhadas pelo país de vários tamanhos, comportando desde números pequenos de 20 a 30 fieis até megatemplos comportando mais de 60 mil pessoas. Em alguns casos igrejas locais já ultrapassam marcas impressionantes. É o caso, por exemplo, da Igreja Batista da Lagoinha em Belo Horizonte que já ultrapassa 80 mil membros e da Igreja da Paz em Santarém, no Pará que ultrapassou os 90 mil membros. A taxa de crescimento média anual dos evangélicos é de cerca de 7,43%2

Em dezembro de 2016 o Instituto Datafolha divulgou uma pesquisa3 afirmando que dos cerca de 29% de evangélicos, 22% se declaram “pentecostais”, incluindo em um mesmo grupo as “três ondas” (pentecostais, renovados e neopentecostais) e os pós-denominacionais.

Hoje, os evangélicos são capazes de realizar imensas demonstrações de força, como é o caso da chamada “Marcha para Jesus” que reúne diversas denominações diferentes sob a liderança da Igreja Renascer em Cristo. Em São Paulo essa marcha já registrou a inacreditável marca de 5 milhões de pessoas nas ruas da capital.

A ascensão dos evangélicos ocorre paralelamente à queda acentuada do número de católicos romanos, sendo inclusive uma de suas causas. Segundo o Datafolha, 44% do número total de evangélicos declara-se “ex-católico”4 o que aponta para uma forte mudança do pensamento religioso brasileiro. As projeções e estimativas ainda apontam um crescimento considerável dos que se consideram “sem religião” (para atuais 14% da população). Os católicos que no início da década de 80 eram cerca de 90% da população brasileira devem representar menos de 50% já em 2030. A média é de uma queda anual de cerca de – 1%.

Ainda segundo o Datafolha, os evangélicos possuem idade média de 37 anos, ante a média geral de 40 anos da população. 51% estudaram até o ensino médio, e 15% acessaram o ensino superior, diante da média geral de 20% da população. Metade dos evangélicos residem na região sudeste (49%). A maior parte, cerca de 53% possui renda média familiar de até 2 salários mínimos, e somente 9% uma renda superior a 5 salários mínimos.

Questionados pelo Datafolha sobre o que consideravam o melhor da religião, os evangélicos responderam em sua maioria que é a “fé” (18%) e outros 12% responderam “os ensinamentos da Bíblia”. Cerca de 45% dos evangélicos discordam da frase “todas as religiões tem o mesmo valor porque todas levam ao mesmo Deus”. Isso revela que de forma geral, os evangélicos possuem um grau menor de afinidade entre os valores de outras religiões e sua crença.

O que é interessante notar é que no mesmo levantamento, para 89% dos evangélicos “todo o sucesso financeiro da minha vida, eu devo em primeiro lugar a Deus”, e para 7% essa frase é “em parte verdadeira”. Para 28% dos evangélicos “as pessoas pobres em geral não tem fé em Deus, por isso não conseguem sair dessa situação”.

Mais interessante ainda é notar que a pesquisa identificou alguns pontos de discordância entre o povo evangélico e as opiniões da liderança evangélica expostas nas grandes mídias. Por exemplo, em que pese a forte oposição da bancada evangélica no Congresso Nacional e o discurso duro de alguns pastores midiáticos, mesmo assim 71% do povo evangélico respondeu que concorda com a criação de uma lei de combate à homofobia, capaz de punir quem intimidar, constranger ou agredir homossexuais.

Quando o assunto, porém, é a possibilidade de legalização da união entre pessoas do mesmo sexo, a opinião é majoritariamente contrária (68%). A adoção de crianças por casais homossexuais também é rejeitada (64%). Para ampla maioria o aborto deve ser considerado crime (64%) inclusive com pena de prisão. Para cerca de 85% dos evangélicos os vários segmentos escolares deveriam ensinar as crianças a orar e a acreditar em Deus.

Algumas coisas são interessantes ponderar para não cairmos no mero senso comum. Primeiro, nenhuma personalidade ou organização pode se arvorar representante dos evangélicos em geral. Isto porque como já dissemos as denominações possuem perspectivas completamente diferentes entre si e as vezes até mesmo opostas.

Nem mesmo os pastores midiáticos como Edir Macedo, Valdomiro Santiago, R.R. Soares, Agenor Duque, Estevam Hernandes e Silas Malafaia podem falar em nome dessa heterogênea coletividade. Por exemplo, a Congregação Cristã no Brasil que é uma grande denominação (principalmente no sul-sudeste) é  completamente diferente da Igreja Universal, em seus cultos, estilo, exigências e até valores morais. Essas diferenças não podem ser desconsideradas.

Outro ponto específico é que a chamada “Bancada Evangélica” ou “Bancada da Bíblia” que cresce a cada eleição nos diversos níveis do Legislativo, não representa a totalidade dos evangélicos. Mais uma vez como exemplo, cito a Congregação Cristã no Brasil que sequer aprova o envolvimento dos seus membros “com política”. Diferente da Igreja Mundial do Poder de Deus por exemplo, que já conta com parlamentares em várias cidades, ou mesmo da Igreja do Evangelho Quadrangular que conta com um mecanismo interno de escolha de seus próprios candidatos.

Se os pastores midiáticos não podem ser considerados representantes legítimos dessa parcela da população, também políticos como Marco Feliciano e Magno Malta não podem ser considerados porta-vozes legitimados dos evangélicos brasileiros. A própria história dos evangélicos desautoriza qualquer pessoa ou instituição que se autoproclame “papa” da igreja. Ao contrário da estrutura católica, a organização é extremamente descentralizada e capilarizada. A maior denominação do país, as Assembleias de Deus é simplesmente fracionada em milhares de “ministérios” diferentes totalmente autônomos entre si, o que não permite um controle unificado.

Os líderes que possuem acesso à grande mídia são uma minoria em relação à grande multidão de evangélicos espalhados pelo Brasil. As ideias que se tornaram públicas, assim, são ideias minoritárias e não representam a maioria da população evangélica. Outro ponto que precisa ser ponderado é que com o crescimento numérico, os evangélicos passaram a atingir a parcela mais rica da população, o que antes não ocorria. No contato com as classes mais favorecidas, o próprio pensamento evangélico é afetado5

Tudo isso ajuda a desmistificar essa potente força emergente.

John Wesley (1703-1791), o grande evangelista reformador inglês. O visionário Wesley foi precursor inclusive do método de organização das igrejas em “pequenos grupos”.

Definitivamente o Bispo Edir Macedo do conglomerado Universal-Rede Record não é a imagem perfeita dos evangélicos, é apenas uma fatia desse vasto universo, inclusive criticado pela maioria das outras denominações.

A questão fundamental, entretanto, é que atualmente não existe força política, econômica e social mais potente no Brasil.

Os evangélicos estão presentes nos lugares mais distantes e nas grandes periferias crescendo de forma exponencial. Isto significa que qualquer projeto de desenvolvimento a longo prazo necessariamente precisa considerar essa força ascendente.

O crescimento evangélico está entrelaçado com o surgimento da nova classe selvagem, ou seja, a classe batalhadora que busca seu lugar ao sol. Existe evidentemente um imenso desejo de ascensão econômica e social e essa classe que surge vem alterando todas as conexões históricas e as clivagens políticas, entre elas a conexão com o catolicismo que será cada vez mais desativada com a ascensão das novas igrejas e formas de espiritualidade.

Embora mantenha uma agenda nitidamente conservadora no que toca ao aspecto moral da vida nacional, os evangélicos, porém, apostam cada vez mais numa agenda progressiva no campo econômico e social. E é essa mistura que os torna potencialmente transformadores da realidade socioeconômica. O pobre da favela com celular na mão, acesso à internet, beneficiado pelos programas sociais do PT é também evangélico, moralmente conservador, mas economicamente progressista, votando no Lula mas também em qualquer outro candidato/ partido que conjunturalmente apresente-se como solução interessante para manter/ proporcionar sua trajetória ascendente.

O que para a esquerda tradicional aparece como heresia e como ausência de laços sociais duradouros inscreve-se na verdade muito mais na dinâmica da bricolagem, tomando misturas potencialmente transformadoras sem dar atenção a clivagens políticas entre direita ou esquerda. É uma forma de co-operação transitória (como um enxame) que busca por uma espiritualidade correspondente à sua ânsia por crescimento individual e familiar.  Isso está também relacionado com o nosso tempo presente em que a interação é parte importante do processo. O evangélico, ao contrário do católico, não senta no banco da igreja para “assistir” à missa, muito pelo contrário, ele é parte fundamental do culto: ele é um agente ativo: falando em línguas, levantando as mãos, “ministrando aos outros irmãos”, fazendo parte do coral, ou tomando parte numa oportunidade de fala, de canto ou mesmo de dança.

Tudo isso  acelera o processo de desencanto com a política tradicional, que é monótona, chata, distante, sempre mediada por agentes infiéis ao mandato recebido. Ou seja, enquanto a política tradicional continua rezando missas em latim, a classe-que-surge exige ser parte do cerimonial.

Thomas Müntzer (1490-1525), reformador alemão contemporâneo de Lutero e líder da Guerra dos Camponeses. Ficou conhecido como “o teólogo da Revolução”.

As igrejas evangélicas não possuem posições formalmente unificadas, apenas constroem “consensos” conjunturais baseados em valores morais bíblicos. É por isso que o projeto de tomada do poder político, defendido por uma boa parte das igrejas (especialmente as pentecostais, neopentecostais e pós-denominacionais) não avança e nem mesmo é capaz de captar o apoio maciço dos próprios evangélicos. Para ultrapassar essa barreira, já existe inclusive literatura traduzida dos Estados Unidos defendendo a profecia de que os cristãos devem “conquistar as sete montanhas6, isto é, influenciar, penetrar e mudar sete áreas fundamentais: a mídia, o governo, a educação, a economia, as artes, a família e a própria religião.

Contudo, não há até o momento nenhum projeto claro de desenvolvimento para o país apresentado pelos evangélicos. Parte disso deve-se exatamente à dificuldade de unidade de pensamento entre as diversas denominações. Parte também se deve ainda a laços muito estreitos com denominações norte-americanas, e os norte-americanos como bem sabemos, historicamente não são muito interessados no desenvolvimento do Brasil.

Não sabemos se essa revolução silenciosa resultará num projeto político de desenvolvimento a longo prazo, nem se desaguará numa nova ética evangélica capaz de alterar substancialmente as instituições de poder. Todavia, o que está claro é que essa força ascendente não titubearia em apoiar um projeto que contemple seu desejo de mudança econômica do status quo. Esse pragmatismo, ao contrário do que muitos supõem, pode ser extremamente afirmativo e interessante à medida que envolve essa grande multidão de pessoas historicamente excluídas sedentas para a criação de uma outra narrativa de Brasil.

Talvez três questões mais delicadas se apresentem como gargalos à proposta de construção coletiva de um projeto de desenvolvimento que contemple a força evangélica ascendente:

A primeira é a questão ontológica: existe uma crença não-declarada pelos evangélicos em uma espécie de “ontologia cristã para o governo”. Ao mesmo tempo que os evangélicos desejam um governo cristão, eles acreditam quase num determinismo de que isso será inevitável. Mas o pior não é isso. O pior é que essa crença se desdobra numa superstição de que se um presidente evangélico assumir a nação, automaticamente o país será “abençoado” e num passe de mágica, seus problemas resolvidos.

Creio que a solução para esse entrave seja um pedagógico debate político que evidencie o fosso de representatividade entre a heterogênea multidão de evangélicos e a atual bancada “da bíblia”, cuja atuação é pífia, para não dizer criminosa7

A segunda questão é a questão moral, ou seja, muito dificilmente os evangélicos alterarão suas posições de caráter moral. Os avanços em termos de direitos humanos serão sempre mínimos. No entanto, a pesquisa Datafolha aponta uma luz no fim do túnel ao denunciar uma possível dissociação dos discursos com alguns avanços pontuais. O ponto nevrálgico aí será sempre um projeto nacional de educação que privilegie os direitos humanos, e isso claro, é um processo cultural mais demorado.

A incrível infraestrutura da Igreja da Cidade (São José dos Campos/SP) conta com escola infantil, quadras esportivas, praça de alimentação, anfiteatro, campos de futebol, amplo estacionamento, salas de aula, escritórios, etc. O local é chamado de “Campus Colina”, onde semanalmente cerca de 7 mil pessoas realizam seus cultos.

A terceira questão é a minoria evangélica midiática que domina todo o espaço de discussões, já possui base parlamentar organizada e interesses financeiros a defender. Há um grupo de pastores dominantes que exerce influência indireta sobre os demais justamente por causa do poder financeiro e das estruturas políticas internas de cada igreja.8 Para resolver isso, creio que o mais adequado é surfar nas pretensões legítimas de ascensão evangélica e facilitar a substituição desses quadros de liderança, abrindo espaço para novos atores com visões mais progressistas e que com certeza hoje não detém espaço por falta de poder econômico.

Isso tudo significa que se encararmos os evangélicos apenas como meros reacionários correremos o risco de perder toda essa força de mobilização para a mudança. É preciso realizar um trabalho crítico que deixe bem claro para o setor as insuficiências de algumas de suas convicções diante dos imensos desafios do país, demonstrando saídas que potencializam a ascensão social desejada.  Essa percepção acertada fez com que o professor Mangabeira Unger declarasse em entrevista ao jornal Folha de São Paulo que “o desmerecimento preconceituoso dos evangélicos é um dos maiores escândalos de nossa vida nacional9 Ainda segundo Mangabeira “o cerne da teologia neopentecostal não é o culto da prosperidade conquistada pelo esforço individual; é a reverência pelo empoderamento dos crentes

Para Unger, há a emergência de uma nova consciência evangélica de autoajuda e iniciativa e isso na verdade pode ser positivo. Na verdade, o alerta de Mangabeira é muito produtivo, pois para ele a ideia central da esquerda, ou seja, do único tipo de esquerda que ainda vale a pena preservar, é a concepção de engrandecimento dos homens e mulheres comuns.10 Nesse sentido o combate às desigualdades é acessório a esse objetivo. Se a esquerda não quiser perder isso de vista precisa necessariamente evitar o erro da esquerda europeia que demonizou a pequena burguesia ascendente ajudando a transformá-la num sustentáculo dos movimentos de direita.

Seguindo essa mesma trilha, é preciso  realizar dois movimentos concomitantes: primeiro desmontar por completo a estrutura de pensamento de uma “esquerda” (ou seria ex-querda) que enxerga no movimento evangélico apenas um caldo de alienação política e defesa intransigente de pautas conservadoras. Como procuro demonstrar aqui, a própria composição técnica dos novos evangélicos desmistifica isso. Segundo, é preciso demonstrar que existe uma tradição progressista no interior da história evangélica e que por diversos fatores encontra-se quase que completamente abafada… desabafa-la talvez seja a tarefa mais urgente de um projeto de desenvolvimento verdadeiramente inclusivo.

Não é segredo que a tradição cristã cumpriu papel determinante na  elaboração histórica dos direitos humanos, especialmente no que tange ao conceito de dignidade da Pessoa Humana, pois “a grande reviravolta teve início no Ocidente a partir da concepção cristã da vida, segundo a qual todos os homens são irmãos enquanto filhos de Deus” 11 No século XVI, logo após Lutero ter realizado a Reforma, a Igreja foi responsável pela alfabetização de milhares de pessoas na Europa medieval, já que a leitura da Bíblia é uma condição fundamental para o culto evangélico. Como sabemos, a popularização da educação formal deve muito à tradição evangélica, e ela por si só já é um ato revolucionário.

Também na esteira da Reforma Protestante, os camponeses alemães se organizaram em torno da luta pelo direito à terra. Thomas Müntzer (1490-1525), por exemplo, foi um reformador alemão contemporâneo de Lutero que se aliou aos anabatistas (movimento embrião das atuais Igrejas Batistas) em favor da Guerra dos Camponeses contra a opressão dos príncipes saxônios (aos quais Lutero devia favores)12

Em toda a teologia reformada, em parte absorvida pela tradição pentecostal, o direito de resistência contra a opressão aparece como corolário político fundamental. Mais do que a defesa do direito individual liberal-burguês, esse direito de resistência abre a potente brecha que permite a problematização e a crítica em torno dos valores sociais que guiam a vida social bem como em torno da institucionalização da noção de liberdade.

O histórico discurso “I have a dream” do Reverendo Martin Luther King Jr. em 28 de agosto de 1963 nos degraus do Lincoln Memorial em Washington, D.C.

Mesmo João Calvino, um reformador mais conservador, fundador dos presbiterianos chegou a declarar com todas as letras que: “Os governantes de um povo livre devem envidar todo o esforço a fim de que a liberdade do povo, pelo qual são responsáveis, não desvaneça de modo algum em suas mãos. Mais do que isso: quando dela descuidarem, ou a enfraquecerem, devem ser considerados traidores da pátria13. Em seguida, o próprio Calvino limita esse direito, evitando generalizar o direito de resistência. Mesmo assim, a concepção é clara na defesa da liberdade do povo contra os abusos do soberano (…) Mais tarde essa abertura crítica do pensamento reformado foi radicalizada pela tradição revolucionária francesa claramente influenciada pelos huguenotes.

No século XVIII, outro grande reformador chamado John Wesley, líder do Avivamento Metodista na Inglaterra iniciou uma verdadeira revolução social. A Inglaterra do século XVIII era uma sociedade colapsada, com altíssimas taxas de violência, miséria e marginalização. Milhares vagavam pelas ruas entregues ao alcoolismo, enquanto outros milhares eram explorados nas minas de carvão. Nesse contexto, Wesley se posicionou abertamente contra a escravidão, defendendo os trabalhadores ingleses, enfatizando o que chamava de “obras de misericórdia”.

Inovador, o pensamento de Wesley se tornou o grande marco influenciador para o pentecostalismo moderno. A própria ideia de evangelho integral14 deve muito a Wesley, tendo em vista que para ele o cristianismo deveria se manifestar em atos concretos de mudança social. Wesley formulou, por exemplo, um projeto de empregos especialmente as mulheres, criou um fundo financeiro para socorrer pessoas em situação de vulnerabilidade e deu início a programas que preparavam as pessoas para atividades profissionais dignas.

Mas não parou por aí: o fundador da Igreja Metodista ainda montou um dispensário para os menos afortunados, incentivou publicamente a “Sociedade Amigos dos Estudantes” onde pessoas comuns visitavam e ajudavam financeiramente os estudantes pobres a completarem seus estudos,  combateu a fabricação e venda de bebidas alcóolicas, construiu orfanatos e escolas e foi um crítico contundente da situação desumana das prisões inglesas.

No agitado século XX não foi diferente: o grande Billy Graham, recém-falecido evangelista que percorreu quase todas as nações da Terra, no auge do conflito racial norte-americano desceu da plataforma de uma de suas mega-cruzadas evangelísticas no Alabama, e rompeu, ele mesmo, o cordão de isolamento que separava brancos e negros. Outra figura honrosa foi o Reverendo Martin Luther King  Jr, um verdadeiro monumento à luta pela paz e pela igualdade. Luther King, cujo histórico discurso “I have a Dream” pronunciado em 28 de agosto de 196315 nos emociona até hoje, não apenas lutou contra o racismo, mas também contra a desigualdade social e contra a Guerra no Vietnã. Nesse último caso, o Dr. Luther King chegou a defender a reforma agrária no Vietnã do Norte.

O evangelista Billy Graham (1918-2018), que lutou contra o racismo nos EUA durante suas gigantescas Cruzadas Evangelísticas.

Graças a Deus e felizmente o meio evangélico brasileiro já conta com pastores progressistas, extremamente preparados e que têm se posicionado publicamente em defesa da democracia e do combate à injustiça social. Ricardo Gondim, Ariovaldo Ramos e Ed René Kivitz são três bons exemplos.

Existem ainda articulações envolvendo diversas igrejas e líderes evangélicos em torno de um Brasil mais justo, como a Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, a Conferência Missão na Íntegra e a Rede Fale.

Por tudo isso, creio que é necessário considerar essa imensa força mobilizadora nos cálculos de um projeto de desenvolvimento realmente democrático. Nossa tarefa nesse momento é explicitar essa herança evangélica que tem sido soterrada pela força do dinheiro e dos interesses escusos de líderes mal-intencionados.

Como disse num outro texto,  os atores do antigo campo progressista, perdidos na velocidade do século XXI,  não conseguem assimilar essas importantes mudanças. A ruína atual está aí para que todos vejam o quão ultrapassados são os velhos instrumentos de leitura. Noutras palavras, como já destaquei em texto anterior, em que pese as influências internacionais,  é bom pontuar que a principal causa mortis dos chamados governos progressistas na América Latina não é exógena, mas endógena, pelas suas próprias condições materiais e escolhas políticas.

A mera rejeição aos evangélicos é uma dessas escolhas políticas catastróficas.

 

Notas de Rodapé

  1. Católicos serão ultrapassados por evangélicos até 2040. Matéria da Revista Exame. Disponível na íntegra em: http://exame.abril.com.br/brasil/catolicos-serao-ultrapassados-por-evangelicos-ate-2040/ Acesso em 25. Mai.2017.
  2. Pesquisa do Serviço de Evangelização para a América Latina (SEPAL), disponível em: http://www.iemif.com/site/ver.php?id=871&grupo=3 Acesso em 25. Mai. 2017.
  3. Pesquisa Datafolha, disponível para download em:http://datafolha.folha.uol.com.br/opiniaopublica/2016/12/1845231-44-dos-evangelicos-sao-ex-catolicos.shtml Acesso em 25.Mai.2017
  4. Ibdem.
  5. Infelizmente ainda não existem pesquisas nesse campo. Seria extremamente interessante que pesquisadores das ciências sociais se dedicassem  a entender melhor a recepção da mensagem evangélica pelas classes abastadas, e mais especificamente as mudanças do discurso evangélico nesse processo.
  6. ENLOW, Johnny. A profecia das sete montanhas: desvendando a próxima Revolução de Elias, Ed. Shofar, São José dos Campos, 2008.
  7. A bancada de evangélicos no Congresso é composta por “pastores” que defendem apenas os interesses de sua determinada denominação. Atualmente a bancada ocupa “cargos” loteados no governo de Michel Temer, num claro jogo de toma-lá-dá-cá. Dentre os feitos mais recentes da risível bancada estão: o apoio ao corrupto Eduardo Cunha; o apoio maciço à emenda que congelou os gastos com saúde e educação por 20 anos!;  o apoio à mudança do marco regulatório do Petróleo que entregou de bandeja para as multinacionais a valiosa reserva do Pré-Sal; o apoio à Reforma Trabalhista que retirou direitos trabalhistas; o apoio ao projeto de lei que permite a terceirização irrestrita, destruindo categorias profissionais inteiras, e o vergonhoso apoio à Michel Temer, livrando-o de duas importantes investigações ligadas à Operação Lava-Jato.
  8. O que chamo aqui de “elite evangélica nacional” de modo geral não é unificada e é vista com desconfiança pelos próprios fieis. Essa elite briga entre si. Alguns exercem sua liderança pela capacidade financeira, outros pelos cargos que ocupam em suas respectivas organizações, já outros exercem influência unicamente por meio da fama de que dispõem (cantando ou dando palestras nas várias igrejas). No entanto, todos os mencionados possuem determinado grau de influência em suas respectivas esferas. Os mais lembrados são: Edir Macedo, R.R. Soares, Valdemiro Santiago, Agenor Duque, Silas Malafaia, Rina, Márcio Valadão, Abe Huber, Estevão e Sonia Hernandes,  José Wellington Bezerra da Costa, Samuel Câmara e Silas Câmara, Manoel Ferreira, Valnice Milhomens, Samuel Ferreira, Reuel Bernardino, Renê Terranova, Ezequiel Teixeira, Claudio Marcola, Mário de Oliveira, Ereni Miranda, Roberto Brasileiro Silva, Augustus Nicodemus Lopes, José Laurindo Filho, Luiz Roberto Silvado,  Jorge Linhares, Josué Gonçalves, Hidekazu Takayama, Roberto de Lucena, Jair e Ruth de Oliveira, Edmilson Vila Nova, Carlito Paes,  Erton Köhler, Nestor Paulo Friedrich, Gedelti Victalino Teixeira Gueiros, Advanir Alves Ferreira, Jamir Fernandes Carvalho, Aguiar Valvassoura, José Ildo de Melo,  Hermes Pereira de Brito, Edward Horwood, Natalino de Jesus Bisigati, Miguel Ângelo, Luiz Bergamin, Magno Malta, Carlos Alberto Bezerra, Juanribe Pagliarin, César Augusto, Robson Rodovalho, Fernando Guillen, Neuza Itioka, Jonatas Silveira, Arles Marques, Sinomar Fernandes, Silmar Coelho, Aluizio Antonio da Silva, Marcelo Almeida, Edson Rebustini, Mike Shea, Luiz Hermínio, Ana Paula Valadão Bessa, Dawidh Alves, Heloísa Rosa, Cris Duran, Ricardo Robortella, Ebenézer Nunes, Francisco Nicolau, Hudson Medeiros, Paulo Ramos, Jesher Cardozo, Joaquim José, Paulo de Tarso, Silvio e Maria Ribeiro, Yosseff Akiva, Gilvan  Rodrigues, Samuel Mariano, Abílio Santana, Rodrigo Salgado, Paulo Moura, Alderi Souza Matos, Claudionor de Andrade, Paulo Romeiro, Ricardo Gondim, Jung Mo Sung, Cláudio Duarte, Caio Fábio, André Valadão, Fernanda Brum, Aline Barros, Fernandinho, Geziel Gomes, Antônio Carlos Costa, Rodolfo Abrantes, Baby do Brasil e Sarah Sheeva, Pastor Everaldo, Ludmila Ferber, Lauriette, Cristina Mel, Elaine de Jesus, Abraão de Almeida, Cassiane e Jairinho,Damares, Bruna Karla, Davi Saccer, Thales Roberto, Lazaro, Soraia Morais, Nívea Soares, Alda Célia, Kléber Lucas, Mara Maravilha, Eyshila,  e Ed René Kivitz.
  9. Ascensão evangélica é positiva, diz Mangabeira. Entrevista à Folha de São Paulo, em 5 nov. 2016, disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/11/1829646-ascensao-evangelica-e-positiva-diz-mangabeira.shtml acesso em 26.Mai.2017.
  10. Ibdem.
  11. BOBBIO, Norberto. A Era dos Direitos, tradução de Carlos Nelson Coutinho e apresentação de Celso Lafer, Nova edição, Rio de Janeiro: Elsevier, 2004, p. 30.
  12. A esse respeito, é leitura indispensável o belo livro de Ernst Bloch: BLOCH, Ernst. Thomas Müntzer, teólogo de la revolución. Madrid: A. Machado Libros, 2002.
  13. CALVINO, João. A Instituição da Religião Cristã: tomo II, livros III e IV, edição integral de 1559, São Paulo: UNESP, 2009, p. 882
  14. Evangelho integral é o termo utilizado pela Teologia da Missão Integral que tem crescido no meio evangélico e define o cristianismo como uma resposta de Deus para a humanidade na sua integralidade, isto é, na provisão espiritual, mas também psicológica e social.
  15. O discurso do reverendo pode ser lido na íntegra em português no site: http://anoticia.clicrbs.com.br/sc/mundo/noticia/2013/08/confira-a-traducao-na-integra-do-discurso-feito-por-martin-luther-king-ha-50-anos-4248603.html Acesso em 14.Mar.2018.

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