A soberania do Irã e a causa LGBT

Aos amigos e colegas LGBT’s, é preciso defender que o povo iraniano tenha futuro para superar suas próprias opressões, o que exige de nós repúdio ao ataque estadunidense!

Eu sei que pensamos que as urgências de nossas vidas são exclusivamente responsáveis por muitas vezes impedirem que a gente consiga ver para além daquilo que nos interessa. É também verdade que, apesar de sermos sujeitos que lutam pela livre expressão sexual, nossa ignorância sobre outras lutas por liberdade não tornam nossos posicionamentos errados menos nocivos. Nesse sentido, é preciso destacar que não são apenas nossas urgências, que muitas vezes são sobre conseguir viver com dignidade nesse país, que impedem que a gente consiga compreender a complexa realidade que nos cerca.

Primeiro, eu quero tornar nítido que aqui quero debater sobre algo que parece muito estranho à luta pela livre expressão da diversidade sexual: o conflito entre Estados Unidos e Irã. Sim, nós já começamos mais um ano de vida temendo que o planeta seja desintegrado por mais uma instabilidade humana. Dessa vez, nós acordamos com notícias que dois grandes líderes políticos de um país que nem sequer sabemos apontar no mapa foram assassinados por um bombardeio promovido por um país que conhecemos muito bem. Como consequência, o mundo teme que esse país desconhecido e de gente estranha ataque o país que conhecemos tão bem e é nosso parceiro na luta pela libertação dos direitos individuais. Tenho plena certeza que muitos de nós, que nunca sequer ouvimos falar em geopolítica, acessamos essa narração do conflito. No entanto, é exatamente essa narrativa que é uma fonte de desinformação e nos leva ao erro, pois nos faz apoiar sujeitos que em nada contribuem para nossa própria causa.

Nesse sentido, eu quero aqui dar nome e vida ao paíseco desconhecido, quero também revelar que o país que conhecemos tão bem em nada deveria nos interessar sua defesa por liberdade. E não quero por simplesmente fazer minha defesa de visão de mundo, afinal como mulher lésbica aprendi bastante que a realidade dos dias é um tijolo firme demais para se moldar aquilo que a gente simplesmente deseja, ainda que seja com a melhor das intenções e promessas. Por isso, vou parar de enrolar e ir logo aquilo que quero te contar a partir de meu estudo da realidade:

1 – O paíseco desconhecido é conhecido em nossa língua como Irã e o seu povo é persa, apesar de existir grande diversidade étnica em seu território. O Irã é um país com 80 milhões de habitantes e sua capital é o Teerã. Sua posição no Oriente Médio é estratégica para muitos interesses. São grandes produtores de petróleo e inúmeras artes, principalmente o cinema. O Estado iraniano é uma república, carrega uma constituição e sua religião oficial é o islamismo, o que não impede a presença legal e social de outras crenças como o cristianismo, judaísmo e zoroatrismo. Sua expectativa de vida é de 76 anos, 95% da população tem acesso a água potável e estão seguras alimentarmente, 88% a rede sanitária, a presença escolar é de 90% e sua 85% da população é alfabetizada. Além disso, a gente tem 70% da população com acesso a internet. Apesar de ter apenas 10% de área cultivável e sofrer grandes desafios climáticos, o país garante tem grandes avanços na democratização de direitos básicos para maioria da população. Porém, a vida dos LGBT’s iranianos não é facil, pois há proibição legal de expressão LGB, apesar de existir certa tolerância à identidade trans. Em resumo, é um Estado intolerante a diversidade da orientação sexual e que reprime o movimento LGBT irianiano. Ou seja, é um país que carrega contradições políticas e sociais que são, infelizmente, comuns no oriente e NO OCIDENTE. Porém, por que ainda assim não podemos defender o que foi feito pelo outro país contra suas lideranças? Para isso, a gente precisa falar dos interesses estadunidenses contra o Irã.

2 – Primeiro, nós sabemos bem onde os EUA estão no mapa e cotidianamente nós temos contato com este país de inúmeras formas, porém poucas revelam como sua influência é mantida entre nós. Os Estados Unidos praticam contra nosso país vária chantagens econômicas em nome de “boas relações políticas”. Nós vimos isso recentemente quando mesmo um governo completamente submisso e frouxo aos desejos de Trump, ao ponto de entregar nossa base de Alcântara, não recebemos nenhuma das promessas feitas pelos estadunidenses.

Seguimos nosso modelo agroexportador predatório, que não desenvolve sua própria soberania por meio de uma industrialização planejada e que leve em consideração as demandas de nossa própria gente, em nome de uma relação dependente de dá lucros imediatos para 10 brasileiros criminosos – inclusive, que lucram bastante com a LGBTfobia e inúmeras outras formas de opressão. Esse mesmo tipo de política de destruição interna em nome de dependência externa é o jogo político que os EUA realizaram no Irã entre boa parte das décadas de 60 e 70 até que veio a Revolução Iraniana em 1979. A partir deste ano, o Aiatolá Khomeini tratou de estatizar tudo aquilo, inclusive o petróleo, que era roubado pelo golpe estadunidense-britânico. O Irã saiu de uma miséria sem fim, entrou numa era de crescimento e se estabilizou como uma nação soberana com boas relações com outros povos, exceto aqueles que queriam o retorno da submissão de seu próprio povo à força estrangeira.

Nesse sentido, os EUA atuam no Oriente Média por meio de alianças com países completamente antidemocráticos como Israel, Emirados Árabes e Arábia Saudita, estes dois últimos envolvidos em crimes gigantescos contra as comunidades LGBT’s de seus respectivos países e outros povos presentes em seus territórios. As alianças estadunidenses e seu modo de fazer política, que condena até nós brasileiros ao subdesenvolvimento e controle de uma elite nacional reacionária, são provas concretas e absolutas que não estamos defendemos as liberdades sexuais quando defendemos as ações criminosas deste país no estrangeiro.

Por fim, eu não faço aqui uma defesa do Irã enquanto Estado que tem direito de oprimir os seus próprios cidadãos LGBT’s, mas defendo sem nenhuma dúvida o direito do povo iraniano ter um futuro para travar suas próprias lutas e superar suas contradições. Como último desejo, eu peço para você que chegou até aqui abra uma outra guia e procure fotos atuais da Líbia e da Síria, países que tinham ótimos indicadores socais e estavam começando a avançar nas discussões sexuais na região, e veja com seus próprios olhos o que restou hoje após intervenção estadunidense. Se é isso que você deseja ao Irã, eu lamento, mas não estamos no mesmo lado da luta. Porém, se você de algum forma entendeu minha ponderação aqui, eu estou mais do que disponível pra gente buscar contato com o movimento LGBT iraniano e somar forças na solidariedade estrangeira em sua defesa.

Que o povo iraniano defenda tenha futuro para superar suas contradições!

Por Cristina Silva

3 Comentários

  • Para poder ser compartilhado com o objetivo de atingir um público específico, acredito que o portal poderia fazer uma revisão do texto.

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  • Dizem que na democracia todos temos direito a uma opinião, nos EUA, país mais liberal no planeta aos homos(Desde que as leis sejam respeitadas), que sempre defendeu a liberdade do individuo, hoje e representado como o grande vilão, os dois comandantes mortos como diz essa matéria eram na verdade carrasco de homos, cruéis assassinos, e ligados ao terrorismo, não vi no artigo nenhuma menção as vítimas, somente aos carrascos.

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    • Não entendi. Qual seu ponto? Onde o eua é representado como grande vilão, na grande mídia? Na indústria, seja de qual natureza, só se é ‘liberal aos homos’ quando há retorno, lucro. E liberdade de quem, cara pálida? A algumas décadas, o país era completamente segregado racialmente. Você acha que toda essa dinâmica deixou de existir, do dia pra noite, por exemplo? Quanto aos comandantes, você pode me mandar algum link que exponha? Fora que o ponto principal do texto reitera justamente isso.

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