De ACM Neto a Márcio França, passando por Kassab, todo mundo é Ciro

O caldo entornou para o governador de São Paulo, João Doria. O tucano está tentando capitalizar a vacinação de covid-19 contra o negacionismo de Bolsonaro. Porém, está colocando sua articulação para 2022 em risco, abrindo cada vez mais espaço para Ciro Gomes ser o nome de consenso do mundo político contra a anti-política bolsonarista e lavajatista.

Em reunião com o Ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, os governadores reclamaram da arrogância de Doria na condução da vacinação. Por se tratar do estado mais rico, São Paulo conseguiu ser o primeiro a obter as vacinas contra covid, e pretende submeter tanto o Governo Federal quanto os outros governadores à sua agenda pré-eleitoral. Ronaldo Caiado do DEM, governador de Goiás, foi pra cima: “O Ministério da Saúde não pode abrir espaço para nenhum estado querer se arvorar na frente de outro“.

Doria, como todos sabem, era um lobista de rapina dos negócios de Estado para o setor privado, e apresentador vulgar de televisão. Foi eleito como “outsider” com discurso ultra-falso-moralista da anti-política. Arrancou o comando do PSDB literalmente na porrada de Geraldo Alckmin.

pancadaria em convenção do PSDB márcio frança ciro
Pancadaria em convenção do PSDB.

Só por esses motivos, Doria já não é bem visto pelo mundo político, que não gosta de ser tutelado pela hipocrisia falso-moralista da anti-política. Mas, além disso, é preciso apontar os problemas da questão regional do Brasil. O DEM é um partido principalmente baiano e carioca. Rodrigo Maia no Rio e sua afinidade com Ciro, bem como, indisposição com Doria já foram tratadas diversas vezes aqui no Disparada. ACM Neto, herdeiro dos Magalhães na Bahia e presidente do DEM, também dá demonstrações cada vez mais sólidas de não gostar de se submeter aos arranjos hegemônicos impostos por São Paulo. Ele deu declaração forte contra a “nova política” em claro recado a Doria: “A tal nova política ficou velha cedo demais, o eleitor mostrou isso nas urnas esse ano, optando por um perfil que tenha mais experiência, capacidade de gestão, liderança, articulação política, quadros já conhecidos da vida pública nacional.“. Este perfil descrito por ele tem nome e sobrenome, Ciro Ferreira Gomes.

Além disso, hoje também, o ex-governador de São Paulo que assumiu como vice de Alckmin na batalha entre o “velho PSDB” e o “novo PSDB” de Doria, foi bastante enfático sobre a potência da aliança em torno de Ciro Gomes, trazendo Alexandre Kalil e Gilberto Kassab para o papo:

O Doria é um vitorioso pela sorte. E o Ciro tem uma persistência cívica. No Nordeste, a junção PSB-PDT teve bons resultados. Além disso, percebo o Kalil como uma estrela em ascensão, é ligado ao Kassab e amigo do Ciro. Vejo nisso aí uma certa chance, um certo alinhamento. Se o Kassab faz um movimento como esse, rumo ao Ciro, seria importante. Sinto que o Kassab não tem simpatia pela engenharia PSDB-DEM. Conheço o jeitão dele. Ele não tem nada a ver com o Doria também. Ele é rival do DEM.

Evidentemente Márcio França deu essas declarações motivado por disputas contra o DEM pelo governo estadual paulista em 2022, mas certamente, ele também estava impactado após ver essa entrevista de Kassab afirmando que “Ciro é um candidato fortíssimo para 2022“:

No fundo, o que está acontecendo é que o Centro político está buscando seu caudilho para 2022, e Ciro é a noiva da vez. Enquanto Luciano Huck, também um “outsider”, garoto de recados da Globo e de Armínio Fraga, conspira dia e noite com Paulo Hartung para se viabilizar, Doria busca utilizar a força de São Paulo. No entanto, os dois têm enfiado os pés pelas mãos, e Ciro vem acertando todas na política e cresce aceleradamente nas redes sociais. Inclusive hoje bombou no Twitter a tag #CiroAvisou contra os economistas e jornalistas neoliberais que ficam apavorados com as previsões corretas de Ciro sobre a economia nacional em franco derretimento.

De ACM Neto a Márcio França, passando por Kassab, todo mundo é Ciro márcio frança ciro

Em outra oportunidade já detalhamentos o complexo xadrez de 2022: “O desafio de Ciro Gomes é rachar o Centrão com Doria e Bolsonaro“. Mas essa peleja está ganhando contornos muito interessantes com DEM e PSD possivelmente DISPUTANDO para ver quem ocupa lugar destacado nas articulações do trabalhista. Os dois partidos estão insatisfeitos com Doria por seu hegemonismo paulista e seu personalismo da anti-política, e tampouco confiam no animador de auditório da Globo. Além disso, no PSD, a ascensão do mineiro Alexandre Kalil fortalece o cirismo dentro do partido de Kassab. Já os líderes do DEM não apenas nutrem simpatias pessoais por Ciro, como concretizaram diversas alianças com o PDT no nordeste. Será que essa turma está disposta a andar de braços dados com algum almofadinha de São Paulo nas Minas Gerais, Bahia, Rio de Janeiro, Pernambuco, Ceará, e até mesmo no centro-oeste no Goiás do governador Ronaldo Caiado, ou no norte no Tocantins da senadora Kátia Abreu?

Do jeito que vai, todo mundo é Ciro.

4 Comentários

  • Continuar insistindo na hipótese de uma aliança do PDT com o DEM é continuar afirmando a hipótese de um estelionato eleitoral futuro, caso essa aliança se configurasse de fato e vencesse as eleições de 2022, pois, inevitavelmente, uma das partes trairia seus eleitores ou, senão, trairia os interesses de classe que prometeu representar no momento de sua fundação. Não há como falar em programa nacional desenvolvimentista que, grosso modo, seria como poderíamos denominar o projeto defendido por Ciro Gomes, e incluir o DEM na base de apoio desse programa. Se isso fosse verdade, todos os representantes partidários dos interesses de classe, que se disputam na sociedade através de organizações políticas precisas, como o DEM e o PCdoB, se tornariam imprevisíveis. Um partido politico como o DEM que, desde sua fundação, atuou como um radical defensor do neoliberalismo, sendo mais intransigente até que o próprio PSDB na defesa dos dogmas neoliberais, na defesa do alinhamento do Brasil aos interesses do imperialismo estadunidense, abrigando, inclusive, a maioria dos banqueiros brasileiros entre seus dirigentes, como os Setubal, os Bornhausen e os Andrade Vieira, passaria, pela misteriosa capacidade de Ciro Gomes de convencer seus dirigentes e militantes, a defender um projeto nacional desenvolvimentista. A Ciência Política estaria seriamente ameaçada de extinção e cederia lugar para a Astrologia, as alianças políticas deixaria de ser motivada por interesses de classe determinados objetivamente, e passariam a ser estabelecidas pela força da capacidade de convencimento dos indivíduos, os comunistas poderiam ser convencidos a defender o neoliberalismo e o PSDB, convencido a defender o socialismo. Se a aliança entre o PDT e o DEM vier mesmo a ser selada, a única conclusão que devolveria a Ciência Política a sua coerência analítica seria a hipótese de que Ciro Gomes, para ser presidente, topa tudo, inclusive, trair os interesses que o PDT afirma defender.

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    • Nada a ver Darcyzão! É muito mais fácil o DEM abrir mão de ideologia. Vai dizer que ideologicamente Ciro e PDT são mais frágeis que Dem?

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  • Acredito nesse caminho e uso as mesmas palavras daqui do site:
    “O que de melhor pode acontecer para o Brasil é a viabilização desta frente ampla buscada por Ciro Gomes, e, obviamente, sua vitória nas eleições de 2022. Uma aliança com o DEM, com certeza, imporia a Ciro o sacrifício de grande parte do conteúdo progressista de sua agenda econômica. Sim, Ciro subiria a rampa do Planalto com compromissos com o grande capital, em situação semelhante àquela de Lula em 2003. Mas todo governo é sempre objeto de disputas. Apesar de estar nas cordas, é difícil imaginar que o PT não conseguirá eleger bancada importante no Congresso Nacional. O PSOL também tende a crescer. Uma banca progressista numerosa seria capaz de puxar o governo pra esquerda. Nas proporcionais, o antipetismo não é interditante. O PT ainda tem muito a colaborar com o Brasil, mas não do jeito que vem tentando fazer, de forma um tanto quixotesca.”

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