RICARDO CAPPELLI: Adeus, Lênin?!

Nada mais antimarxista que a celeuma criada em torno da possibilidade de mudança de nome e símbolo pelo PCdoB. A notícia do debate foi alvo de emendas, sonetos e desmentidos oficiais de toda sorte.

A coisa complicou ainda mais quando dois “novos” movimentos resolveram atravessar a avenida: Comuns e Movimento 65, ambos protagonizados pela legenda comunista.

Marx inaugurou uma nova temporalidade, fazendo a humanidade balançar. Reescreveu a história da evolução dos sapiens com originalidade e brilhantismo. Consagrou a tal da dialética, dinamitando esquematismos e dogmas descolados da realidade concreta.

O genial barbudo beberrão do século XIX, junto com Engels, ousou como ninguém, abrindo possibilidades até então inimagináveis. Dois aventureiros da epopeia civilizatória que em nada se pareciam com os “comunistas de igrejinha” que hoje em dia querem aprisionar a dupla num monastério.

Partido político não é ambiente de fé religiosa, muito menos um clube de amigos do tipo “não mexe no meu quintal que eu não mexo no seu”. Existe para disputar poder real, governar. O “silêncio do acochambramento” costuma ser a cova das organizações.

O que define um partido é o seu programa. O do PCdoB é um primor. Estabelece os pilares de um Novo Projeto Nacional de Desenvolvimento. Ninguém defendeu mudar o programa, muito menos alterar o caráter do partido. Por que então tanto incômodo?

O partido vive seu maior período na legalidade, já são 35 anos. Por que não consegue ter um bom desempenho eleitoral nacional? Se já não ultrapassou a cláusula de barreira em 2018, como vai superar a barreira ainda maior em 2022, sem coligações proporcionais?

Por que um vereador de Goiás monta um partido sozinho e poucos anos depois consegue amealhar mais votos no país que uma legenda quase centenária?

A questão é a conjuntura nacional e internacional adversa? Por que então, no auge do governo Lula, o PT chegou a ter mais de 90 deputados e os comunistas nunca passaram de 15? Por que em 2018 o PDT e o PSB cresceram e o PCdoB encolheu?

O problema é apenas um erro tático que, uma vez ajustado com candidaturas e chapas próprias, será superado facilmente?

Qual o lugar dos comunistas na sociedade? Para quem o PCdoB está falando? O problema é estrutural, reflexo da falta de espaço social que vem desde a década de 80, com o PT assumindo a referência do movimento operário-social no país?

Márcio Jerry, deputado comunista “calouro”, foi eleito o melhor deputado federal do Maranhão. Não há decisão importante no Congresso Nacional sem que a opinião do deputado Orlando Silva seja pelo menos ouvida.

Militam no PCdoB algumas das melhores cabeças do país. Por que isso não se transforma em votos?

Pesquisa realizada recentemente indica que o povo associa a foice à morte. Indica também que o povo rejeita o termo comunista, mas escolhe o socialismo ao capitalismo, associando-o a questão social.

No “Farol Albanês”, o partido marxista leninista se chamava Partido do Trabalho. Por quê? Os partidos comunistas europeus que mudaram de nome e símbolo acabaram? É uma fórmula dura e profética? Se mudar vai virar o PPS? O PCB começou a ruir na década de 60 ou foi a mudança de nome a causa?

Os partidos comunistas europeus que mudaram de nome e símbolo acabaram? É uma fórmula dura e profética? Se mudar vai virar o PPS? O PCB começou a ruir na década de 60 ou foi a mudança de nome a causa?

Na América Latina, ninguém de esquerda chegou ao poder hasteando bandeiras de partidos comunistas. Por quê? Chávez, Evo, Rafael Corrêa, Kirchner, Lula, López Obrador, Mujica, nenhum. Coincidências? Barreiras culturais?

Os Movimentos Comuns e 65 serão suficientes? O eleitor pode achar que está sendo ludibriado? Filiação democrática é uma novidade? O que foram as filiações de Ademir da Guia, João Derly, Netinho e Protógenes, dentre outros?

Com todo respeito a quem pensa diferente – e compreendendo a delicadeza do debate-, ele precisa ser feito. Negá-lo com a proclamação de arroubos dogmáticos é fugir da análise concreta da realidade objetiva.

Seria virar a velhinha comunista do filme “Adeus, Lênin!”, que sai do coma depois da queda do muro de Berlim e passa a viver numa “Alemanha Oriental Fake”, montada por seu filho, temeroso pelo encontro da mãe com a dura realidade.

RICARDO CAPPELLI Adeus, Lênin! pcdob cláusula de barreira

3 Comentários

  • Nada mais antigo do que os argumentos dos novos Bernstein, de 1902, e dos novos Kaustsky, de 1912, contra o “dogmatismo”. Velho também é o ataque ao marxismo em nome de Marx, ou os ataques a Lênin em nome de Lênin, feito por reformistas, inspirados pelo liberalismo pequeno burguês com que foram educados desde o círculo familiar, indivíduos que jamais assimilaram a ideologia do proletariado, que, quando são bem intencionados e não quinta colunas, liquidacionistas mal intencionados infiltrados nas fileiras comunistas, são, no máximo, socialdemocratas (a grande maioria, na verdade, é social-liberal). Mas isso não deve ser tomado como ofensa, trata-se apenas de uma constatação e, no meu caso, de uma antiga previsão. Quando o PCdoB anunciou a intenção de se converter em um partido de massas, em um partido institucional, me opus. Defendi a criação de um partido de massas que teria o nome de “Unidade Popular Socialista” (que coincidência, não é mesmo?), que seria nucleado, então, pelos comunistas. Nesse partido, os amigos e simpatizantes dos comunistas (ou melhor, os simpatizantes do programa nacional de desenvolvimento defendido pelos comunistas para ser aplicado em uma sociedade capitalista, como uma etapa de preparação para uma futura e revolucionária tomada do poder para, a partir de então, dar início à edificação de uma sociedade socialista, pois uma sociedade socialista jamais será produzida por uma via evolucionista, de eleição em eleição, mas apenas por uma Revolução) poderiam atuar livremente, sem ter que observar a disciplina revolucionária, a capacidade de se sacrificar em nome da Revolução, de colocar os interesses do coletivo partidário acima dos interesses individuais. Seria, como se pode perceber, um partido mais adequado a indivíduos dispostos a participar na vida partidária balizada pelas instituições burguesas, mas sem coragem ou disposição para fazer sacrifícios maiores, para se dedicar aos rigores de uma vida revolucionária (mesmo em tempos de luta pacífica, quantos membros do atual PCdoB se disporiam a abandonar um curso de Engenharia Química na UFRJ, no qual ingressou em 2° lugar, para organizar células comunistas na CSN ou em Vila Aliança, favela do Rio de Janeiro? Quantos aceitariam resistir com armas na mão a um eventual golpe fascista?) Meu argumento, que sustento até hoje, é que a transformação do partido de quadros em partido de massas comprometeria a unidade ideológica do PCdoB, colocando o Partido dos Comunistas, o partido de quadros comprovados no fogo da luta revolucionária, de lutadores do povo, de revolucionários como João Amazonas, Osvaldão, M Grabois, Diógenes Arruda, Maria Dolores, Rogério Lustosa, Sergio Miranda etc, sob a pressão da ideologia pequeno-burguesa, já que o rigoroso controle ideológico do partido de quadros seria substituído necessariamente pelo liberalismo pequeno-burguês que prevalece nas organizações de massas, sobretudo, nas da juventude. Desse modo, o PCdoB conheceria o mesmo destino dos eurocomunistas ou do velho “Partidão”. A solução para atender os desejos liberais legítimos de indivíduos como Ricardo Capelli e Flavio Dino não é liquidar com o PCdoB como Capelli defendi nesse artigo, mas, sim, criar um novo partido, um partido de massas, no qual os comunistas atuariam, como atuaram, no passado, na Tendência Popular do PMDB. Tal partido poderia se chamar “Partido da Frente Brasil Popular”. Por outro lado, o PCdoB deixaria de ser um partido eleitoreiro, e voltaria a ser um partido de dirigentes revolucionários, organizado pelo método do recrutamento e não mais permitiria o ingresso pela via da filiação. Não há contradição nessa proposta de dois partidos. No partido de massas, todo comunista, todo dirigente comunista, seria obrigado a se filiar e a ajudar a organizar. No Partido Comunista, a maioria dos membros do partido de massas não atuaria, nele somente ingressaria indivíduos recrutados, depois de terem sido rigorosamente observados. Não haveria ingresso por filiação. No Partido de Massas, Flavio Dino e Ricardo Capelli poderiam pertencer à sua Direção Nacional, sendo Flávio Dino seu presidenciável natural e, trabalhar para eleger Flávio Dino, não importando para que cargo, seria obrigação dos militantes comunistas. No Partido Comunista, somente faria parte do Comitê Central dirigentes com o perfil ideológico de Jose Reinaldo, Walter Sorrentino ou João Baptista. Essa solução atenderia plenamente aos desejos reformistas de Capelli e satisfaria igualmente o desejo de defesa da organização comunista dos revolucionários, como José Reinaldo. Revolucionários e reformistas podem e devem conviver, lutando lado a lado, em uma organização partidária de massas, institucional, para atuar em função da luta eleitoral, da luta pelas reformas democráticas, sempre que existirem tarefas dessa natureza para serem cumpridas. O que os comunistas não podem jamais admitir é a transformação do partido comunista, do partido da bandeira vermelha, da foice e do martelo, em um partido democrático de reformas por parte de liquidacinistas pequeno-burgueses. No partido comunista eu estou disposto a atuar. No Partido de Massas, disponho-me a apoiar.

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  • Os argumentos tratam de questões como: as filiações democráticas, dos movimentos Comuns e 65, da primazia do resultado eleitoral e de governar o estado burguês como pontos pacíficos. Não são. Assim como a conversão de partido de quadros em partido de quadros e de massa, bem lembrada pelo comentário do Darcy Brasil, está longe de ser pacificada.
    Fato é que o projeto institucional e eleitoral faliu. Em que pese o governo do Maranhão, o resultado foi pífio (com informações do próprio Cappelli) e é simultâneo à diminuição da atuação de massa do PCdoB. Realmente o debate precisa acontecer, e necessariamente dentro do partido. Opiniões em Facebook , blogs artigos de jornal ou entrevistas não fazem parte da nossa forma e nem da nossa tradição. Não é por essas vias que os comunistas formulam. Assim como Movimentos distintos dentro do PCdoB, que me parecem um esboço de tendência ou fração – tudo isso, é a prova que a nau está desgovernada.
    O debate já está acontecendo, mas por que dorme o Comitê Central?

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