Afif Domingos no Roda Viva: Enfim, um liberal de verdade

O ex-ministro Guilherme Afif Domingos é o candidato do PSD para a presidência da república e foi o convidado do Roda Viva desta semana. DISPARADA, neste espaço, cobrirá todas as entrevistas da série com os pré-candidatos.

Confesso que quando descobri que o entrevistado da semana era o Afif, desanimei. Pensei em inventar desculpas para os demais editores. Diria que Afif não será candidato de jeito maneira, que é um “sem-voto” desde 1989. Enfim, resolvi assistir primeiro e conferir se havia algo ali que valesse a pena ser compartilhado.

Afif por muitos anos fez o papel que hoje é de João Doria. Paulista, rico, de família tradicional e liberal. Defensor do Estado mínimo sob a égide da eficiência. O tempo fez bem ao velho político.

O ex vice-governador, já com alguma idade, está mais jovem do que nunca. Analisa o Brasil como poucos fizeram nesta série de entrevistas. Entendeu profundamente a relação financismo x produção em nosso país, assumindo um papel honesto como liberal que é: enfrentar o capitalismo doentio dos especuladores. Com uma vantagem que talvez alguns candidatos à esquerda e à direita não possuem: conhecer o Brasil de verdade.

O programa inteiro foi pautado por seus ataques aos bancos – sim, você não leu errado – e à “jogatina da bolsa de valores”, nas palavras do próprio. O Brasil definitivamente nos surpreende cada dia mais.

Criticou o animalesco spreed bancário, que nivela os juros do cartão de crédito do brasileiro em 300%. Desmistificou o governo Temer (chamado de Michel, pelo entrevistado), que se gaba por ter diminuído os juros para a população. Foi enfático em atacar o rentismo parasitário do Estado, que sobrevive dos juros reais pagos pelo contribuinte brasileiro. Em seguida, como um atirador voraz, apontou sua mira para o dito “mercado” e seus desmandos eleitorais. Foi firme em dizer que a “jogatina da bolsa de valores não é a economia real”. Em seu tiro de misericórdia, disse ainda que “economia é de quem ganha dinheiro trabalhando”.

Sua bandeira história, as micro e pequenas empresas, continua sendo o fator preponderante de seu discurso. Trata os micro e pequenos empresários como motores do país. Referencia sua análise nas mais diversas fontes. Dos banqueiros de Davos aos estudos eleitorais da Fundação Perseu Abramo, do PT. Soa convincente.

O ex-ministro de Dilma e ex-vice governador de Alckmin é um político preparado. Defendeu contundentemente a política contra a antipolítica, assumindo um papel raro em dias como os nossos, em que até políticos seculares como Alvaro Dias se dizem “outsiders”.

O mercado, representado na Roda, estava assustado. Seu representante direto, o “analista” Nicola Tinga, chegou a perguntar se Afif não estava mais à esquerda por sua sanha por desenvolvimento e crítica aos mercados. Afif, experiente, respondeu explicando as diferenças do verdadeiro pensamento liberal, exemplificando o papel de um Estado verdadeiramente regulador que incentive e obrigue a concorrência. Terminou dizendo que jamais mudou de posição e defende as mesmas bandeiras desde 1989.

Fica evidente que Afif Domingos, assim como outras figuras históricas da direita tradicional brasileira, como Cláudio Lembo, foram jogados à centro esquerda por uma política neoliberal tresloucada , que só enxerga como par ideológico aquele que defende a miséria absoluta do povo às custas de 300% de juros ao ano nas compras parceladas do trabalhador.

A bancada, composta majoritariamente por “agentes do mercado”, ficou estupefata. Imaginaram analisar um liberal como os seus. Tiveram um oponente feroz e que não dava margem para tréplicas, que quando forçadas, eram contornadas por respostas bem fundamentadas e contundentes.

Na metralhadora de Afif sobrou até para seu ex-companheiro de chapa, o governador Geraldo Alckmin, por quem ele “não nutre simpatia” e “nunca foi próximo”. Acusou o governador de boicotar o PSD e perseguir os membros de governo que aderiram ao partido. Também não poupou seu antigo colega de partido e pré-candidato Henrique Meirelles, que, segundo o ex-ministro, “está mais para Davos do que para a periferia”.

No final, no já famoso pingue-pongue do apresentador Ricardo Lessa, o entrevistado afagou os mais nacionalistas. Disse que seu maior ídolo era Pelé, dizendo chorar até hoje quando vê a final de 1958. Perguntado sobre a música de sua vida, fez uma linda homenagem à Bossa Nova, quase arrancando lágrimas de certos colunistas por aí.

Jamais considerei a hipótese deste espaço bradar qualquer coisa positiva sobre Afif Domingos. Mas já dizia Chico “A minha surpresa é só feita de fatos”.

Fato é que Afif Domingos surpreendeu a todos e fez um dos melhores programas da série.

Próximo!

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