Contra o Anacronismo Político e em Defesa da História

Algumas frases e posicionamentos se tornaram corriqueiros no debate político nos últimos tempos, todos se utilizando da comparação de momentos históricos no intuito de mostrar que a História está se repetindo.

As mais compartilhadas nos últimos tempos foram as relacionadas ao novo presidente do Brasil: “O Brasil voltou para 1964”, “Bolsonaro é o novo Hitler”, e nos últimos dias, o tema recorrente foi a Venezuela: “Maduro é o novo Allende, precisamos apoiá-lo em nome do anti-imperialismo”, “Se uma certa esquerda estivesse presente nos anos 1960, seria pró-Kennedy e anti-Fidel”. E há quem vá mais longe: “Se a Revolução Russa fosse hoje, a maior parte da esquerda brasileira apoiaria os mencheviques”.

Que se diga em claro e bom som para que não restem dúvidas: o Brasil está em 2019 e não em 1964. Bolsonaro não é o novo Hitler, assim como Maduro não é o novo Allende. Não estamos mais no contexto da Guerra Fria dos anos 1960, muito menos na Rússia de 1917. Todas as frases desmentidas não passam de usos retóricos que subordinam a História ao viés de confirmação das próprias preferências políticas de quem profere as sentenças.

Existe uma palavra muito cara aos historiadores e com a qual todo mundo que queira fazer uso da história como argumento deve estar atento: anacronismo. Analisar determinado tempo histórico com os valores vigentes em outro tempo é erro grave para a ciência histórica. Se existe algo que precisa ficar claro é um fato de cada acontecimento histórico ser único no espaço e no tempo.

Ainda que o processo histórico seja marcado por continuidades (estruturas culturais e de valores são muito mais resistentes a mudanças bruscas do que estruturas sociais e econômicas) ele também é marcado por rupturas, e esse tipo de comparação parece perder a dimensão dessa relação dialética tão cara ao historiador.

É evidente que a História está aí para nos ajudar a refletir sobre o nosso tempo a partir do conhecimento sobre outras épocas, mostrando, e isso considero fundamental, que a mudança é a dinâmica que define por excelência a Humanidade. Logo, reificar determinados acontecimentos e processos vai totalmente na contramão do propósito da ciência histórica. Pelo contrário, acreditar que a História se repete nos impossibilita de entender as especificidades do tempo presente.

A direita que tenta reescrever a História (como os bolsonaristas e sua “Revolução de 1964”) e setores da esquerda que a reificam (“Bolsonaro como repetição do Fascismo” ou “Maduro como a repetição de Allende”) estão mais próximos do que se imagina. Tanto em um caso quanto no outro, a História perde o seu potencial esclarecedor e torna-se um filtro opaco e anacrônico que só distorce a realidade concreta. Acreditar que tudo é repetição nega o caráter temporal dos processos humanos, logo, a própria História. Querer reescrevê-la sem qualquer critério teórico e metodológico sério, também.

Exemplo concreto: o governo Bolsonaro de fato reivindica a memória da Ditadura Militar brasileira por um viés positivo. É verdade também que o novo presidente apresentou durante toda a sua vida um discurso descaradamente autoritário. Mas nada disso nos autoriza a dizer, a luz da História, que estamos vivendo uma repetição de 1964. Existe de saída um fato novo que muda toda a dinâmica: Bolsonaro foi eleito democraticamente, ele não tomou o poder por meio de um golpe de estado. Só isso já nos coloca frente a frente com um fenômeno novo, e ter clareza disso é um passo fundamental para traçar táticas e estratégias coerentes para enfrentá-lo. Sem uma análise correta do fenômeno, qualquer política contrária a ele está fadada ao fracasso.

Um outro ponto que certos setores da esquerda não se dão conta é o quanto a retórica, que se quer radical, de chamá-lo de fascista é uma armadilha. Apresentá-lo como algo muito mais grave do que ele de fato é só facilita a sua vida, já que basta o mesmo fazer um governo que não seja fascista, ainda que medíocre, para desacreditar esse discurso fatalista e desmoralizar esse tipo de oposição.

Enfim, apenas uma História crítica, livre do dogmatismo militante que muitas vezes tenta aprisioná-la, pode instrumentalizar as forças políticas progressistas na leitura correta das lutas de nossa época, compreendendo o que o nosso tempo tem de continuidades de outros períodos, e principalmente, o que tem de específico e único. Só uma História viva e dinâmica, sem cheiro de naftalina, pode ser nossa aliada na complexidade do nosso tempo.

2 Comentários

  • seria um bom artigo se o articulista entendesse de história e a estudasse. não a entende e não tem a menor ideia de conceitos que abordou como “fascismo” ou períodos como “1964”. mas diante de toda porcaria que se diz por aí…é uma porcaria mas tá valendo.

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