O anticientificismo nos tempos de cólera

Enquanto a pandemia de Coronavirus (COVID-19) se alastra no Brasil, os movimentos pró-Bolsonaro, do dia 15/03, reforçam que o ódio e a irracionalidade ganham cada vez mais espaço no cenário político, em detrimento da própria Ciência.

Goiânia, 15 de março de 2020. O governador do estado, Ronaldo Caiado (DEM), inicia seu discurso em frente a um carro de som, sob fortes aplausos de manifestantes pró-governo: “ninguém mais do que Ronaldo Caiado enfrentou as esquerdas no Brasil. Sou um dos três governadores que apoia o presidente Bolsonaro”, afirmou, enquanto se ouvia gritos de apoio da plateia. Contudo, de repente, uma simples frase é capaz de mudar totalmente o clima no local:

– “Mas vocês têm que entender uma coisa só: antes de ser governador do estado, eu sou médico”.

Foi o suficiente para tornar o ambiente hostil, dominado por uma sonora vaia. Ainda assim, seguiu: “vocês precisam, mais do que nunca, ter responsabilidade de não fazer com que as aglomerações provoquem a disseminação do Coronavirus”. A orientação rapidamente desencadeia palavras de ordem contra Caiado, numa revolta coletiva que parecia se indignar contra algo absurdo.

A inconformidade, porém, era a mais pura expressão da vitória da irracionalidade, do ódio, do obscurantismo e da cólera, justamente sobre a Ciência. E o pior de tudo: em tempos de pandemia.

Um contexto um tanto quanto surreal, mas que é facilmente entendido através de uma breve retrospectiva da política brasileira. São tantos os fatos marcantes que será necessária uma compilação daqueles que ganharam maior notoriedade, a título de ilustração.

O “guru” de Bolsonaro desde a pré-campanha, Olavo de Carvalho, foi um dos expoentes na popularização do recente movimento anticientífico no país. Diante de um fiel (e crescente) grupo de seguidores, passou a descredibilizar das teorias de Isaac Newton e Charles Darwin, promovendo também o tabagismo e até mesmo o antivacinismo, em discursos de tom agressivo. Sua notoriedade em meio aos movimentos reacionários viabilizou sua ingerência no governo eleito, notadamente a partir de indicações para a formação de alguns dos ministérios.

Os ministros apadrinhados, juntamente aos demais membros da gestão, reforçaram ainda mais a reprodução do anticientificismo, agora enquanto política de Estado: a redução de mais de 40% das verbas federais para a pasta de Ciência e Tecnologia foi sucedida por atitudes como a de Ernesto Araújo, ministro das Relações Exteriores, que chegou a sugerir que as mudanças climáticas seriam falácias sustentadas por ideias “marxistas e globalistas”; na mesma linha, o ministro do meio ambiente, Ricardo Salles, se juntou a Bolsonaro para desmoralizar e acusar o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e seu ex-diretor, Ricardo Galvão, de “manipulação ideológica” dos dados de desmatamento; em outra oportunidade, o então ministro da Cidadania, Osmar Terra, afirmou não confiar nas pesquisas da Fiocruz, uma vez que seus resultados científicos seriam fruto de um “viés ideológico” da instituição.

O avanço da pandemia de Coronavirus (COVID-19) no país trouxe novamente à tona o anticientificismo bolsonarista: no dia 10 de abril, cinco dias antes das manifestações marcadas por seus apoiadores, o presidente afirmou, sem qualquer tipo de embasamento técnico, que a moléstia não seria “isso tudo”, tratando-se muito mais de uma “fantasia” propagada pelos veículos da imprensa. Por ironia do destino, logo em sequência precisou se submeter a exames para confirmar se havia ou não contraído a doença, utilizando máscara em suas aparições públicas.

Com a proximidade das manifestações de domingo, as autoridades de saúde passaram a alertar sobre os riscos de disseminação da doença através de grandes aglomerações, recomendação que chegou a contar até mesmo com uma tímida adesão de Bolsonaro, que sugeriu o adiamento da mobilização. Porém, diante de tanta reverberação dos ataques à Ciência, as recomendações se restaram inúteis. Os inconsequentes apoiadores mais radicais, sem qualquer razoabilidade, logo subiram a hashtag #DesculpeJairMasEuVou nas redes sociais.

Se não bastasse o desserviço em relação a propagação do Coronavirus, os manifestantes ainda concentraram suas pautas em ataques ao Estado Democrático de Direito, conclamando pelo fim do Supremo Tribunal Federal, pelo fechamento do congresso, pela intervenção militar constitucional (sic) e pela volta do AI-5. Tamanha irracionalidade acabou, ao fim, por encorajar Bolsonaro a comparecer e apoiar a mobilização ocorrida em Brasília, contrariando as orientações médicas recebidas por ele (que deveria permanecer em isolamento).

Ainda assim, as coisas não pararam por aí. O líder religioso e notório apoiador do governo, Edir Macedo, publicou um vídeo afirmando que o Coronavirus é “inofensivo”, “não causa preocupação” e que o “alarde criado pela imprensa mundial visa levar o pânico a populações e nações”. Informações que, vale lembrar, foram disseminadas para uma enorme legião de fiéis seguidores, deslegitimando ainda mais as recomendações de combate à grave pandemia.

Se o anticientificismo já é perigoso em “condições normais”, certamente será devastador e implacável nos atuais tempos “de cólera”. Mais do que nunca, é hora de se defender a Ciência e as instituições democráticas. É uma questão de vida ou morte. Literalmente.

Por Guilherme Lima e Silva, advogado, mestrando em Direito Político e Econômico pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e pós-graduando em Direito Econômico pela Universidade de São Paulo – USP.

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