Existe lugar para o Antipetismo na luta de classes brasileira?

Segundo a pesquisa DataFolha de 20 de setembro de 2018, a taxa de rejeição aos presidenciáveis entre a população preta e indígena brasileira se expressava em dois extremos: respectivamente 53% e 47% rejeitam Bolsonaro, a mais alta rejeição; 21% e 20% rejeitam Fernando Haddad. Entre a população branca, Haddad é o mais rejeitado com 37%, enquanto o que figura com menor rejeição, Ciro Gomes, leva 23%.

Outro dado que ratifica os números acima é a crescente rejeição de Haddad entre a população de renda maior que 10 salários mínimos, chegando entre estes a 54%. Enquanto que a taxa de rejeição entre a população com renda de até 2 salários mínimos mostra Jair Bolsonaro com a maior rejeição, 48% e Haddad com 20%.

Em 13 de março de 2016, no ápice das mobilizações pró-Impeachment da presidenta Dilma Roussef, que inauguravam a materialização do antipetismo, os dados dos atos convergiam com o que vemos atualmente nas pesquisas presidenciais.

Ainda segundo o DataFolha, o perfil do manifestante que bradava na Avenida Paulista pelo impeachment tinha escolaridade e renda maior que a da população paulistana média. 26% dos presentes detinham uma renda entre 5 a 10 salários mínimos e 24%, 10 a 20 salários mínimos. 77% tinha ensino superior, sendo que o índice do município era de 28%.

Diante disto, é simplesmente inegável que o “petismo” se tornou a síntese de um dos pólos do conflito permanente de classes em que vivemos no capitalismo brasileiro.

Claro que é possível existirem outros conceitos para o antipetismo, entretanto o que tomou a hegemonia ideológica atual foi a síntese acima relatada.

É claro também que é possível, nos rincões do amplo espectro da esquerda sem qualquer capilaridade ou incidência considerável, entender o antipetismo como o estrito contrário do PT denunciado como neoliberal. Todavia, nas ruas definitivamente não é esta a crítica e o ideário que o perpassa.

O antipetismo hegemônico, aquele que realmente tem dimensão para importar e preocupar, é o antipetismo da classe média e da elite que não suporta uma condição material que viabilize o Presidente metalúrgico, a 1a Presidenta mulher, dividir o aeroporto com o porteiro e a sala de aula da universidade com a filha preta da empregada. É aquele que articula no discurso e no agir odioso a reação a um ensaio de libertação das mais viscerais contradições da formação social brasileira: raça, classe e gênero.

A classe média é categoria controversa em todo o vasto debate e produção econômico-sociológica, mas partindo aqui de um referencial materialista histórico, é também inegável que ao bradar contra governos populares o grito da elite, ela reproduz a tônica da hegemonia ideológica do antipetismo, tornando-se também vetor no conflito de classe.

Para se analisar o antipetismo como fenômeno apartado da inegável perspectiva de classe e raça que o permeia é necessário um malabarismo analítico, político e teórico admirável, mas insuficiente. A realidade fala mais alto.

Para além do exposto, é crucial compreender a gênese do Partido dos Trabalhadores que se dá na virada dos anos 70 para os anos 80 como fruto das lutas sindicais (com o surgimento do “novo sindicalismo”), da luta contra a ditadura, dos movimentos urbanos surgidos na década de 70, setores progressistas da Igreja Católica (CEB’s), setores da intelectualidade e da classe política; e de alguns grupos já organizados na esquerda.

Assim, o PT já nasce rompendo com modelos partidários existentes, tanto no período ditatorial (bipartidarismo MDB e ARENA), como com o modelo partidário anterior, procurando uma nova relação entre as bases sociais e o partido, optando pelo caminho da construção de um partido popular e de massas.

Por ser um partido que se forja na luta (contra a ditadura, sindical, agrárias, urbanas etc), concomitantemente a ele nascem a CUT (Central Única dos Trabalhadores em 1983), o MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra em 1984) e tantos outros movimentos, ligados umbilicalmente ao Partido dos Trabalhadores.

Deste momento, de nascimento do PT e dos movimentos sociais urbanos, rurais e sindicais, tem-se que nas décadas de 80 e 90, esta última com o ascenso do neoliberalismo no Brasil, se organizou a resistência a tais marcos com um programa anti-imperialista e de confrontação com a lógica neoliberal e desmontes feitos em nosso país, consolidando o chamado Campo Popular.

Considerando tal histórico, é claro que no imaginário brasileiro o PT guarda permanente identidade com sua história, mesmo após sua pública opção pela disputa institucionalizada o Campo Popular continua sendo seu alicerce e participando da disputa do projeto popular, tanto no método quanto no mérito. Assim se gera a identificação por grande parte da população do Partido com as lutas empreendidas neste período, mesmo quando não encabeçadas diretamente por ele, vinculando a imagem do PT à da luta sindical, da reforma agrária e dos movimentos campesinos e urbanos.

Em que pese os erros e contradições apresentadas e enfrentadas pelo Partido dos Trabalhadores desde o fim da década de 90 e que se acentuaram no período dos governos Lula (2003-2010) e Dilma (2011-2016), é inegável que há a vinculação por boa parte tanto da classe média, quanto das classes dominantes, da imagem do PT com o dos movimentos sociais indicados, bem como com suas lutas (dos movimentos) e sua base social.

Mesmo com o afastamento do Partido dos Trabalhadores de sua base social e, muitas vezes, até dos movimentos sociais, durante os governos Lula e Dilma, o antipetismo não só enxerga o PT como representante de tais grupos sociais (movimentos sociais, sindicatos, trabalhadoras e trabalhadores organizados ou não, etc.), como estabelece o partido como alvo principal de seus ataques na busca de feri-los de morte.

Apesar de as críticas aos erros e contradições do Partido dos Trabalhadores e de seus governos (Lula e Dilma) serem muitas, tanto quanto válidas e necessárias, o Antipetismo não se refere a elas.
Os ataques, provenientes de um perfil homogêneo de classe, criticam e criminalizam toda e qualquer forma de ação das classes trabalhadoras, organizadas ou não, e buscam impedir e atacar as lutas e conquistas, sejam elas institucionais, populares e/ou de massas de todo um campo que representa e constrói um projeto muito mais amplo de política e sociedade do que é possível se notar em um bater de olhos.

O projeto popular-democrático da articulação da política institucional com a luta popular e dos saberes populares de milhares de brasileiras e brasileiros, que há tanto vêm se sacrificando pelo projeto do e pelo povo, é o que difere radicalmente a experiência petista e causa tanta repulsa a tantos setores, presumidos ou não.

Por Beatriz de Santana Prates, Calebe Louback Paranhos e Melissa Cambuhy.

 

Referências:

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-33002010000300006

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-62762007000200003

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/03/1749640-protesto-cresce-mas-manifestante-mantem-perfil-de-alta-renda.shtml

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