A força eleitoral de Bolsonaro é a antipolítica e não tanto o bolsonarismo

Diante da tragédia, muitos se perguntam: de quem é a culpa? Quem é ou quais são os responsáveis? O que deu errado? São questões que nos remetem a uma aparente situação de desespero, mas também à necessidade intrinsecamente humana de buscar respostas. E antes de buscar culpados, que existem e são muitos, sugiro começar a compreender o que se passou e se passa no pleito presidencial de 2018, pois entendê-lo melhor, para além da histeria, nos permitirá agir com correção no trato com esse perigo autoritário da candidatura do Bolsonaro que coloca em risco nossa jovem democracia, instituições e a República. É um exercício que temos de fazer.

No entanto, não pretendo aqui neste texto abordá-lo em todas suas dimensões e complexidade, especialmente em relação ao bolsonarismo, movimento protofascista tupiniquim que tem em Jair Bolsonaro, capitão da reserva e deputado, 63 anos, seu líder e inspiração, e que dialoga com vários elementos e heranças da nossa História e com tristes ventos do nosso tempo. Isso exigiria um trabalho de fôlego que em poucas linhas seria um tanto difícil de executar. Mas é possível apontar algumas questões mais pontuais e centrais da tática eleitoral da candidatura de Bolsonaro e a partir das quais enxergar o porquê do seu êxito, a sua enorme adesão popular – foram pouco mais de 49 milhões de votos no primeiro turno – e flagrantes debilidades.

O aspecto principal dessa tática que alavancou o candidato do nanico PSL foi se colocar como principal representante da antipolítica e da mudança. A antipolítica é um traço fundamental do antipetismo, hoje a grande força política mobilizadora do País, no entanto ela perpassa vários setores da sociedade de maneira distinta, de forma não-orgânica, se expressando pelo sentimento generalizado de descrença na política, nos políticos, nos partidos e instituições (E em relação ao quê a operação Lava-Jato tem papel importante. Recomendo meu texto “Lava-Jato como expressão da antipolítica”).  Isso é algo que chega com grande força em quase todas as camadas da população – também entre a classe trabalhadora –, o que permitiu que o Bolsonaro e algumas idéias bolsonaristas, a princípio uma alternativa apenas do antipetismo autoritário, que é fundamentalmente um fenômeno de classe média, chegassem também com força entre setores populares.

Foi nesse movimento tático,  conectando-se por meio da negação da política, que a candidatura do PSL conseguiu algo que provavelmente os estrategistas de campanha petistas não contavam: pegar parte dos votos que eram de Lula e a um só golpe crescer e impedir a transferência de votos de Lula para Haddad. Bolsonaro ganhou em todas as regiões, exceto no Nordeste, onde foi segundo. É um desempenho absolutamente extraordinário e que não pode ser explicado apenas pelo antipetismo ou pelo bolsonarismo. Vai além. Mostra uma conexão com algo maior, e esse algo é a antipolítica e o desejo de mudança. E nisso há coisas ruins, porque delas pode-se praticamente concluir que dificilmente ele não será eleito, e boas, já que isso mostra que há fragilidades importantes a serem exploradas no futuro.

Ao apresentar-se como símbolo da mudança (e até mesmo em relação ao espírito anímico, exalando uma certa esperança que o campo progressista não encontrou equivalente igual em Haddad, mas apenas em Ciro Gomes) num cenário de pasmaceira geral, com nível elevado de desemprego, com baixo crescimento econômico, violência galopante, presidente altamente rejeitado e crise das instituições republicanas, Bolsonaro se colocou como grande favorito na corrida presidencial. Contudo é equivocado crer que a vitória de Bolsonaro é uma vitória completa do bolsonarismo e de tudo que ele representa, sendo assim uma carta em branco para governar. As bases da vitória de Bolsonaro são frágeis. E não é difícil notar o porquê.

Em primeiro lugar ele está a se eleger calcado em um sentimento de negação, a negação da política da qual ele sempre fez parte. É basicamente por um erro das outras campanhas e um acerto crucial da sua que muitas pessoas compraram erroneamente a ideia de que ele se trata de um outsider. Mas mesmo assim, permaneça esse equívoco ou não até o dia 28 próximo, ele será considerado um estranho no ninho até finalmente ser associado e visto a fazer parte dele. É o que fatalmente acontecerá caso assuma a Presidência.

Por ser fruto de uma negação, tanto da política quanto do PT, Bolsonaro ainda não se viu na posição de ter que propor qualquer coisa. Ademais, tem se negado a fazê-lo e tem silenciado tanto o general Hamilton Mourão, seu vice, quanto Paulo Guedes, seu economista, quando esses tentam falar sobre seu plano de governo e idéias para uma possível gestão. O eleitorado que comprou sua candidatura pode eventualmente tolerar tais coisas até sua eleição, mas dificilmente abraçará essa irresponsabilidade quando notar que precisa saber para onde o País vai. E ao saber de suas concepções, muitas das quais antipopulares ou mesmo confusas e desorientadas, é muito provável que parcela enorme da população que comprou a candidatura, mas não o bolsonarismo, venha a rejeitar seu governo.

E ainda há o fato de que os 49 milhões de votos que Bolsonaro recebeu representam praticamente 33% do eleitorado, que na sua totalidade é de 149 milhões. Ele se eleito será presidente apoiado por 1/3 do país, o que é pouco. E mais: com índice de rejeição recorde, o que só deverá aumentar daqui até janeiro – e mais ainda depois.

Enfim, a vitória de Bolsonaro é o prenúncio de um governo ruim, desorientado e com pouco apelo popular. Em miúdos, um absoluto desastre. Vai restar-lhe o bolsonarismo protofascista para agir como tropa de choque de sustentação. Separar o nosso bom povo, que por agora comprou o discurso eleitoral da candidatura Bolsonaro, dos fascistas, que defendem uma plataforma autoritária e são parte orgânica do apoio a seu plano de governo, é fundamental para que possamos salvaguardar a democracia e nos opor a seu futuro governo reacionário.

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