Após resistir por mais de 24h dentro de sindicato, Lula sai nos braços do povo para ser preso

Na quinta-feira, 5 de abril, o juiz da Lava Jato, Sérgio Moro, ordenou que Lula se entregasse na Polícia Federal de Curitiba na sexta-feira, 6 de abril, até as 17h00. Lula não se entregou.

Na quinta, o presidente estava no Instituto Lula, recebendo lideranças e políticos para conversar sobre a situação de sua prisão que se agravava devido a denegação do habeas corpus preventivo impetrado no STF na quarta, 4 de abril. A ordem de prisão de Moro saiu em menos de 24h após a decisão do Supremo e foi autorizada pelo TRF-4 antes mesmo do fim dos recursos ainda no próprio tribunal.

A partir desse momento toda a nação brasileira voltou sua atenção para os movimentos do presidente Lula, um clima de tensão se instalou em todo o país. Lula saiu do Instituto que leva seu nome e se dirigiu para o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC em São Bernardo do Campo, onde ele iniciou sua trajetória política como o mais importante sindicalista da história do Brasil, e onde também havia sido preso há quase 40 anos atrás pela Ditadura Militar.

Já na noite de quinta, trabalhadores, militantes e lideranças da esquerda brasileira começaram a se dirigir ao sindicato e iniciaram uma vigília de resistência em defesa de Lula, que dormiu entrincheirado no sindicato protegido por milhares de trabalhadores.

Sindicato dos Metalúrgicos do ABC cercado pelos trabalhadores contra a prisão de Lula
Foto: Ricardo Stuckert

O Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, fruto das conquistas da Revolução de 1930, da industrialização, da Consolidação das Leis do Trabalho, do crescimento do sindicalismo brasileiro, que culmina nas grandes greves de 1978/79/80, este palco crucial da luta de classes no Brasil, amanheceu cercado pelos trabalhadores vestidos na cor vermelha. Ao longo do dia, as ruas no entorno do sindicato foram enchendo enquanto as lideranças dos movimentos sociais, dos sindicatos e dos partidos políticos se revezavam falando no carro de som, os trabalhadores no chão gritavam palavras de ordem de resistência contra a prisão de Lula.

Dentro do sindicato, o clima era ainda mais tenso. No terceiro andar ficava a grande mídia oligopolista cercada por militantes que gritavam: “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo!”. O segundo andar era o coração da trincheira de Lula. O acesso era restrito e muito protegido pelos metalúrgicos. O presidente ficava transitando entre salas com sua família, advogados e lideranças políticas. O primeiro andar e o térreo estavam tomados de militantes que dormiram lá em vigília.

Resistência popular contra a prisão de Lula Foto: Luiz Roque Miranda Cardia
Resistência popular contra a prisão de Lula
Foto: Luiz Roque Miranda Cardia

Logo pela manhã da sexta-feira ficou claro que Lula não iria para Curitiba, e a dúvida era se se entregaria em São Paulo ou se resistiria à prisão aguardando que a Polícia Federal tentasse prendê-lo dentro do sindicato. As horas foram passando, e as manifestações nas ruas aumentando. Os movimentos sociais e sindicais trancaram dezenas de rodovias por todo o país, houve atos em centenas de cidades contra a prisão de Lula. Enquanto isso, iniciou-se uma complicadíssima negociação entre os advogados de Lula e a Polícia Federal.

As autoridades anunciaram que não haveria invasão em nenhuma hipótese, mas que Lula seria responsabilizado se não se entregasse, possivelmente com a decretação de uma prisão preventiva que não tem prazo e contra a qual um HC não surtiria efeito, mesmo que o STF reverta a jurisprudência sobre a prisão após condenação em segunda instância, voltando à constitucionalidade processual penal perdida em 2016.

Gleisi Hoffman, presidente do PT, fala na manifestação em resistência à prisão de Lula na sexta-feira, dia 6 de abril
Foto: Luiz Roque Miranda Cardia

Após as 17h00, limite da ordem de prisão de Moro, e sem notícias de que o presidente sairia do sindicato, os manifestantes comemoraram e aumentou a comoção por todo o Brasil. Lula estava resistindo ao arbítrio. Foi anunciado que haveria uma missa em homenagem à Dona Marisa Letícia, que completaria 68 anos no sábado, dia 7 de abril, e Lula participaria. Não havia certeza ainda se ele se entregaria após a missa.

Novamente no sábado, dia 7 de abril, o Sindicado dos Metalúrgicos do ABC amanheceu cercado pelo povo, convertido efetivamente na trincheira física da luta de classes no Brasil. A missa para Dona Marisa estava marcada para 9h30, mas começou efetivamente por volta de 11h00.

O Bispo Dom Angélico Sândalo Bernardino da Igreja Católica comandou o evento no carro de som, e iniciou dizendo que não seria uma missa, mas uma celebração ecumênica à vida de Dona Marisa com a presença de representantes de várias religiões. Gilberto Carvalho leu uma carta de Frei Betto em homenagem à Dona Marisa, e a presidente Dilma leu uma oração de São Francisco de Assis. A celebração também foi marcada por um ato cultural realizado por artistas que cantaram diversas músicas que Dona Marisa gostava, como Asa Branca e Deixa a Vida Me Levar.

Lula e Dom Angélico na celebração ecumênica para Dona Marisa antes da prisão de Lula no Sindicato dos Metalúrgicos Foto: Luiz Roque Miranda Cardia
Lula e Dom Angélico na celebração ecumênica para Dona Marisa antes da prisão de Lula no Sindicato dos Metalúrgicos
Foto: Luiz Roque Miranda Cardia

Durante a celebração, Dom Angélico disse que o impeachment da presidente Dilma foi a primeira parte de um golpe, e a segunda parte era a prisão de Lula, e que se dependesse dele, Lula não se entregaria, e terminou aconselhando o presidente a cuidar da saúde.

Ao final, o momento mais esperado, Lula ia falar pela primeira vez após ter sua prisão decretada. O presidente falou por quase 1 hora. Defendeu seu legado na Presidência da República que acabou com a fome no Brasil, aumentou a renda da população pobre, e criou oportunidades na educação através dos programas sociais. Apontou as mentiras da Polícia Federal, do Ministério Público, e dos juízes, e disse que quem quiser fazer política deve se filiar a um partido político para disputar eleições e não usar a toga para isso. Falou sobre a Globo e as grandes mídias que detém o monopólio da comunicação no Brasil e utilizam esse poder para destruir reputações, condenar sem provas e dar golpes de estado.

Lula, o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos durante as grandes greves do ABC na Ditadura Militar, lembrou dessa época e de sua prisão pelo DOPS em 1980, quando realizou uma greve de fome e não cedeu às pressões para encerrar a greve dos metalúrgicos.

Lula discursa no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC em ato contra sua prisão no dia 7 de abril de 2018 Foto: Luiz Roque Miranda Cardia
Lula discursa no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC em ato contra sua prisão no dia 7 de abril de 2018
Foto: Luiz Roque Miranda Cardia

O presidente disse que foi aconselhado a se exilar no Uruguai ou em alguma embaixada, mas que não o faria pois não tinha mais idade para isso e que a cada dia que ficasse preso a resistência popular ia aumentar. O presidente encerrou sua fala dizendo que ia se entregar, pois não tinha medo de ser preso, disse que iria enfrentar seus algozes de cabeça erguida e que suas ideias continuariam andando pelo país pelas pernas dos militantes.

Lula desceu do carro de som nos braços do povo e foi levado de volta para dentro do sindicato aos gritos de “Não se entrega!” e “Lula, guerreiro, do povo brasileiro!”.

Lula volta para dentro do Sindicato dos Metalúrgicos nos braços do povo
Lula volta para dentro do Sindicato dos Metalúrgicos nos braços do povo
Foto: Ricardo Stuckert

A negociação com a Polícia Federal demonstrou muita força política de Lula que através da mobilização no Sindicato dos Metalúrgicos e em todo o Brasil, impôs os seus termos para o desfecho do impasse, frustrando toda a grande mídia que esperava uma submissão humilhante para um preso comum ou uma ação espetaculosa da Polícia Federal. Nada disso. Ele iria almoçar com a família dentro do sindicato e se entregaria na sede da Polícia Federal em São Paulo e não em Curitiba como queria Sérgio Moro.

No entanto, no horário combinado, Lula tentou sair do sindicato em um carro para se dirigir para a sede da Polícia Federal, mas a militância não deixou. Bloquearam os portões do estacionamento do sindicato e impediram o presidente de se entregar. A presidente do PT, Gleisi Hoffman, teve que subir no carro de som e pedir para os manifestantes deixarem o presidente sair. Após cerca de 1 hora de impasse, finalmente o presidente saiu a pé no meio da multidão protegido pelos metalúrgicos do ABC e entrou numa viatura descaracterizada da Polícia Federal, acompanhado de seu advogado Cristiano Zanin, em direção à sede da Polícia Federal em São Paulo. De lá, o presidente foi de helicóptero para o aeroporto de Congonhas, e chegou de avião militar em Curitiba, para só então ser levado de helicóptero à Polícia Federal do Paraná.

Apesar da ordem de Moro para que Lula se entregasse em Curitiba na sexta, e da histeria da grande mídia diante da resistência de Lula, os carrascos tiveram que ir buscar de forma discreta e negociada o presidente Lula dentro da trincheira política onde ele começou toda sua trajetória.

Lula não é um preso comum. Lula é um preso político. No sábado, dia 7 de abril de 2018, o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC na década de 1970 e Presidente da República de 2003 a 2010 saiu nos braços do povo de dentro do sindicato mais importante da história do Brasil para ir preso injustamente, exatamente como há quase 40 anos atrás. A história se repete como farsa, mas se repete.

Lula nos braços do povo em foto histórica de Francisco Proner Ramos
Lula nos braços do povo em foto histórica de Francisco Proner Ramos

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