Armadilhas da disputa eleitoral e mobilidade

Por Leandro PC Freire – Há anos, pessoas envolvidas com mobilidade urbana tentam construir alternativas para engarrafamentos, má qualidade de vida, saúde e poluição nas grandes cidades. A construção de ciclovias, ciclofaixas e ciclorrotas em São Paulo aumentou o clima de disputa do espaço público entre os carros e as bicicletas, muito por conta da ocupação desse espaço pelas bikes, até então muito pouco vistas, embora muito usadas.

Tudo isso gerou um clima político acirrado e propício para gerar likes dentro da conjuntura política do nós contra eles que domina todo o cenário político nacional. Parece claro, para quem pensa política pública e lida com dados da realidade, que setores partidários cada vez mais apostem na pós verdade para colher frutos dessa disputa. Jogar pechas, fechar quadrados e lacrar são as palavras ouvidas nos bastidores das empresas de comunicação por trás de algumas campanhas. Não importa muito o que foi feito, mas o que as pessoas querem ouvir, condicionada as regras das redes e ao surrealismo dos likes. Por isso, estamos passando por uma eleição recheada de novas formas de comunicação que dá mais do mesmo aos de sempre, mas com os mesmos métodos que já se mostraram perniciosos para quem quer mudar o Brasil de verdade.

A pandemia deu a propulsão que faltava na pauta da mobilidade, pois diversas cidades pelo mundo se reestruturaram para abarcar as bicicletas como resposta sanitária e de melhora de índices gerais de saúde e qualidade de vida. Aqui em São Paulo, não. As ciclofaixas de lazer ficaram meses inoperantes e a Av. Paulista voltou a ter carros circulando aos domingos e no mês eleitoral, ciclofaixas mal feitas foram instaladas. Antes tarde do que nunca, mas problemático como sempre.

Porém, a aproximação das eleições fez com que muitos candidatos apostassem em ligar seus nomes ao pessoal saudável que usa bike como meio de transporte, para lazer ou esporte. Quase todos os candidatos fizeram passeios ciclísticos. Os que eram notoriamente contrários, repensam, e até posam ao lado de uma ciclovia ou uma pessoa do pedal. Um avanço e tanto para uma pauta que ainda disputa espaço com um ideal de que ter uma automóvel é sinal de status. Tem muita gente que sofre para pagar prestações de carro e por isso valoriza suas conquistas pessoais, acaba esquecendo do coletivo na cidade. Mas como toda disputa, devemos aprender a ensinar e a convencer, e não
colocá-los do outro lado da bolha.

ONGs e coletivos se organizaram para as eleições com sites de mobilidade para adesão pública de candidatos e documentos de compromisso para quem quiser se comprometer.

No âmbito do campo mais progressista, temos um ex-secretário de transportes, o Jilmar Tatto do PT, que usou todo o conhecimento retirado da sua gestão em transportes para colocar mobilidade como principal bandeira de campanha. Uso do legítimo do que adquiriu quando secretário de transportes mas muito questionável quando se sabe que o aparelhamento de entidades, espaços públicos e instituições partidárias são a tônica desse grupo chamado, internamente no seu partido, de Tattolândia (em referência às suas bases eleitorais que, dizem as más e boas línguas, não se pode nem chegar perto, sob pena de sofrer danos a incolumidade física e psicológica de quem tente tal façanha). Os bairros onde imperam as Tattolândias são exclusivamente destinadas ao clã familiar que ocupa vereança, Assembleia Legislativa e Câmara Federal.

Já o PDT produziu uma série de debates e palestras sobre o tema com especialistas e filiados ativistas e inseriu a pauta na sua ampla formação de candidatos. Aliou-se com Márcio França (PSB) para chapa de prefeitura. Ele que, sabidamente para os ciclistas ativistas, contribuiu com os movimentos, na questão da rota Marcia Prado (que liga a capital ao litoral sul), além de assinar a lei para que as rodovias estaduais tenham locais seguros para deslocamento dos ciclistas entre cidades, ainda não implementada pela atual gestão Doria. Nenhum ciclista tomou bomba na cabeça por querer descer a Imigrantes. O programa de Márcio tem expresso os princípios da mobilidade e seu histórico é de apoio aos movimentos.

Ainda nesse campo, temos o PSOL, com o candidato Boulos, que tem uma clara linha política de se disputar a referência do que se autoproclama de “ser de esquerda”, ligando seu nome ao ex-presidente Lula sempre que pôde. Nessa eleição, buscando se mostrar como alternativa viável no seu campo, usa a memória do passado raiz do petismo mas sem o ônus de ser petista.

Quanto a pauta de mobilidade, por ter essa estratégia eleitoral de disputa da hegemonia do que é “ser de esquerda”, busca, a todo o custo, ter alguma representatividade nessa área, já que não possui nenhum projeto realizado, nem vereador do partido que entenda de mobilidade ou se proponha a defender diretamente a causa. Estava desesperado para produzir um contraponto ao petista que pudesse chamar de “vindo do movimento social”.

Mais que isso, a campanha de Boulos, sem saber do que se trata a mobilidade, já fez propaganda do seu veículo celta. Num misto de buscar as referências das pessoas que conseguiram e valorizam o status de ter automóvel, com o no estilo Mujica de desprendimento material, tipicamente valorizado pela da classe média intelectualizada que delira ao ver uma pessoa pública usando um carro velho, mas mantém o seu sempre novo: “As crianças precisam de espaço!”. Em uma só tacada dialogou com os mais radicais “carrocratas” e os mitos típicos da bolha de “esquerda de verdade”. Deixando uma pulga atrás da orelha de quem milita na mobilidade.

Lembremos que Boulos venceu as prévias no PSOL em disputa direta com o grupo da Deputada Sâmia Bonfim. Para ter êxito, aliou-se ao grupo do deputado Ivan Valente que, há muitos anos têm, na disputa de hegemonia, seu método mais arraigado. Para isso, acordou com outra deputada, a Luiza Erundina, a fim de garantir votos daqueles que saudosamente lembram da primeira gestão petista na capital. Aquela mesma gestão que fez com que o PT aderisse de corpo e alma ao pacto da governabilidade e desse início ao o que o PT se transformou anos depois.

Mas a oportunidade de ter alguma coisa para falar na questão da mobilidade bateu em sua porta quando foi chamado por coletivos de mobilidade para conversas de adesão as propostas por eles formuladas. Visando responder a seu principal foco de disputa hoje, a candidatura de Tatto que cresceu recentemente, fez, literalmente um “copia e cola” das propostas dos coletivos em folderes para internet a fim de desmobilizar os ativistas ligados ao candidato petista.

Parece, mesmo, que não se trata de uma política séria, pois feitas as pressas e dias antes do pleito eleitoral. E não formulada ao longo do ano antes da eleição como fez Antonio Neto, vice de França, que também sentou e dialogou com os coletivos e produziu o mais bem elaborado programa através da fundação Leonel Brizola e Alberto Pasqualini, antes da eleição.

Tão pouco trata-se de uma nova forma de política de esquerda, pois desde o dia em que Márcio França interveio junto ao presidente para que doações de alimentos fossem levadas ao Líbano (terra ancestral da esposa de França) após o desastre que lá ocorreu, que a candidatura Boulos, o deputado Ivan Valente, entre outros, se esforçam para espalhar que França é Bolsonarista, tucano, o que mais puder garantir o afastamento de quem quer mudar o país.

A construção dessa narrativa no âmbito dos grupos de pedal não parou por aí. Toda intervenção de França sobre a pauta, a crítica correta sobre a forma de entrega da apressada e mal feita, da ciclovia da Av. Aricanduva, o contato de um vereador que não defendia ciclovias com o Márcio entre outras coisas, foram exploradas ao extremo para pregar a pecha de Bolsonarista e que a candidatura 40 é contra a mobilidade. Nada mais imaturo ou distópico, visto que a verdade é que Márcio França já fez muito pela mobilidade ativa quando estava a frente do governo do Estado. Em menos de 9 meses de mandato deu origem a possibilidade de travessias intermunicipais seguras nas rodovias. E essa história não pode ser esquecida sob a pressão constante de meias verdades em redes sociais.

Nada mais velho na “nova política”. A forma de fazer política da candidatura psolista, em tudo, demonstra que foi lição aprendida do petismo fisiológico. Agora, com toques gamers, de tiktoks, memória de uma esquerda que se autoafirma na oposição aos outros e, não, em um projeto nacional de desenvolvimento. Usando o máximo da pós-verdade possível. Repetindo o mantra contra Bolsonaro ligando todos e qualquer um a ele, caso dialogue com sua base. Tolo, valorativo sem respaldo em análise de conjuntura, para esse campo que está sendo construído, o bom é “ser esquerda a qualquer custo”.

Vale lembrá-los que estamos no Brasil onde “Delibitar o Estado como centro de decisões independentes dos conglomerados internacionais não significa, fortalecer a iniciativa privada; significa, sim, renunciar à formação de um sistema econômico nacional, isto é, um sistema de produção articulado em função do interesse da coletividade nacional”, como diria Celso Furtado.

Nada mais atual. O centro da disputa hoje nos países como o nosso não é ser de esquerda ou direita e, sim, ter projeto de desenvolvimento nacional ou ser quintal de quem o tenha. Desenvolvimento sustentável e mobilidade ativa só é possível se ultrapassarmos a dicotomia que está sendo pregada nas redes e nos apegarmos a uma causa que envolva mais brasileiros. Na atual polarização, qualquer celta é valorizado como forma de retorno às raízes da esquerda trabalhadora. O desenvolvimento sustentável e de longo prazo está em segundo ou terceiro plano, só é possível de ser implementado planamente dentro de um projeto de desenvolvimento nacional sustentável.

Aos movimentos sociais de mobilidade cabe fazer a análise dos campos partidários que se propõe ao dialogo e como o fazem. Ter clareza da disputa em que estão inseridos, para não servir de bucha de canhão para um candidato ou outro. Sempre defendo que a independência dos movimentos deve mover quem se mobiliza por uma causa e não escolhe a trincheira partidária para sua ação.

Ter a chave da razão ao seu lado é, também, fundamental para não se desgastar desnecessariamente. Quem mostra histórico de promoção da mobilidade e já fez algo pela causa sempre deve prevalecer sobre quem busca o método de criar narrativa baseada no que as bolhas querem ouvir.

A prática é o critério da verdade e a independência dos movimentos é o que dá credibilidade para a pauta. Caiu no canto da seria? Então, levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima. A crítica é construtiva e deve servir de exemplo para não repetirmos os erros do passado. Bom voto a tod@s!

Por Leandro PC Freire

1 Comentário

  • Tem dois pontos, especialmente, que eu discordo. A gestão Erundina foi maior que uma adesao ao pacto da governabilidade. Foi uma gestão de muita participação popular atraves dos conselhos e sub prefeituras. Outro ponto, a infeliz comparação da figura do grande Pepe Mujica, tomado aqui como caricatura.

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