Contra os ataques de Breno Altman ao trabalhismo

Para Breno Altman, como legítimo membro do Partido de Golbery, insultar Getúlio Vargas é dever de ofício. Quando o Feiticeiro na Casa Civil de Figueiredo aliviou para os petucanos nos anos 1980, sua intenção era clara: apartar as bases sindicais emergidas da hiperinflação do renascido trabalhismo com a volta do herdeiro do varguismo, Brizola.

O PT nasceu com essa missão. Não à toa Lula ia para a Polônia se encontrar com as lideranças do Solidariedade. Qualquer forma de organização de classe que não fosse “horizontal”, mimetizando a reificação burguesa, era tida como autoritária e totalitária. O petucanismo contém em sua medula um anticomunismo indisfarçável e junto a isso um anti-terceiro-mundismo de dar gosto ao Partido Democrata dos EUA.

A crítica ao populismo foi a expressão teórica do fenômeno petucano. Em sua raíz reside a ojeriza a formação de um Partido com p maiúsculo, a constituição de um sujeito coletivo que é classe para si. Um anti-leninismo evidente para qualquer militante razoavelmente formado. Seu horizonte prático é uma aglutinação de indivíduos que quando muito só pode aplicar um programa social-liberal de gestão da pobreza, nas palavras de Nildo Ouriques.

Daí a repulsa petucana à categoria de Nação. Porque encarar a classe tal como ela é, como concretude e não a abstração da soma de indivíduos, implica vê-la ancorada no espaço, determinada pelo imperialismo, particular da totalidade que é o capitalismo mundial. E não é possível fazê-lo com a miopia imediatista que caracteriza o pensamento individualista, que acredita piamente que ser de “esquerda” é realizar caridade como política pública, “empoderando” indivíduos e não vendo o modo de produção como um organismo que recobre todo o planeta.

Quando João Goulart propôs as Reformas de Base, apoiado por gigantes como Cibilis da Rocha Viana, Neiva Moreira, Celso Furtado e tantos outros, ele estava plenamente consciente de que o reposicionamento do Brasil na economia mundial é muito mais do que uma mera “política pública de combate a pobreza”. O último presidente do Brasil (depois dele, houve somente gestores do subdesenvolvimento) estava totalmente ciente de que qualquer transformação efetiva do país passava por sua reinserção soberana no capitalismo mundial. E essa mudança significativa em nosso país resultaria em uma reconfiguração do modo de produção no mundo todo.

Goulart sabia disso porque era herdeiro de Getúlio Vargas. O Pai da Nação tinha uma visão clara da importância do Brasil, ainda que numa ótica castilhista (que era sua expressão de terceiro mundismo, quiçá muito mais clara do que a visão que muitos marxistas supostamente ortodoxos tinham da América Latina em seu tempo e depois). Desde o Manifesto da Aliança Liberal ainda nos anos 1930 até sua Carta-Testamento, Getúlio tinha plena ciência de que a luta contra a espoliação do povo brasileiro é a luta por nossa soberania econômica . Essa é a razão de sua aproximação com Peron, a diplomacia altiva que arrancou importantes concessões dos EUA e a política externa independente.

E não só isso. Ao contrário dos petucanos, Getúlio tinha como horizonte estratégico a estruturação de um Partido. Moniz Bandeira narra as desventuras de Vargas até que finalmente funda nosso partido, ainda sobre a sigla PTB, em 1945. A construção do partido varguista assume a forma de uma crescente que não deixa alternativa para o imperialismo a não ser o golpe de 1964, conformando o trabalhismo como a consciência nacional do Brasil. É inescapável conjecturar qual teria sido o destino do trabalhismo se no lugar da traição das Forças Armadas houvesse ocorrido seu contrário: a consecução das Reformas de Base. Quem sabe o PTB não tivesse se convertido no Partido com P maiúsculo, semelhante as PCs da China, Cuba e Vietnã…

O petucanismo é o inverso simétrico do trabalhismo. No lugar de sujeito coletivo, a implosão da consciência de classe em subjetividades atomizadas pelas “identidades”. No lugar de partido, um amontoado de movimentos sem unidade. No lugar de Nação, os “pobres” como indivíduos. No lugar de um projeto de país, um horizonte mediocramente eleitoral e imediatista. Nunca houve nenhuma possibilidade de se converter em um Partido efetivamente. A retórica e prática lulistas sempre foram de um assistencialismo burguês, sem uma única referência didática aos verdadeiros problemas da Nação. Quando houve a possibilidade – ínfima, é verdade – de estruturação dos trabalhadores por meio dos Comitês do Bolsa Família, o PT rápida e facilmente abriu mão da única coisa que poderia ser central em seu projeto. Aliás, sempre fez isso, entregando o principal para assegurar o acessório em um falso pragmatismo que não passava de um imediatismo eleitoral. Nenhuma medida central de reinserção soberana do Brasil no mundo foi tomada. Pelo contrário, o tripé macroeconômico foi aprofundado e as privatizações de FHC, principalmente da Vale, garantidas. Isso sem falar no programa da CUT de implosão do sindicalismo, defendendo o fim da unicidade sindical e da contribuição sindical, agenda que foi implementada por Paulo Guedes, caminhando ainda mais em direção à fragmentação dos trabalhadores.

Não que o trabalhismo nunca tenha errado. Em “O que faltou para Leonel Brizola?” citamos amplamente um artigo “apócrifo” de Guerreiro Ramos e um de seus livros nos quais o pensador baiano ressalta as várias debilidades políticas do PTB clássico. O radicalismo cada vez mais retórico de Brizola depois da campanha da legalidade e os erros de Goulart – começando pelo engodo do parlamentarismo de Tancredo Neves – foram nossa fraqueza habilmente explorada pelos inimigos do Brasil.

Agora, comparar essas fraquezas no momento de maior luta popular e patriótica do país depois de 1930 com a covardia petucana em 2015 e 2016 é no mínimo um ultraje para o Brasil. Porque nossos erros foram derivados da vontade de luta, da plena consciência de nosso papel histórico. Não nos faltou patriotismo, desprendimento, disciplina, amor ao povo e compromisso com a classe trabalhadora. Não dá para comparar o Plano Trienal de Goulart com o austericídio de Levy. Se o Plano de Celso Furtado era um arremedo de política monetária restritiva com política fiscal expansionista, era porque efetivamente era a classe organizada pelo trabalhismo lutando contra os interesses da oligarquia imperialista. O petismo de Joaquim Levy era só a “jogada de toalha”, o completo abandono da luta.

E qual luta? Aquela iniciada por Palocci e pela Carta aos Brasileiros? As políticas de Milton Friedman de gestão da pobreza? A desastrosa política de subsídios da Dilma; isso era luta anti-imperialista?

Quando o golpe se avizinhava em 1964, o trabalhismo respondeu tentando articular uma ampla frente de combate, reorganizando o Grupo dos 11, apoiando greves gerais, radicalizando-se retoricamente – ainda que isso estivesse errado, como a história mostrou. Na beira do Golpe, cogitamos da resistência armada, que efetivamente foi conduzida pelo MNR comandado por Brizola no exílio, ainda que o caudilho tenha feito uma autocrítica dessa atuação depois. Goulart procurou compor uma Frente Ampla até com seus inimigos jurados em nome do Brasil.

E o que PT fez no golpe de 2016? Acovardou-se. Não houve uma única tentativa de resistência eficaz. No Parlamento, um jogo de cenas nojento no qual Dilma se satisfez em manter sua aposentadoria. Nas ruas, um vazio imenso. Como certa vez questionou Nildo, que líder latino-americano cai do Poder sem convocar o povo às ruas? Por que não descumpriram as medidas judiciais obviamente golpistas? Por que não ameaçaram implodir toda a República, mas defender a democracia? Quando o Planalto requisitou a televisão? Quando propôs um estado de sítio para prender os manifestantes “Maidan” que como em Belarus desestabilizavam o país? Para piorar, em 2018, em aliança tácita com o bolsonarismo, implodiu a candidatura popular e patriótica de Ciro Gomes, como ficou registrado em uma postagem icônica do próprio Breno Altman nas redes sociais.

Quais são as razões do PT para tudo isso? A verdade é que uma parcela imensa da cúpula do partido foi absorvida pelo establishment. São os José Eduardo Cardozo da vida que transitam com tranquilidade na mesma casta jurídica que gestou a Lava-Jato. É Guido Mantega e sua rasgação de seda para FHC. É a elite sindical paulista que se acomodou como aristocracia operária (no sentido dado por Lenin ao termo) junto as grandes transnacionais do ABC, ao serviço público e ao sistema bancário. É toda uma camada de ONGuistas e assessores que dependem do hegemonismo do partido sobre a esquerda para manter seus parcos empregos.

A verdade é que o PT sempre foi condizente com sua teoria. Enxergava a sociedade como um amontoado de indivíduos no qual as classes são só “grupos”. Consciência não passava de um identidade subjetiva e pessoal, cuja soma em paralelo resultaria em emancipação. Nada mais liberal, até a medula.

O mais interessante de toda essa história é que a campanha de Ciro Gomes reativou uma chama que estava até então quase perdida. As comemorações do dia 24 de agosto desse ano – data em que o líder máximo da Classe Trabalhadora Brasileira, Getúlio Vargas, saiu da vida e se tornou a história encarnada do país – são a cumulação de um longo movimento patriótico e popular e foram capazes de assustar a elite social-liberal. É sinal que estamos no caminho correto de recomposição da hegemonia na esquerda. O isolamento do petucanismo e as fissuras em seu bloco de alianças são o sinal indisfarçável de decadência dos alicerces fundados por Golbery.

É por isso que nós trabalhistas devemos nos orgulhar de sermos atacados por Breno Altman. Seu choro é sinal da fraqueza do petismo. Seus argumento produtos do liberalismo vulgar que compõe o PT. Sua comparação entre o PT e o PTB clássico uma mentira que mais revela o que ocorre com o próprio petucanismo.

Somos o fio da história que une Sepé Tiaraju, José Bonifácio, Luís Gama, Getúlio, Brizola, Neiva Moreira, Luís Carlos Prestes até Ciro Gomes e cada militante. Somos o patriotismo popular feito partido. Somos o trabalhismo.

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5 Comentários

  • Maravilhoso texto! Pra guardar nós favoritos e usar como um poderoso instrumento argumentativo.

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  • “Petucano” Essa é uma nova idiotice ainda não traduzida para aqueles com a cabeça em cima dos ombros e não dentro do intestino. Os jornalistas ou os que se pretendem como tal deveriam ser proibidos de escrever ou falar as primeiras idiotices que lhes vêem à mente

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  • É bem sintomático os ataques do Breno ao Trabalhismo. Afinal, é uma constatação que os
    corifeus do PT estão muito preocupados com o crescimento da candidatura do Ciro Gomes.

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  • Breno Altman é mais um petralha cego, iludido e teimoso na defesa do indefensável pai Lula e seu querido Partido Traidor – PT. Pra quem não sabe, ele é o dono de um braço do gabinete do ódio do PT, o “site” Opera Mundi.

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