Balanço de início de século: a necessidade da organização

Se há algum balanço a ser feito dessas duas primeiras décadas do século XXI para alguém comprometido com uma causa anti-capitalista é: precisamos de organização disciplinada e forte, para além dos movimentos de massa.

Vivemos movimentos gigantescos na Primavera Árabe que desembocaram em monstrengos, como ditadura militar no Egito, desintegração da Líbia numa guerra civil de tribos, com até escravidão no meio, o avanço do salafismo mais hediondo e bárbaro na guerra civil síria, etc.

Mas teve movimentos significativos no coração do capitalismo também: Occupy, os indignados espanhóis, as mobilizações gregas, etc.

No que foi resultar a partir de toda essa energia popular? Nas duas brochadas do Bernie Sanders? No fracasso desmoralizante do Syriza? Na recriação da social-democracia tradicional — com o agravante de não ter conseguido ainda chefiar um governo — do Podemos?

O que falar daquela maluquice que foi 2013? Um movimento com potencialidades enormes que foi a antessala temporal de um dos piores momentos da história política brasileira.

Onde mais a coisa avançou rolou uma apropriação (totalmente legítima e representativa) dos movimentos contestadores por algum líder carismático, tipo Chaves ou Evo, que tiveram que criar partidos e organizações mais fortes a partir do Estado, com todas as decorrências negativas advindas.

E esse neo-populismo — não estou falando pejorativamente, mas no sentido do conceito do Ernesto Laclau — latino-americano chegou em grandes impasses, provocados pelo golpismo cravado no DNA das nossas oligarquias e debilidades internas enormes, a começar pela principal delas: algo análogo a um eficaz corpo coletivo revolucionário.

Portanto, amigos, não vejo outra saída pra quem acredita que outro mundo é possível a não ser apostar na reconstrução da hipótese comunista que animou o século passado.

Sem ideias claras de um futuro alternativo e sem organização popular que circule entre os movimentos sociais mas não se confunda com eles, não há muita esperança.

É por este motivo que tenho problemas com esses intelectuais e figurinhas que cultuam o espontaneísmo das massas, a política sem organização e estrutura, os tons coloridos, quase carnavalescos, das “multitudes” ocupando as ruas de forma desorganizada e heterogênea.

Estamos em um momento semelhante ao do Marx nos anos 1840, de criar algo novo a partir da derrota e dos destroços de uma experiência revolucionária passada. Não é mera coincidência que tenhamos que enfrentar adversários internos parecidos ao socialismo utópico e ao anarquismo daquela época.

O Foucault tem uma profecia famosa: o século XXI será de Deleuze. Infelizmente isto até agora vem sendo verdade, pelo menos na política mais contestatória, o que não é nada bom, a despeito dos imensos méritos filosóficos do francês dos tubérculos.

Por Diogo Fagundes

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