Os banqueiros e a ofensiva burguesa

Ana Paula Vescovi é a economista chefe do Santander. O Banco acaba de divulgar seu estudo anual (Proposições macro para 2021) e a executiva não vacila no essencial.

Os recados são os seguintes:

a) os banqueiros querem a vacinação rápida.

Não foi por sensibilidade com o sofrimento alheio que Paulo Guedes há semanas afirma que a vacinação em massa é decisiva para a acumulação de capital.

b) os banqueiros autorizam um novo auxílio emergencial.

“Seria um novo auxilio temporário, de três até seis meses, com um público-alvo mais focalizado do que na primeira edição, e com renda menor, mais perto do Bolsa Família”

c) Há que manter a teto dos gastos:

“O teto de gastos permite a criação de exceções, que são os créditos extraordinários, para fazer frente a situações excepcionais tal como a pandemia”.

d) os juros devem subir a partir de maio.

e) o governo deve fazer um esforço para conter a despesa obrigatória permanente.

f) o Santander não conta com o agravamento da crise mundial.

Não há que tomar o documento do banco como se fosse, de fato, expressão da verdade histórica. No entanto, há suficiente informação e análise para indicar que os banqueiros atuam nessa direção e conduzem a coesão burguesa em completa unidade há muito tempo. A velha cantilena do reformismo rasteiro de buscar divisões em associações empresariais como expressão das “contradições burguesas” e, portanto, suposto terreno para uma frente ampla, recebe todos os dias uma negativa publicada na capa do jornalão burguês. Há poucas semanas todas as associações burguesas – entre as quais a Associação Brasileira de máquinas e equipamentos, que julgo a mais importante – assinaram um documento solicitando “reformas já”.

Nildo Ourique Os banqueiros e a ofensiva burguesa

Agora, no dia seguinte da eleição da câmara, o governo enviou 35 propostas de emenda constitucional ao covil de ladrões que atende pelo pomposo nome republicano de “congresso nacional”. Os novos líderes querem, em troca da aprovação, vacinação em massa e rápida e auxilio emergencial. Estão, portanto, afinados com os banqueiros, hegemônicos na coesão burguesa que nos governa desde 1994. A ofensiva burguesa está novamente em marcha.

A vitória acachapante do protofascista no eleição da câmara indicou a força do presidencialismo no Brasil. Ora, acostumada a rezar pela cartilha socialdemocrata (tucana) do “presidencialismo de coalisão”, a esquerda liberal dirigiu suas baterias carregadas com munição moral contra o “poder de cooptação” e o “balcão de negócios” praticado pelo governo para corromper deputados e senadores com emendas parlamentares orientadas a conquistas regionais nas eleições de 2022. A despeito do tiro de pólvora da “critica moralizante”, até mesmo o comentarista neófito pergunta “quando foi diferente” na história republicana?

A concepção parlamentarista orienta a cabeça da esquerda liberal, razão pela qual menospreza a força do presidencialismo no Brasil; a respeito, basta recordar que durante os 13 longos anos dos governos petistas o “presidencialismo de coalizão” foi adotado como se fosse virtude e jamais expressão da podridão da republica burguesa. Ainda hoje, tanto no episódio da eleição da mesa do covil de ladrões quanto na indicação das dificuldades que o protofascista enfrentará no futuro imediato, é comum ouvir nas filas da esquerda liberal que Bolsonaro – contrariando as promessas de campanha – sela um acordo com o “centrão” como se a prática fosse uma anomalia e não a regra dominante no parlamento!! Mas é impossível ignorar que até mesmo a “orientação pragmática” adotada pela “frente de esquerda” no parlamento como se esse fosse a única opção fracassou rotundamente! Até mesmo o PSOL – que acertadamente disputou com Erundina o primeiro turno da eleição – alimentava as mesma ilusões derivadas do “pragmatismo” quando indicava entrelinhas o voto no candidato de Maia no segundo turno como meio de “derrotar Bolsonaro”.

Nildo Ouriques Os banqueiros e a ofensiva burguesa
No es lo mismo pero es igual

De resto, no curto prazo, a vitória parlamentar assegurou o controle do impeachment no circulo de seu domínio e, ademais, indicou à coesão burguesa a facilidade de somar 302 votos, resultado muito próximo do mínimo legal exigido pela constituição para mudanças estruturais.

A pauta entregue pelo protofascista Bolsonaro aos parlamentares esta dividida entre “agenda econômica” e “agenda dos costumes”. É um lance bem pensado, uma vez mais.

Na real, a agenda de Bolsonaro enquadra os parlamentares na partitura da reeleição presidencial com a intenção de também assegurar à canalha parlamentar sua própria reeleição.

A julgar pelo comportamento atual, não tenho dúvidas do efeito devastador da “agenda dos costumes” na consciência ingênua que orienta a esquerda liberal, razão pela qual ensino doméstico, porte de armas, aumento de pena para abuso sexual em menores, pedofilia como crime hediondo, entre outros, permitirão que deputados e senadores afinados com o liberalismo de esquerda possam se pavonear no instagram e demais redes digitais com a intenção de garantir o voto de causas enquanto o liberalismo de direita avança ainda mais na “agenda econômica”, ou seja, no aprofundamento da dependência e do subdesenvolvimento. A imagem é clara: a esquerda liberal semeia o pluralismo e o direito à diferença em meio ao deserto eterno da pobreza e da exploração para as maiorias. Enfim, teremos o direito à diferença e à identidade no vale da lágrimas eterno da pobreza e a exploração de todos!

Por outro lado, a proposta dos banqueiros incluiu medidas que os keynesianos e liberais de esquerda julgam indispensáveis, tal como auxílio emergencial e vacinação em massa. É fácil imaginar o “combate” parlamentar nos marcos indicados pelos banqueiros e antecipar o circulo no qual a esquerda liberal vai “lutar” no parlamento por R$ 600 reais, enquanto o governo, provavelmente, mandará algo em torno de R$ 205 ou coisa semelhante.

Nildo Ouriques Os banqueiros e a ofensiva burguesa

A agenda econômica ultra liberal é, de fato, um programa para abrir totalmente a economia nacional ao capital externo garantindo um assalto a riqueza pública sem precedentes na história recente para as frações do capital nacional, além de sedimentar a possibilidade de reeleição do protofascista. A campanha de Bolsonaro, portanto, já começou e a burguesia avança como nunca, garantindo, em princípio, a estabilidade burguesa tal como anunciei na reunião do DN do PSOL de agosto do ano passado sem conseguir sensibilizar o partido (https://revolucaobrasileira.org/11/08/2020/a-estabilidade-burguesa-e-a-crise-brasileira/).

Ocorre que a esquerda liberal também acredita em parte considerável do programa dirigido por Guedes e os banqueiros. O comportamento parlamentar deverá, em consequência, atuar no sentido de mitigar os efeitos “mais nocivos” dos 26 projetos de lei entregues ontem aos novos “líderes” do covil de ladrões sem, contudo, romper sua lógica. Novas derrotas se avizinham, tudo indica.

A crise mundial, mesmo após as novas medidas de Biden nos Estados Unidos (1,9 trilhão), não indicam uma saída da crise. O cenário é turbulento e não estamos imunes a novos “choques externos” como gostam de afirmar aqui entre nós liberais de direita e esquerda. Mas é, de fato, difícil prever com precisão o futuro.

 

E o povo?

 

Bem, o povo amarga o desespero no abismo social caracterizado por enorme desemprego (superior a 20%), queda acentuada da renda, novo ciclo de endividamento das famílias, degradação dos serviços públicos e nenhuma garantia de luz no final do túnel. É combustível para explosões sociais, obviamente. No entanto, o cenário latino-americano indica que mesmo a queima do parlamento na Guatemala, os intensos protestos no Chile ou ainda a eleição polarizada no Equador, não tiram o sono das classes dominantes. Estamos diante de uma época em que o protesto popular pode até derrubar governos mas não toca uma molécula da disputa pelo poder.

Nildo Ouriques Os banqueiros e a ofensiva burguesa
Operários, Tarsila do Amaral, 1933

No Brasil, o aprofundamento da crise está revelando, finalmente, os limites intransponíveis da esquerda liberal, incapaz de sair do labirinto segundo o qual pensava-se ser possível atender aos interesses das maiorias nos marcos da ordem burguesa. Nesse contexto, a credibilidade social da esquerda liberal está também seriamente comprometida e não é excesso afirmar que ela também compartilha a mesma desconfiança com a qual o povo trata o político vulgar. A conjuntura ainda permitirá significativo espaço para o avanço de governos conservadores ou abertamente de direita como o nosso.

É claro que o auxilio emergencial – a filantropia até bem pouco tempo apresentada como instrumento decisivo de justiça social pela esquerda liberal – está destinado precisamente a conter as explosões sociais. A classe dominante seguirá no ritmo atual, aprovando medidas dessa natureza por períodos curtos e renovando com alguma parcimônia por outro tanto. Por isso mesmo, a popularidade do protofascista está garantida em alguma medida nas classes populares. E o dia de amanhã? As massas, nas atuais circunstâncias, vivem sob a angústia e o desespero do dia a dia e – a esquerda liberal – não foi capaz de produzir uma linha de atuação que desse conta de abrir uma brecha favorável no cenário.

É penoso reconhecer que a esquerda liberal ainda se move no labirinto de sua própria crise política. Portanto, o caminho para retomar a iniciativa política para a esquerda latino-americana em geral e, para a esquerda brasileira em particular, se insinua longo e vacilante. No entanto, a força da crise exige a cada mês maior definição, o abandono das causas particulares e o horizonte de uma proposta totalizante. Nesse contexto, nossa única possibilidade é assumir os riscos inerentes à revolução brasileira para a qual urge o abandono da luta por pequenas certezas que a conduziu para o beco sem saída em que se encontra. À esquerda, não bastará, certamente, atuar como espirito crítico das promessas burguesas não realizáveis num país dependente e subdesenvolvido ou ainda como mera reserva moral da república burguesa apodrecida. Agora, sob o impacto violento da crise mundial e da força expressa na mobilização da coesão burguesa em favor das reformas, é possível afirmar que o aumento da violência e a exploração das maiorias, próprias da lógica das situações extremas, já orienta o dominação burguesa sobre todos nós. Em consequência, é inadiável teorizar e praticar um novo radicalismo político somente possível mediante a ruptura com as ilusões que nos fizeram cativos daquela hegemonia.

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