Desistência de Barbosa: esquerda deve fazer Frente Ampla com o centro, não consigo mesma

O noticiário político está em polvorosa com a desistência da candidatura à presidência de Joaquim Barbosa. Cada semana traz um acontecimento novo que reconfigura todo o tabuleiro. A filiação dele no PSB fez Aldo Rebelo sair do partido. Agora seu anúncio precoce de não ser candidato faz explodirem as especulações de qual aliança o seu partido fará. A grande expectativa é a possibilidade de concretização de uma Frente Ampla de centro-esquerda em torno de Ciro Gomes.

No mesmo dia, Flávio Dino, governador do Maranhão pelo PCdoB, deu declaração contundente de que o PT, PCdoB e Psol, no impedimento da candidatura de Lula, devem apoiar Ciro, o candidato do PDT. Pouco depois, a pré-candidata do PCdoB, Manuela D’ávila, não apenas não desautorizou a declaração do seu companheiro de partido, como concorda que as diferenças com Ciro “são pequenas diante dos desafios do nosso país e de nosso campo”.

Além disso, matéria da Folha de São Paulo diz que o centro político, hoje liderado pelo presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, toparia um acordo com Ciro Gomes para forjar uma alternativa ao abraço dos afogados de Alckmin e Temer. Os três principais partidos que aglutinam esse centro sem o MDB são: o DEM, de Rodrigo Maia, o PP de Ciro Nogueira, e o PR que filiou o empresário Josué Alencar (que já foi abertamente cogitado por Ciro para ser seu vice), filho de José Alencar que foi vice de Lula.

Imediatamente se levantam acusações contra esses movimentos do PCdoB e do centro em direção a Ciro. São as mesmas acusações feitas contra as alianças que o PT fez durante os seus governos. Já defendi em outro momento que o problema do PT não foram as alianças, mas a falta de Projeto Nacional na economia e os erros na política perante as corporações judiciais. A questão das alianças é o que se negocia, mas ser contra a negociação de antemão é a pura negação da política.

É evidente que esses partidos, DEM, PP e PR, são conservadores, e até reacionários em algumas questões, mas não são em si neoliberais ou antinacionais. Nem mesmo o MDB o é. Não foi o MDB que nomeou Palocci e Henrique Meirelles (ele foi eleito deputado pelo PSDB em 2002, só se filiou ao MDB em 2018) nos governos Lula. O capital financeiro submete qualquer governo que não tenha força (ou projeto) para enfrentá-lo. Temer é um agente do “mercado” por determinações conjunturais. O centro não é em si a favor de ajuste fiscal, nem de reforma da previdência. Esses partidos gostam de orçamentos públicos gordos, com muito dinheiro para suas bases eleitorais nos grotões do Brasil pobre.

Brizola dizia que o PSDB era o partido entreguista, herdeiro da UDN, e que o PFL (atual DEM) era o herdeiro do PSD de Vargas, dos tenentes interventores e dos oligarcas decadentes. Antonio Carlos Magalhães não era um neoliberal ligado aos interesses dos EUA como os tucanos de alta plumagem. Na verdade, ACM cumpria justamente o papel de fazer a aliança com o Brasil profundo, o Brasil real, submetido ainda às oligarquias que dependem do orçamento público. O DEM é um partido nordestino e carioca (César Maia, pai do Rodrigo, foi braço direito do Brizola), e não uma agremiação cosmopolita como a elite intelectual da USP que forjou Fernando Henrique Cardoso.

Vou repetir: evidentemente, essas oligarquias não são a vanguarda que vai construir um Brasil mais justo. Elas lutam por uma economia concentradora de renda e autoritária. Mas o fato é que também não são representantes orgânicos dos interesses antinacionais do imperialismo e do capital financeiro. Claro que se aliam ao entreguismo em determinados momentos, e formam um bloco de poder conservador, no entanto, em outros momentos se aliaram a setores nacional-populares e ajudaram na Revolução de 30, na CLT, na industrialização, sempre lideradas pela força do populismo trabalhista. Getúlio Vargas fundou dois partidos, o PTB (atual PDT) e o PSD, que aliados mantinham a UDN (e os EUA) na oposição. Portanto, existem frações e complexidades nesses partidos conservadores do centro, simplesmente negar a possibilidade de negociar, e mais, de liderá-los, é puro sectarismo moralista.

Dessa forma, a construção de uma Frente Ampla, contra o avanço do Partido da Lava Jato e do imperialismo, é com o centro. Uma Frente da esquerda consigo mesma não altera a correlação de forças, não forma maioria na complexa sociedade brasileira, e sequer aponta contra as contradições principais da crise, que são o neoliberalismo e o autoritarismo judicial. Essas duas questões centrais não têm interdição no centro. Curiosamente, são setores da esquerda que fazem coro com a Globo e a República de Curitiba contra a política, sem perceber que esta, fruto do sufrágio universal, é o campo de batalha concreto, no momento, no qual podem se afirmar os interesses dos setores populares.

2 Comentários

Deixe uma resposta