BBB, isolamento e política: o que isso nos diz?

​Junto das panelas soando nas janelas de todo o país, que na atualidade promovem a comunhão de algumas socialites pensionistas do Estado, dentre outros privilegiados, e grupos de esquerda heterogêneos, vimos ontem a mobilização nacional, com também gritos histéricos, entorno da votação de eliminação do reality show da Globo, Big Brother Brasil, nas redes sociais, mas também em varandas gourmetizadas e pequenos vitrôs, com emblemas em comum entrelaçados que pareciam diminuir esse abismo social.

​Uns dizem que a grande adesão de mentes sãs e insanas, que somaram mais de bilhão de votos e deixou Boninho e Globo com mais esse saldo positivo sobre como se faz entretenimento e mídia para brasileiros, se deu em razão do confinamento em casa, não dos BBB’s, mas de todos nós. Fosse isso, o isolamento, outras reais necessidades coletivas, mais imperiosas que demandam mobilização popular e subsistência da vida, seria suficiente para vermos tantas cabeças direcionadas a solucionar problemas cruciais, em tempos em que nossa principal arma de ação é o uso tecnológico de recursos virtuais.

​Não é a angústia do isolamento que mobilizou a tantos nessa empreitada pela decisão punitiva, que expressa o poder em dizer quem permanece vivo ou morre, ou melhor, quem permanece preso ou volta à liberdade, paradoxalmente à nossa realidade de encarcerar quem comete infrações à lei contratualmente estabelecida para vivermos em paz.

​A guerra virtual travada entre as torcidas nada mais expressou o que há anos estamos pujantemente criando equivocadamente, sem atacar responsáveis, que são diversos, sobre políticas ditas identitárias –termo que, apesar de usar aqui, se estigmatizou e se tornou reducionista. Criou-se, primeiro, os estereótipos. Por um lado, a figura da feminista que, junto de seu grupo, defende posicionamentos comportamentais igualitários entre homens e mulheres. Do outro lado, a figura do politicamente incorreto e machista que, engraçado e sem “mi mi mi”, diz o que pensa, é simples e sem medo de enfrentar os problemas. Ainda criou-se as contradições, em que feministas carregariam traços racistas, já que demonstram comportamentos paradoxais entre o que defendem e certas atitudes envolvendo pessoas negras da casa.

​Pronto, fez-se o cenário que o brasileiro gosta e que vem sustentando há alguns anos: a discussão superficial sobre os problemas que nos afetam, negligenciando complexidades, e demarcando a polarização de posições políticas. Ou eu adiro ao politicamente correto, e me coloco num lado do tabuleiro, ou eu me posiciono, necessariamente, do lado contrário, sendo esmagado para aderir ao polo radical. Se eu odeio um, automaticamente sou jogada ao que lhe opõe, como um pêndulo. Alguma semelhança ao que ocorreu nas últimas eleições?

E o fomento da prática de oposição também nos joga, equivocadamente, para a criação de rachaduras dentro de um mesmo campo. Da mesma forma que uns queriam a saída da feminista sob o argumento de defesa de pautas raciais, já que via em sua figura a representação do privilégio sócio-econômico e o racismo, vamos também criando os antagonismos entre a luta de classes e a necessária política racial. Ambas compõem, juntas, a árdua guerra contra um inimigo comum, o neoliberalismo, o sistema financeiro, a concentração de riqueza, o poço das desigualdades, a miséria das vidas humanas e, também, o racismo, tão estrutural quanto as questões econômicas.

Em um momento em que o largo e denso efeito de séculos de capitalismo selvagem coloca vidas antagônicas no seu mais profundo extremo, temos a oportunidade de radicalizar a compreensão dos nossos problemas fundantes e pensar a formulação de soluções econômicas que interferem a atuação dos setores públicos e privados.

Se há algum antagonismo a ser feito, este não pode ser o de aderir ao time da Bruna Marquezine ou do Neymar, o de optar por um ou outro perfil ficcional, que não exprime a realidade do que ocorre hoje no país e no mundo, dando ainda mais ibope e recurso para aqueles que estiveram sempre nos espaços privilegiados do poder e não têm, nesse caso, nenhuma intenção em modificar estrutura social.

Os avanços ocasionados com os últimos anos de implementação de políticas de ações afirmativas, sejam aquelas ligadas à questão racial, sejam as de gênero ou de sexualidade, invariavelmente necessárias, não excluem o abismo da produção do racismo, machismo e homofobia que continuaram sendo paulatinamente construídos e massificados. Exemplo clássico é demonstrado pelo mapa da violência e o aumento progressivo de homicídios da população negra entre os anos de 2006 e 2016, anos em que o investimento em políticas de promoção da igualdade racial foi considerável. Isto porque não houve a real intervenção estrutural que poderia mexer de fato na base desigual do país.

Fazer do BBB o foco da ação no isolamento, seja individual, seja coletiva, seja por diversão, seja por posicionamento político, como se isso fosse nossa intervenção política necessária à realidade social, é apenas provar que ainda não estamos preparados para enfrentar inteligentemente nossos reais adversários, e que as próximas eleições prometem, novamente, leituras políticas equivocadas, resultados improfícuos e falta de esperança.

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