JONES MANOEL: Bernie Sanders e a “burocracia do Partido Democrata”

Em 2015, se minha memória não me engana, o marxista James Petras publicou uma análise mostrando que Bernie Sanders não seria candidato.

O argumento de Petras era simples e baseado numa boa análise histórica: nos últimos 150 da República Burguesa dos Estados Unidos nenhum político com possibilidades mínimas de atrito com o sistema de dominação chegou a ser candidato (candidatos, é claro, pelos partidos centrais do sistema). E, vale frisar, Carter e Kennedy não significavam nenhum questionamento importante ao sistema de dominação. Ao mesmo tempo, porém, todas as vezes que o sistema político estava com déficits de legitimidade, nas primárias, aparecia um candidato mais à esquerda prometendo renovação, mudanças, medidas mais avançadas e no final, como sempre, ele não era candidato. O processo de primárias cumpre a função de recuperar certo grau de legitimidade do sistema político criando a esperança do “foi por pouco” e ainda atua para direcionar as contradições sociais para a institucionalidade.

Petras, bem antes do fim das primárias, afirmava: Sanders não será candidato.

JONES MANOEL Bernie Sanders e a burocracia do Partido Democrata

Durante todo 2019-2020, não tive contato com uma análise que mostrasse uma mudança de quadro e que era factível imaginar a possibilidade de candidatura de Sanders.

Por isso, ainda guiado pela análise do Petras, sempre dizia: Sanders não será candidato. E não foi mesmo!

A falta dessa análise mais “estrutural”, resumida a no máximo críticas laterais à “burocracia do Partido Democrata” tem suas razões em uma perspectiva movimentista e na força da ideologia dominante. Explico.

– Sim, é fato que os movimentos populares e os sindicatos crescem em força nos Estados Unidos. Também é fato que ideias como sistema universal e público de saúde e educação ou uma reforma tributária progressiva, aliado com a positividade da palavra socialismo, conseguiram ampla aceitação. Mas o movimento da sociedade não torna o sistema político dos Estados Unidos menos fechado ou muda sua natureza histórica.

– Recentemente, Boulos lançou um vídeo explicando por que é socialista. No vídeo cita Bernie Sanders como exemplo. Boulos e a maioria de nossa esquerda, embora critiquem os Estados Unidos, não conseguem dimensionar como esse país é profundamente antidemocrático. Carlos Nelson Coutinho sempre chamou atenção para a diferença do modelo de “ocidentalização” dos Estados Unidos e Europa. O segundo, comportando uma democracia [burguesa] de massas, partidos operários fortes e debates da grande política; o primeiro, um modelo liberal corporativo que passou todo século XX sem ter partidos operários e uma ampla cultura socialista e quando teve ameaça de democratização relativa da sociedade, como no caso dos Panteras Negras e movimento pelos direitos civis, a máxima repressão foi logo mobilizada. O negócio foi resolvido na base da bala e cadeia!

Em suma, a nossa esquerda não compreende como deveria até hoje o caráter impenetrável da democracia burguesa dos Estados Unidos. Em paralelo a isso, a cada novo Bernie Sanders – ou antes, com Obama – ajuda a legitimar a dominação imperial-neocolonial dos EUA pelo mundo emprestando ao império do Norte um rótulo de democrático.

E não, eles não têm medo de um próximo Obama! Os Obama’s e os Sanders’s são funcionais ao sistema!

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